O sul não é meu país

O respeito à democracia é fundamental, principalmente no momento de polaridade política que enfrentamos no país. Apesar de sempre respeitar opiniões de conhecidos e amigos nas publicações que fazia no Facebook, parei de publicar alguns posicionamentos na rede social pelo simples fato de perceber que as pessoas não estão preparadas para respeitar o próximo, muito menos realizar debates com bons argumentos, sem ofensas, sem partir para a apelação, para os xingamentos, reduzindo problemas políticos, econômicos e sociais a ataques pessoais.

Recentemente, a notícia da morte de um imigrante haitiano a facadas, em Navegantes, chocou boa parte dos catarinenses. A notícia teve destaque nacional. Também pudera. Dez pessoas assassinaram uma.

Quem observou e analisou todas as movimentações feitas com a chegada dos imigrantes em terras tupiniquins não ficou tão surpreso com a notícia, pois está alertando, constantemente, sobre o agravamento desse problema, enquanto o Estado assiste tudo e se mantém omisso. Mesmo assim, não tem como não se assustar com tamanha barbárie.

O descaso do governo, o exagero da imprensa mostrando de maneira negativa a chegada de imigrantes haitianos no país, a diferença de tratamento em relação aos outros imigrantes, o racismo por trás de todo o tratamento negado… Tudo isso foi relatado em um texto postado aqui no blog, meses atrás.

Infelizmente, as consequências estão aparecendo. Todo o discurso de ódio, todo o racismo e toda a xenofobia ficaram escondidas em desculpas sobre a crise.

Talvez, tentando respeitar a tal democracia, permitimos que o discurso de ódio se propagasse, que asb ideias de separação entre povos tomassem força, que sulistas se achassem superiores a nordestinos, que brasileiros se achassem superiores aos imigrantes, que brancos continuem se achando superiores aos negros.

O patriotismo e o nacionalismo só servem para dividir a classe trabalhadora, bem como o racismo. Ao amar cegamente uma cidade, um estado ou um país você pode não enxergar as imperfeições presentes nele. É o que acontece por aqui, no sul maravilha. A movimentação separatista, junto com uma imprensa pra lá de bairrista, insiste em jogar a culpa e a responsabilidade dos problemas para os outros. Outros estados, outros governos, outras pessoas…

Em um momento de crise financeira, as vítimas da vez foram os imigrantes, mas não todos, apenas os negros. O alarde dos perigos foram feitos por diversos veículos de comunicação, assistimos diversos casos de xenofobia e racismo por todo o país, contra os imigrantes negros. Poderíamos ter aprendido com o erro dos outros estados, mas, infelizmente, seguimos o fluxo. Na onda separatista e conservadora defendemos algo que achamos ser nosso. Um pedaço de terra, um papel, um emprego… Preferimos o ter pelo o ser. Em troca, expulsamos, afastamos. O diferente, o outro é a ameaça. Essa ameaça precisa ser extinta, não pode estar perto. E assim vamos construindo muros simbólicos e físicos, deixando de lado o respeito, a empatia, a troca de experiência e conhecimento.

A morte do imigrante haitiano, em Santa Catarina, não foi efetuada apenas com as mãos das pessoas que cometeram o crime físico. Foram efetuadas com as mãos dos que cometem os crimes psicológicos e simbólicos. Do movimento separatista, da imprensa, dos empresários, dos políticos, dos que negam a oportunidade e, também, com as mãos dos que se mantêm em silêncio diante tudo isso.

Devemos entender que o mundo foi feito para todos e que um mapa não pode ser motivo para a segregação.

O mundo é meu país!

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