sábado, julho 2, 2022
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Que histórias são disparadas por uma fotografia em situação colonial?

Imagem 1: Indígenas. PT/CPF/ALV/006772

A imagem acima apresenta, no centro do espaço fotográfico, um homem negro sentado, elegantemente vestido com um manto, uma camisa longa ricamente detalhada e uma calça listrada. Observa-se ainda um cetro em suas mãos cruzadas e um chapéu. O conjunto compõe a indumentária do retratado, que dirige seu olhar atentamente para a lente do fotógrafo. Essa descrição dos elementos contrasta com o título da imagem, “Indígenas”, em seu fundo, sob a guarda do Centro Português de Fotografia. Sua situação no arquivo dispara inquietações: Quem seria esse homem? Qual contexto produziu esse registro? Onde foi fotografado? Por que pertence a uma instituição portuguesa e tem esse título? As perguntas fazem-nos refletir sobre a fotografia em contexto colonial. 

O desenvolvimento e a modernização do aparato fotográfico ocorreram simultaneamente à expansão colonial na África. Mais que uma coincidência, esse recurso técnico foi mobilizado para documentar a vida no espaço colonial, seus habitantes, suas manifestações socio-culturais e as ações do governo a fim de conferir justificativas para o colonialismo. Nesse sentido, atividades governamentais, missões religiosas, expedições científicas e o próprio cotidiano dos colonos constituíram um conjunto visual que ocupou álbuns familiares, documentos governamentais, trabalhos intelectuais, relatórios de atividades científicas, souvenirs, publicações da imprensa periódica e peças de propaganda colonial. 

Esse cenário promoveu consideráveis coleções fotográficas que formaram historicamente diferentes culturas visuais coloniais. Essas imagens visuais foram fundamentais para educar as mentes e apresentarem a partir de fragmentos como era a vida nas possessões, seus habitantes, as ações do governo e os trabalhos realizados Além-mar ou eventos na metrópole para os potenciais colonos. A fotografia de D. Pedro VII, rei do Congo (observada na imagem 1), é um exemplo de como o regime português produziu imagens fotográficas alinhadas ao projeto colonial hegemônico.

O registro em destaque foi produzido na Exposição do Mundo Português, em 1940, pelo importante estabelecimento fotográfico portuense Casa Alvão. As Comemorações Centenárias (como o evento também era chamado) tinham como objetivo comemorar a fundação de Portugal de 1140 e a restauração portuguesa de 1640. Esses fatos históricos foram usados pelo regime salazarista para produzir uma grande demonstração pública da ideia mítica da nação e posicionar o país no cenário internacional enquanto uma nação grandiosa tanto no passado (devido à ação dos “homens portugueses visionários” que construíram aquele grande país) quanto no presente (graças ao esforço e empreendimento do Estado Novo e António Salazar, seu líder).

As colônias possuíam um lugar estratégico dentro da visão geopolítica de Salazar e de outros políticos portugueses. Em síntese, eram uma moeda importante para estabelecer as relações internacionais e manter sua independência frente à vizinha Espanha. A dimensão colonial precisava estar presente em 1940 e, por isso, foi elaborado o Jardim Colonial (área criada para apresentar a vida na colônia para os visitantes da exposição). A seção contou com espaços e objetos que dimensionavam uma leitura da colonização portuguesa, e também mobilizou nativos para criar um dos últimos zoo-humanos na Europa antes do processo de descolonização do continente africano. D. Pedro VII foi fotografado num dos desfiles públicos das Comemorações Centenárias. No entanto, o monarca possuía um estatuto diferenciado quando comparado com outros nativos expostos. Ele possuía livre trânsito no evento, em Lisboa e no país. D. Pedro VII do Congo inclusive participou de eventos em outras cidades ao longo dos seis meses de evento. As relações pessoais entre os dirigentes do Estado Novo e a autoridade congolesa também estavam presentes e foram registradas em um telegrama transcrito pelas autoridades de São Tomé e Príncipe, durante a sua passagem pelo arquipélago em sua jornada para Lisboa, em 1940.

