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Passe racista do Linha de passe

Chegamos ao cinema cedo. Tivemos tempo para aquele docinho que após o almoço ninguém rejeita. Água para rebater e refrescar a consciência e aliviar seu peso. Bom lugar no centro da sala.

Enquanto aguardávamos, cometendo nosso delitozinho açucarado, comentamos um penteado em cabelo crespo de uma mulher que entrara e fora sentar mais à frente. Era um penteado simples, porém realçava o rosto feminino. Umas tranças presas à frente e o restante do cabelo bem lua cheia, o que se chamou na década de 70 de “black-power”, que de power teve pouca duração, pois logo retornou a febre dos alisantes e surgiu essa mania de raspar que, no Brasil, teve início com alguns jogadores de futebol complexados e se alastrou. O penteado da moça era mesmo uma obra de arte que fez minha parceira – uma das muitas (ainda poucas) que ousa não alisar nem fritar seu cabelo -, ficar com uma ponta de inveja, mas inveja saudável, de quem admira de forma exagerada.  Depois, vi uma outra jovem também com o seu cabelo crespo natural e exuberante entrar altiva e sentar-se. Ambas belas e sozinhas!

Bem, o “Linha de Passe” – dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, elogiado no Festival de Cannes -, começou, após as inúmeras projeções publicitárias que deveriam garantir cinema de graça para todo mundo. Não faltou a do etanol, mostrando, sem sutileza, um macaco flanelinha. Dentro do carro, só brancos. Por falar em publicidade, lembro que, na Revista Veja, de 10/9/2008, p.36, uma propaganda do filme citava, dentre outras, a seguinte frase, atribuída Todd McCarthy, do periódico Variety: “Magistralmente realizado em cada detalhe.” Cito a frase, pois é aparentemente de detalhe que vou discorrer e, em parte, discordar do “magistralmente”.

No filme, um personagem negro da família, núcleo da história, chama atenção. É a única criança (Reginaldo) do grupo familiar e o desempenho do ator mirim (Kaíque) é espetacular. Filho de mãe branca (Cleuza) – com atuação já premiada de Sandra Corveloni, em Cannes – com pai negro ausente, o personagem vive com outros três irmãos, esses filhos de brancos ou mestiços, pais também só presentes em foto, ao que se presume.

Racismo nas expressões – neguinho pra lá, neguinho pra cá – não falta nas bocas dos irmãos e mãe, todos já adultos, e, portanto, quatro contra um (mais frágil por ser criança) nesse quesito da discriminação doméstica. Nenhuma resposta. Passados alguns minutos do filme, o próprio Reginaldo diz, referindo-se ao pai que vive buscando: “Se eu sou assim dessa cor, ele deve ser um carvão”. Silêncio da mãe. Risos na platéia.

O mesmo personagem menino, depois de a mãe ralhar com ele, dizendo: “Credo, Reginaldo! Vai dar um jeito nesse cabelo. Tá parecendo um mendigo!”, responde na mais singela baixa auto-estima: “Cabelo de preto tem jeito?” E a mãe retruca: “Tem jeito sim senhor!” O garoto resmunga, faz referência à gravidez da mãe e esta depois de dar uns tapas no filho, grita: “Seu desgraçado. Negrinho desaforado…” A estratégia discriminatória é a comum: induzir a que se conclua que quem faz o preconceito contra o negro é o próprio negro. Afinal é o menino que afirma perguntando. A mãe diz que tem jeito. E qual seria o jeito? Certamente alisar ou raspar. Quanto a usar “negrinho” como ofensa (já que está associado a “desaforado”), nenhum contraponto. É como se o filme, pela naturalização do racismo, entoasse o título de um livro defensivo: “Não somos racistas”.

Comentei a discriminação com minha parceira. Pensei nas moças que eu havia admirado, não só pela ousadia (veja a que ponto chegamos!) de usarem seus cabelos naturais, mas pela beleza dos penteados. Lamentei de elas estarem sozinhas, imaginando seus sentimentos ante os citados detalhes.

Faz tempo que Lamartine Babo e os Irmãos Valença compuseram a música “O teu cabelo não nega” (1931), uma ode ao racismo cordial tipo exportação. Walter Salles e Daniela Thomas atualizam-na com a mesma destreza dos intelectuais brasileiros adeptos do politicamente incorreto. Ofender os descendentes de escravizados deve dar a eles um gostinho sádico irresistível, reacendendo a herança de inconfessáveis rancores escravistas.

