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“O sentimento da família é desesperador”, diz irmã de Marielle sobre impunidade

Quase sete meses após o assassinato da vereadora carioca, Anielle Franco publica livro com poema em homenagem à irmã e fala sobre como lida com a saudade

Por Kamille Viola Do Revista Marie Claire

Quase sete meses depois do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, morta em 14 de março, a mestre em Letras e Jornalismo Anielle Franco, 34 anos, lança um livro com um poema em homenagem à irmã. “Alma – antologia poética” (ed. Conexão 7) traz 54 poemas de 18 mulheres negras, sendo três de Anielle.

Aqui, além de contar da obra, Anielle fala sobre sua vontade de entrar para a política, da falta de respostas sobre o crime que vitimou sua irmã e de como lida com a saudade: “O que mais me mata hoje é saber que ela não vai acompanhar o crescimento da minha filha”.

Anielle Franco (Foto: Reprodução/Revista Marie Claire)

Marie Claire: Como aconteceu a ideia de publicar o livro?

Anielle Franco: Ele é de uma editora chamada Conexão 7, que é de um grande amigo meu e uma grande amiga minha que são irmãos, negros, e estão na luta do ativismo há muito tempo. Eles vieram com essa ideia de um projeto para reunir 18 mulheres negras para falarem que coisas que incomodavam, ou que mexiam com elas, enfim, do que quisessem. E aí a gente lançou dia 15 de setembro, no Museu do Negro, foi um evento bem bacana, a gente nem imaginava que fosse lotar. Chegamos a quase duas mil pessoas, teve fila, o livro acabou.

MC Você já escrevia poesia?
AF 
Não, foi a primeira vez que escrevi poesia.

MC Mas você estudou Letras e Jornalismo. Você se imaginava escritora?
AF
 Nunca me imaginei escritora. Mas vou te confessar que a escrita sempre foi um mundo à parte para mim: escria quando eu estava nervosa, triste e tal. Minha família tem a esma mania.  O meu pai tem várias cartas que ele escreve para a minha irmã. A minha mãe tem mensagens que ela gostaria de mandar no WhatsApp. O telefone da Marielle está com a polícia, mas vira e mexe ela esquece e manda. Às vezes, ela manda para a gente no grupo da família.

MC Você chegou a falar sobre se candidatar na política. Ainda pensa?

AF Na verdade, eu tinha um prazo de filiação, que era só até 7 de abril. E estava tudo muito recente ainda, perto do assassinato. Eu estava com muita raiva naquele começo, até a gente [deixar]passar a raiva… Eu penso, eu continuo, pensando… Não sei se na próxima, em 2020, eu não sei. Não digo que não, mas também não digo que vai ser logo, talvez eu mude de ideia e me encontre em outro lugar…

MC Há um “efeito Marielle”, pelo menos no Rio de Janeiro é muito nítido, de mais candidaturas de mulheres negras em comparação a outros anos. Como você vê isso?

AF Recebo bem, e acho que nossa família inteira recebe muito bem. Ela deixou um legado mesmo, e é uma responsabilidade muito grande. E dessas meninas terem coragem de se candidatar, de falarem que vão entrar, vão tentar e tudo mais, eu aplaudo, e acho bem forte.  Espero que entrem muitas e que essa onda não quebre agora, continue seguindo por aí.

MC Mais de seis meses se passaram e ainda não há uma resposta sobre quem matou Marielle e Anderson. Como você e sua família se sentem? Pensam em pedir apoio para órgãos internacionais? Porque o caso teve uma repercussão mundial.

AF A questão do apoio, na última conversa que a gente teve com o secretário [de segurança, o general Richard Nunes], a Anistia Internacional estava conosco. E eles acharam que era OK a gente ter uma galera fazendo uma investigação independente, de pessoas que estão acostumadas a fazer aquilo ali, que vêm de fora, não tem ligação com nada, com nenhum órgão daqui. É uma coisa que a gente já vem falando que pode ser que aconteça, e tomara que aconteça, porque estamos caminhando para sete meses sem resposta. Mas o sentimento da família é desesperador. A gente não consegue entender por que [ela foi morta]. Porque, por mais que as pessoas falem “ah, é porque ela falava das minorias”, ou “é porque era muito abusada”, ou “porque ela peitava todo mundo”. Para nós, nada disso é motivo para matar uma pessoa.

