Política embolorada

Diante da defesa do PMDB a Pedro Paulo, mulheres exigem nova postura dos donos da política

Por Flávia Oliveira, do O Globo

Foto: Marta Azevedo

Há quase cinco meses, a sociedade carioca acompanha o enredo da denúncia de agressão de Pedro Paulo Carvalho, secretário de Coordenação de Governo da Prefeitura do Rio, a Alexandra Marcondes Teixeira, com quem foi casado. Às vésperas do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, cabe lamentar que a avalanche de informações não tenha resultado em algo positivo nem na política local nem em ações de combate à violência doméstica. Discutido à exaustão na imprensa e nas redes sociais, era de se esperar que o escândalo da vez empurrasse as mulheres para os holofotes da corrida eleitoral carioca em 2016. No entanto, o que se vê nos partidos é a mobilização monótona em torno dos candidatos de sempre. E o que se ouve do PMDB fluminense é a narrativa velha de guerra, que primeiro nega, depois justifica a agressão e, por fim, desqualifica a vítima.

Na denúncia original, de 2010, a então mulher do candidato favorito do prefeito Eduardo Paes à própria sucessão declarou ter levado socos e pontapés do marido. Quando a queixa veio a público, ela negou as agressões. Pedro Paulo, de início, justificou a violência como momento de destempero. Mais tarde, passou a dizer que não bateu, teria se defendido da fúria da ex. Agora, em inquérito autorizado pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e a Polícia Federal vão buscar a verdade. Pedro Paulo, deputado federal licenciado (PMDB-RJ), tem direito a foro privilegiado.

O Brasil é um país com larga folha corrida em atos de violência contra a mulher. Agressões e assassinatos integram o noticiário diário, de Norte a Sul. O cancioneiro popular é repleto de letras nas quais homens ameaçam, espancam e até matam companheiras. Não por acaso, um arcabouço jurídico-policial — tais como delegacias de atendimento à mulher, telefone para receber denúncias (180), Lei Maria da Penha e Lei do Feminicídio — foi estruturado para coibir tanto a brutalidade quanto a tolerância social a ela.

Mais recentemente, a sociedade civil vem aprofundando o debate sobre direitos da mulher em campanhas como #primeiroassédio, #meuamigosecreto e #agoraéquesãoelas. Sem falar nas passeatas contra o projeto de lei que dificulta o acesso legal ao aborto, proposto pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Tamanha mobilização sugere que as mulheres brasileiras não apenas exigem como merecem uma nova postura dos donos da política. Mas, diante da queixa de agressão contra um “prefeitável”, os caciques do PMDB local reproduziram a velha máxima “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. O governador Luiz Fernando Pezão chegou a dizer à revista “Poder” que “tem de ver qual foi o motivo (da agressão)”, como se houvesse justificativa para atos de violência. Um capítulo condenável da vida privada de um político jovem e em ascensão veio a público, e a sociedade assistiu à repetição de estereótipos.

— As mulheres estão falando a partir das ruas, porque no espaço da política estão silenciadas. Ele está tomado pelos homens, principalmente os homens brancos, que agem em prol de seus próprios interesses — dispara Jurema Werneck, da ONG Criola, de mulheres negras.

— A grande surpresa seria ouvir do universo masculino outro discurso. Mas as reações no mundo político foram as esperadas. E, infelizmente, houve eco em outros setores da sociedade. Isso explica em parte o desinteresse das mulheres em se candidatar no Brasil. O sistema político não é acolhedor — diz Thereza Lobo, do movimento Rio Como Vamos.

Outra narrativa passaria pela consciência de que atitudes de homens públicos podem influenciar o cidadão comum que, ainda ontem, partiu para cima da mulher sem pensar que cometia um crime. O prefeito Paes, o governador Pezão, o presidente do PMDB-RJ, Jorge Picciani, deveriam ter feito do episódio uma plataforma para repudiar a violência doméstica. O secretário Pedro Paulo desperdiçou a chance de falar ao eleitorado, com sinceridade, sobre como o Brasil erra ao banalizar e justificar agressões a mulheres. Novidade seria vê-lo palestrando sobre o episódio e propondo políticas contra agressões conjugais. Arrependimento e reintegração são o que a sociedade espera dos que violam o pacto de legalidade que a sustenta.

Para completar, os partidos fluminenses estão desperdiçando a oportunidade de abrir portas a candidaturas femininas e, assim, levar adiante o debate sobre violência doméstica e tantos outros de interesse da cidade sob outra ótica. As legendas têm até 5 de julho para formalizar as chapas. Até aqui, a única possível candidata é a deputada federal Clarissa Garotinho (PR). O deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) promete ter uma mulher como vice. O PSDB entrou na briga por Carlos Roberto Osório, ex-secretário municipal e estadual de Transportes.

 

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