A fala relativa a cabelo lembra outra do mesmo diretor. No filme “Central do Brasil”, a personagem representada por Fernanda Montenegro, ao comentar uma carta-cantada que redigiu para um analfabeto, endereçada a uma mulher, revela que o mesmo não tem cabelo liso como pediu para escrever. Faz tal revelação a alguém expressando um gesto com os dedos tensos para dentro das mãos e realiza uma careta. Ou seja, o cabelo crespo fica relacionado a aspectos grotescos.

Quanto à cor da pele, outro diretor – Fernando Meirelles – no filme “Cidade de Deus” não deixou por menos. O bandido mais cruel, que o livro de Paulo Lins nem descreve como negro, no filme tem a pele bem escura e o bandido “bonzinho” é mulato claro. Também aí, na mesma película, a personagem estuprada, que no livro é loira, aparece no filme como negra. Coincidência? Não. Doença.

Lembremos ainda outra película, “Era uma vez…”, filme do diretor Breno Silveira, baseado na peça Romeu e Julieta, de Shakespeare. Favelado e patricinha formam o par romântico. O favelado (Déa) é mestiço. E o irmão de criação (Carlão), negro, grita em dois momentos que ele tem a bunda branca. Ou seja, é um mestiço quase branco. O rico arruinado, pai da patricinha, em nenhum momento refere-se à cor do rapaz, mas à sua condição econômica. De novo o “Não somos racistas” da classe média. Carlão, por sua vez, é xingado de macaco, várias vezes, pelo marginal Café Frio, também mestiço. Inclusive, parceiros negros do mesmo bandido riem da referida ofensa racial. Apóiam-na, portanto. Mais uma vez a conivência do próprio negro com a sua discriminação.

Bem, eu e outros tantos negros que assistimos a filmes nacionais estamos carecas de saber (e não necessariamente raspados) que diretores brancos desopilam seu fígado nos traços que nos diferenciam deles. A pergunta é: e o fazem por quê? Denúncia? Tais manifestações estão por demais denunciadas. Carecem, sim, de resposta. Quando a discriminação não tem resposta é mera reprodução, cristalização do preconceito. Tais manifestações de racismo, no contexto em que se realizam não conseguem esconder o cancro coletivo sobre o qual todos fazem silêncio: o complexo de superioridade racial. Isso mesmo: cancro, pois evoluiu e vai destruindo a mente humana, tendo em vista que redunda em agressividade e perda de controle sobre ela, fato que já vitimou milhões de pessoas. É só lembrar da Segunda Guerra Mundial e do apartheid.

O riso é usado como punição. Nos casos citados, pode-se entender que rir do cabelo natural e da cor do afro-descendente é uma forma de punir aqueles que chegaram à condição de ter recursos para assistir a filmes em um país onde menos de 20% da população consegue. Mas, é um pouco mais que isso. Trata-se de afirmação da branquitude. Quando um diretor faz o público branco racista rir daquilo que é natural no negro, ele está reforçando o seu cancro psíquico e o de muita gente. Está grunhindo que o cabelo liso é melhor que o cabelo crespo, e que, portanto, o branco é superior ao negro. A naturalização do racismo é, assim, a forma de retroalimentar o tumor, de mantê-lo vivo e voraz.

São apenas detalhes de filmes, que se juntam a outros de outros filmes, a cenas de novela, a narrativas literárias, a matérias jornalísticas e, assim, vai sendo tecida a rede da crueldade que faz muitos negros e mestiços-negros empenharem-se na aproximação do padrão de beleza branco, com o afastamento das suas características naturais, alimentando um indústria de cosméticos de donos, em sua maioria, brancos. São lançados em um processo de autonegação constante. A baixa auto-estima é apenas uma faceta de tantas outras, como não se sentir inteiramente apto a concorrer nessa arena do dia-a-dia.

Esses “detalhes” e, sobretudo, o que está por trás deles justificam que se promova um cinema negro-brasileiro como o vêm realizando diretores como Joelzito Araújo, Antônio Pitanga, Zózimo Bulbul, Celso Prudente, Jeferson De, Noel Carvalho, Ari Cândido, Daniel Santiago, Rogério de Moura dentre outros, pois, a todo momento, onde menos se espera, a ponta da “patologia social do branco brasileiro”, como diria o sociólogo Guerreiro Ramos, aparece. E os racistas riem para punir os negros que, saudavelmente, não “conhecem seu lugar” e que por isso mesmo não cometem haraquiri estético, por mais indolor que ele aparente ser.

fonte: Jornal Irohin online/ Notícia de 24/09/2008

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