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O “lacre” é político: feministas negras que são ícones de estilo

O “lacre” é político: feministas negras que são ícones de estilo

Quem disse que uma militante não pode ser ícone de moda? Pois bem, venho informar que pode, sim! Você pode defender uma ou várias causas e lacrar também nos looks. É certo que a moda é um elemento importante quando nos referimos à identidade e identificação. Negras e negros, ao longo da história, sempre usaram o corpo e suas vestimentas como forma de afirmação, reafirmação e resistência. Para nós, negros, a preocupação com a estética ocupa um lugar de relevância em nossas vidas.

Por Lorena Lacerda via Guest Post para o Portal Geledés

A ligação de pessoas negras com o corpo diz muito sobre o processo de escravização dos nossos povos. Em função da deslocação forçada dos seus locais de origem, sem nenhum bem material, só lhes restavam o corpo como principal matéria de alicerce e enfrentamento às variadas formas de violência. E por falar em violência, as mulheres negras, dentro do processo histórico, foram vítimas do racismo e machismo. Subalternizadas e violadas em seus direitos, a elas foram negado o reconhecimento como seres humanos passíveis de beleza, nunca sendo consideradas dentro padrão vigente: o modelo branco eurocêntrico.

Então, para subverter tais opressões, o que hoje chamamos de “lacrar”, “divar” e “tombar” é a confirmação de que moda e ativismo podem estar lado a lado da palavra EM-PO-DE-RA-MEN-TO, o que significa, de forma simples e direta, dar poder e, o melhor, um poder de forma compartilhada entre pessoas de grupos desprovidos de garantias. Então, quando alguém for dizer para você que estética não tem nenhuma ligação ou importância dentro do movimento político, derrube tal falácia com essa lista incrível de militantes negras que lutam pelos direitos civis, que nunca se nomearam ou foram nomeadas como fashionistas (ainda!) e são verdadeiras rainhas de estilo.

  1. ANGELA DAVIS

Angela Davis é norte americana, feminista negra, lésbica, filósofa, professora acadêmica e militante dos direitos civis. Angela também integrou o partido comunista estadunidense como também foi liderança das/dos Panteras Negras, grupo que lutava contra o racismo nos Estados Unidos e que tinha um forte víeis estético como uma das principais bandeiras de luta. Sempre com os cabelos armados para cima, Davis é ícone quando o assunto é estilo. No fim dos anos 60 e início dos anos 70, a ativista carregava em seus looks muitas cores, estampas (a exemplo do “Paisley”), blusa gola alta, calça boca de sino, batas, vestidos tubinho, muitos acessórios (como argolas, colares e óculos de lentes arredondadas) e uma cabeleira Black Power de causar tombamentos por onde militava.

  1. KATHLEEN CLEAVER

Kathleen Cleaver, norte americana, professora acadêmica e integrante das/dos Panteras Negras ao lado de Angela Davis. Kathleen é sinônimo de estilo quando falamos sobre moda dos 70A ativista é disparada em elegância e poder. O seu principal símbolo estético é o cabelo volumoso, apontado para o alto, onde é possível ver em seu famoso vídeo disponível no youtube (https://www.youtube.com/watch?v=qr4nv94x7NM), onde ela defende o uso do cabelo natural como forma possível de beleza e engajamento contra o racismo.

  1. CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora feminista, nigeriana e tem em sua trajetória diversos livros escritos, como “Hibisco roxo”, “Americanah”, “Meio sol amarelo”, “Para educar crianças feministas” e o mais famoso mundialmente:“Sejamos todos feministas”, que teve trecho eternizado pela cantora Beyoncé na música Flawless. Chimamanda é potência quando o assunto é divar. Digo isso em todos os sentidos, seja na escrita, no ativismo e, claro, no estilo. É impossível não perceber a elegância, feminilidade e identidade afro em seus vestidos, turbantes com estampas étnicas e os seus cabelos, na maior parte das vezes trançados, o que ressalta a sua raiz africana. Ultimamente, Chimamanda tem divulgado algumas marcas diretamente da Nigéria em sua conta no instagram com a seguinte hashtag: #WearNigerian, como incentivo ao uso das marcas de criadores e estilistas nigerianos.

