Por uma política nova e feminista

A filósofa Marcia Tiburi reflete sobre a presença e a representação feminina em esferas governamentais

Por JOYCE ATHIÊ, do O Tempo 

Trazendo para si a pergunta do filósofo francês Roland Barthes – “Por que não falar a língua de todo mundo?” –, Marcia Tiburi demonstra ponderação e disposição para a conversa que realiza hoje no Sesc Palladium. Ao pensar em um público amplo que, por vezes, apresenta dificuldade de entender o que de fato venha a ser o feminismo, ela se propõe a um encontro pautado pelo diálogo e por uma explanação histórica que contribua para esclarecer um ponto crucial: as narrativas anti-feministas são irmãs do patriarcado.

“Quero elucidar características históricas para que as pessoas possam se relacionar com o conceito de forma mais esclarecida, para além da esfera do senso comum, e dialogar sobre esses temas sem cair nas armadilhas da manutenção de discursos machistas”, afirma.

Ao abordar o que constituiu o feminismo ao longo de sua história, Márcia marca o movimento como a politização da condição feminina. “O feminismo é sempre político e uma forma de pensar a política no nosso cotidiano”, pontua.

No sentido mais estrito do termo, a filósofa fala da experiência e dos propósitos da #partida, movimento espontâneo e horizontal que tem se espalhado pelo país e reunido feministas a fim mudar o paradigma do poder. “Essa é uma experiência nova. Temos conversado sobre como é preciso chegar onde o poder está, ou seja, no governo. Estamos discutindo candidaturas e fazendo o que é próprio do feminismo: protagonizar e preparar mulheres para ocupar o governo. É um movimento que funciona como partido, embora ainda não sejamos um”.

Nesse sentido, Marcia defende que a presença da mulher no governo e em outras esferas de decisão traz o sentido de transformação. “As feministas não vão fazer a manutenção do poder convencional porque o feminismo não é tradicional. Mas, de fato, não podemos pensar na mulher como ornamento, apenas como representação do poder político ou econômico”, afirma. “É importante pensar na formação política das mulheres. É isso que vai dar a elas a crítica necessária para que possam pensar nos seus próprios direitos e lugares e, a partir daí, pactuar uma desconstrução do poder, da dominação masculina que já conhecemos”.

Para ela, a formação é a garantia da desmontagem do machismo estrutural. “O poder não pode ser vivido apenas como uma representação abstrata. Temos que defender que as mulheres possam questionar, refletir sobre suas vidas e produzir outro lugar pra si. Como disse Luiza Erundina (deputada federal), as mulheres têm que aprender a disputar o poder”.

Sem se esquecer das contradições e dissensos dos muitos feminismos, ela lembra o conceito de sororidade, palavra estranha e um tanto desconhecida, que carrega em si o sentido da solidariedade feminina. “É o que nos chama a atenção para que é preciso fazer democracia com a mais próxima. O discurso que diz que mulheres competem e não são solidárias é da ordem da misoginia. A conversa entre as mulheres foi desincentivada e o feminismo constitui uma comunidade de diálogo, ainda que ele seja múltiplo e não consensual”.

E sobre uma possível candidatura, Marcia não recua. “O momento exige de nós certas posições e, no meu caso, isso não está descartado. Não sei se agora ou mais pra frente. Mas a pergunta que nós mulheres devemos nos fazer agora é ‘por que não eu? Por que não posso me ocupar com a cidadania? Por que não posso enfrentar uma candidatura?’”, provoca.

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