terça-feira, outubro 4, 2022

Os homens que odeiam as mulheres

Há dias, duas raparigas indianas de 14 e 16 anos foram violadas em grupo. E, depois, enforcadas numa árvore. Foi tudo pragmático: mulher violada e morta não fala, logo não pode acusar. Aos costumes, sentiu-se alguma indignação internacional, embora casos desta natureza surjam com cada vez mais frequência nos média indianos para a seguir se espalharem urbi et orbe.

por Azeredo Lopes do Jornal de Notícias via Guest Post para o Portal Geledés

Este é, de alguma forma, um caso terrivelmente banal. Todos os anos são apresentadas milhares de queixas por violação na Índia, mas o número real de violações é muitíssimo superior, não só porque muitas vezes a Polícia recusa pura e simplesmente registar a queixa como, outras vezes, a faz desaparecer, como outras vezes, não faz qualquer investigação como, outras vezes, até pode haver uma investigação, mas daquelas lentas, muito lentas, para não aborrecer ninguém. Ora, sem queixa, na Índia não há crime, e já se viu como, mesmo havendo, a via-sacra pode ser interminável.

Daí, também, o clima de terror que se abate sobre as vítimas e as suas famílias. Por exemplo, num caso recente, a mãe de uma jovem violada foi espancada com tremenda brutalidade porque apresentou queixa e porque recusou retirá-la. É assim mesmo: bico calado.

Já agora, é melhor que a resistência não seja demasiada. Há alguns dias, um grupo de indivíduos entrou na casa de uma família perto da fronteira com o Bangladesh. Levaram a mulher, de trinta e cinco anos, fecharam o marido e os filhos. Só que a mulher, vejam lá, não queria ser violada, e resistiu. Foi abatida de imediato com um tiro na cabeça.

Mas, nesta galeria das violações, há mais, há muito mais. Uma bebé de 10 meses violada em Nova Deli por um vizinho? Já há. Uma bebé de 18 meses violada e abandonada na rua em Calecute? Já há. Uma rapariga de 14 anos violada e assassinada numa esquadra de Polícia no Uttar Pradesh? Já há. Um marido que organiza a violação grupal da sua própria mulher? Já há. Uma avó de 65 anos violada no Kharagpur? Já há.

Podia continuar, e seria fácil. Na Índia, segundo dados oficiais – e mesmo contando apenas aquela que se calcula ser a muito pequena minoria que recusa calar – há uma queixa por violação a cada 21 minutos.

É claro que podemos admitir que se trata de uma questão “cultural”. Só há um ou dois pequenos problemas nesta abordagem. Primeiro, não consigo descobrir como é que a “cultura”, a “tradição” ou o “uso” podem explicar e muito menos justificar a agressão sexual, dirigida de forma indistinta a mulheres, raparigas ou crianças. Depois, a violação constitui uma das formas mais gritantes e absolutas de desprezo de um ser humano por outro, porque nem sequer lhe reconhece o direito de ser, mas apenas o de ser objeto de prazer.

A esta infâmia junta-se agora repelência mais grave. Babulal Gaur, ministro do Interior do estado indiano do Madhya Pradesh, sabe-se agora, não concorda comigo. Pois que, falando da violação, afirmou: “Este é um crime social que depende de homens e mulheres. Umas vezes é correto, outras vezes é errado”.

Aviolação, por isso, tem dias. Às vezes, até pode ser uma violação “certa”. Só na cabeça deste energúmeno, é claro. Mas este energúmeno é um alto responsável indiano, e nem sequer está isolado nestes propósitos e, mais do que isso, nestas convicções. Por isso, estas declarações são especialmente graves e passam uma mensagem devastadora. Para as vítimas, claro. Mas também porque acicatam os agressores, abençoados com esta benevolência tão (pouco) masculina.

Narendra Modi, o recém-eleito primeiro-ministro indiano, nada disse sobre o caso das duas jovens violadas e enforcadas. Mas, ao calar, falou. E “falou” muito mal.

Na Idade Média, os senhores reivindicavam um direito de pernada. No séc. XXI, muitos mais homens reclamam esse direito sobre qualquer ser humano do sexo feminino. Qualquer que seja a idade, o número de violadores que se abate sobre uma só vítima ou as consequências para esta. Na Índia, porque sobre este caso decidi hoje escrever, é e continua a ser assim, apesar do endurecimento das penas.

Mas não é só na Índia, não é só longe.

Pode até ser, sei lá, numa família perto de si.

Nota: roubei o título de forma descarada a Stieg Larsson.

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