  1. DJAMILA RIBEIRO

Djamila Ribeiro é mestre em filosofia política pela Unicamp, feminista negra interseccional, ex-secretária adjunta da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos de São Paulo (gestão do prefeito Fernando Haddad), escreve para revista e site Carta Capital, colunista da Boitempo, apresentou programa com o recorte de gênero, classe, raça no canal televisivo Futura, além de ter participado de conferências em universidades renomadas, como Oxford. Djamila é uma inspiração quando falamos sobre ativismo. A sua voz ecoa em diversos espaços, principalmente na internet, onde ela compartilha seus textos e empodera milhares de mulheres no Brasil e no mundo. Quando o assunto é moda e estilo, a filósofa tem todo o requinte, sempre feminina, clássica e chic. Suas roupas carregam muita elegância, além de sempre estar divulgando e indicando marcas afro que compõem seus looks. Para quem ama trancinhas (box braids), Djamila já usou longas e, agora, as usa curtinhas, no melhor estilo chanel.

  1. MARIA CLARA ARAÚJO DOS PASSOS

Maria Clara Araújo dos Passos, mais conhecida como Maria Clara Araújo, é transfeminista negra, estudante de pedagogia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), idealizadora do projeto “Pedagogia da Travestilidade”, que pauta a perspectiva de pessoas trans e travestis dentro do contexto da educação. Maria Clara também foi a primeira mulher trans a ter seu nome social reconhecido no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e, a partir disso, sua luta já é um marco no Brasil quando falamos sobre direitos de pessoas travestis e transexuais. A militante também é um lacre quando falamos sobre estilo. Em 2015, ela foi garota propaganda da marca “Lola Cosmetics”, sendo referência de beleza, ostentando os seus traços fortes e marcantes. Dona de um sorriso maravilhoso, Maria Clara não pára de lacrar! Seus cabelos cacheados, que já foram roxos, loiros, também já passaram pelas tranças (box braids) e, agora, dá a vez a um poderoso dread super volumoso de causar tombamentos por aí.

  1. CARLA AKOTIRENE SANTOS

Carla Akotirene é feminista negra interseccional, assistente social da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (UPA — Subúrbio de Salvador), onde presta acolhimento às mulheres vítimas de violência. Mestre e Doutora pelo Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre a Mulher (NEIM — UFBA), a pesquisadora se dedica aos estudos sobre gênero, raça e sexismo no âmbito institucional das penitenciárias femininas. No que se refere a estilo, Carla Akotirene é o que eu nomeio de rainha-deusa-do-ébano. Com sua altivez e, ao mesmo tempo, delicadeza, ela chama atenção por onde passa, sempre com cores vibrantes (amarelo, dourado) e lindos acessórios que remetem a sua ancestralidade afro-brasileira. Carla também já chamou atenção da estilista negra baiana Carol Barreto, que por ela foi convidada a ser modelo da coleção Asè. Por fim, Carla é Akotirene por onde passa! Como uma boa taurina que é, exala charme e elegância aos olhos de quem a admira.

  1. STEPHANIE RIBEIRO

Stephanie Ribeiro é feminista negra interseccional, arquiteta e urbanista formada pela PUC (Pontifícia Universidade Católica — Sp) e uma jovem escritora, tendo como suas principais pautas o discurso de gênero e raça. Stephanie, aos 24 anos, já alcançou voos longos, com textos publicados em vários sites na internet. Atualmente assina a coluna #BlackGirlMagic da Revista Marie Clarie, na qual aborda questões sobre arte, moda, cultura e comportamento através da perspectiva negra e feminina. Por falar em moda e comportamento, Stephanie é um símbolo de bom gosto e requinte, sempre clássica, sem deixar de ser urbana, apostando em figurinos que marcam sua personalidade sensível: saias leves, vestidos com um toque “romântico” e acessórios minimalistas. O cabelo da escritora também é um fator importante a ser exaltado: seu corte moderno dá um toque ousado ao seu visual. E quando o assunto é make, Stephanie gosta de variar nos tons de sombra para demonstrar que a mulher negra pode usar as diversas paletas de cores como conceito de liberdade.

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