MC Como está a Luyara, filha de Marielle? 

AF A Lu, ela é introspectiva, não é muito da fala. Ela até escreve mais do que fala. Mas é uma adolescente, de 19 anos, que passou para a universidade há pouco tempo. Tem dias em que não quer ir, tem dias em que não quer falar, mas tem dia que quer beber, tem dia que quer namorar… Mas a gente está sendo bem amiga. Ela mora comigo, mas tem dias em que ela fica com a minha mãe. Ela está bem, acho que ela se está se reconstruindo aos pouquinhos. Com muitos altos e baixos, mas está indo.

MC A Marielle não tinha seguranças nem carro blindado, ao contrário de outros políticos. Ela chegou, em algum momento, a falar sobre isso?

AF Ela nunca pensou, ela nunca teve medo, ela nunca se sentia ameaçada nessa questão. Tinha vezes em que ela ia até sem motorista. Ela nem pensava.

Marielle Franco (Foto: Reprodução / Instagram)

MC Entrevistei a Marielle em fevereiro de 2017, no gabinete dela, e depois de um tempo ela precisou ir embora. Pedi para ir no carro com ela para continuar a conversa e ela deixou. Ela se sentou na frente, ao lado do motorista, que não era o Anderson, e fomos. Te juro que pensei: “Ela é uma vereadora e está aqui tão exposta, sem seguranças…” Pensei que ela poderia correr o risco de um assalto, por exemplo. Quando veio a notícia do assassinato, me lembrei disso.

AF Você e a minha mãe. Uma cena que me marca muito é a minha mãe pegando o Marcelo Freixo [deputado federal pelo PSOL, com quem Marielle trabalhou antes de ser vereadora] pela gola da camisa polo dele no dia do velório. Nunca vou me esquecer. Não é uma coisa de querer machucar. Mas ela pega ele, na frente de todo mundo naquele velório, e fala: “Você não cuidou da minha filha? Como você, que é uma pessoa mirada, jurada, ameaçada de morte, nunca disse a essa mulher que ela tinha que pegar leve?”. Acontece que a Marielle não iria ouvir.

MC Vocês têm críticas ao caso, em relação a como as coisas estão sendo conduzidas?

AF Não temos crítica, mas estamos agoniados com a demora. E [tem] um sigilo que a gente não consegue saber de absolutamente nada. Então isso nos deixa ainda mais agoniados. Temos que acreditar. Mas queríamos um pouco mais, uma agilidade maior, não sei, pelo menos alguma prévia de uma resposta, alguma coisa.

MC Você sofreram ameaças?

AF Sofri bastante, online. Insuportável mesmo. Uma coisa de ser uma galera muito chata: “Bem feito!”, “Para de falar”, “Olha a bala”, coisas assim desses seres humanos com quem a gente está tendo que conviver, porque a internet abre espaço para gente que não tinha coragem de falar o que pensa. E fui parada uma única vez por um cara, na porta da minha casa, eu indo trabalhar. Ele segurou meu braço e falou assim: “Você é irmã da Marielle, né? Você está falando muito. Acho que você podia parar de falar, para não ser a próxima.” Não sei quem era, de onde veio.

MC Depois do assassinato da Marielle, teve uma força-tarefa de advogadas para combater fake news. Você pensou em encaminhar também essas ameaças?

AF As advogadas têm todas. Elas estão tocando isso, inclusive daquela desembargadora, está lá no bololô. E as ameaças também.

MC Como você lida com a saudade?

AF Eu escrevo. Ou eu posto. Ou vejo foto da gente, vejo vídeo. O que mais me mata hoje é saber que ela não vai acompanhar o crescimento da minha filha. Porque a gente acompanhou o crescimento da Luyara tão amarradinho, tão perto, sabe? E a Mariah, a minha filha, sente falta, pergunta, porque Marielle era a madrinha. Ela ficava o tempo inteiro na nossa casa. E a Mariah vira e mexe fala: “E dinda? Liga para a dinda.” Essa parte é que dói muito.

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