O documento insere algumas camadas históricas ao retratado. O primeiro ponto consiste no tratamento do monarca, visto como uma autoridade de Estado. O segundo é o elogio a Salazar, descrito no telegrama como “Salvador de Portugal e grande estadista mundial”, e a sua relação de compadrio com o Presidente da República, General Óscar Carmona (1869-1951), inclusive sua afilhada estava indo “para receber a benção do padrinho e da mãe Pátria”. Esse último dado indica a existência de outros mecanismos para conseguir sua presença na Exposição de 1940. O terceiro está direcionado ao consumo de sua imagem visual. D. Pedro VII, mesmo com todas as especificidades na construção do evento fotográfico (aquele momento possível de ser fotografado), não deixou de ser identificado como “indígena”. Essa constatação pode ser analisada a partir da função da fotografia dentro do colonialismo. O itinerário da imagem visual agenciada pelo Estado buscou elaborar e difundir a propaganda colonial de acordo com os projetos hegemônicos do governo, restringindo os usos dissonantes ao objetivo governamental e, principalmente, silenciando informações que a comprometessem. Embora o rei não fosse um indígena tal qual definido no Estatuto do Indigenato (pois ele falava português e havia incorporado os costumes dos colonizadores), a estrutura racista do império o classificava como tal para inferiorizá-lo. 

Esse quadro permite compreender as dimensões do racismo na educação do olhar direcionadas às personagens negras fotografadas em situação colonial. Geralmente, sujeitos negros não são vistos em suas complexidades, contradições e agência na construção de sua própria história. Pelo contrário, o fotografado é visto como um sujeito passivo que não participou do evento fotográfico, tampouco foi capaz de deixar algum vestígio de sua presença no encontro/confronto fotográfico. Esse dado é observado, inclusive, em cenas da elite colonial (como o retrato do rei do Congo). Mas por que construir uma imagem de uma monarquia negra nessas vestes?

Essa elaboração estava alinhada à afirmativa das longínquas relações entre o Reino do Congo e Portugal, desde o século XV, mesmo que na realidade elas tenham sido marcadas por conflitos, tensões, continuidades e descontinuidades. Estabelecer uma presença portuguesa, temporalmente contínua nos territórios coloniais foi um dos objetivos dos eventos promovidos pelo regime salazarista para criar uma ideia de existência e ação lusitana no Além-mar. Portanto, apresentar um “rei africano” que usava trajes europeus, mantinha “relações de amizade” com o Estado Novo e compunha a ideia de solidariedade entre nativos e portugueses dentro da construção do império era fundamental para a impressão e difusão da propaganda almejada pelo regime salazarista, principalmente através de suas imagens fotográficas. 

No entanto, para imprimir essa mensagem nos eventos públicos, o governo e seus colaboradores precisavam também lidar com as vontades dessas “autoridades nativas”, as quais nem sempre estavam sob o controle dos organizadores ou do próprio governo salazarista. D. Pedro VII, por exemplo, participou de um casamento e um batismo na seção colonial, noticiados na imprensa periódica portuguesa em tom de grande acontecimento. As celebrações, inclusive, não ficaram restritas àquele espaço, como indica a edição de 23 de agosto de 1940 do jornal O Século, que relata um jantar no qual noivos estavam “acompanhados pelo rei do Congo e seus ministros; pelo régulo de Timor, que ostentava os seus trajes garridos; [e] pelo alferes de segunda linha Breme Sanhá”. 

Esse livre trânsito das “autoridades coloniais” quebra nossa percepção do controle total dessas pessoas e sinaliza brechas para ações sem o conhecimento das autoridades portuguesas. No caso do evento acima, o ministro das colônias Francisco Vieira Machado enviou um comunicado ao delegado da representação de Macau estranhando “só ter tido conhecimento pelos jornais do casamento de dois indígenas africanos realizado há dias na Exposição”. O representante, Leopoldo Danilo Barreiros respondeu, indignado, que “Sendo eu Delegado de Macau e não tendo os indígenas a meu cargo tido qualquer interferência no assunto, não tive a menor participação direta ou indireta no referido ato, para o qual, de resto, nem fui convidado”.

Outro caso envolvendo o Rei do Congo foi a compra de ternos para si e sua comitiva na Baixa de Lisboa. Já escrevi antes, o monarca tinha livre trânsito, podendo sair e participar de eventos em Portugal, tendo à sua disposição um carro cedido pelo presidente da República para seu deslocamento. A compra teria sido normal, não tivesse ela sido feita na conta da exposição sem nenhum comunicado à sua organização. Tanto que quando o vendedor Júlio L de Moura foi cobrar o valor, recebeu o seguinte comunicado do comissário adjunto, Manuel de Sá e Melo: “[…] tenho a honra de informar V. Exª que desconhecendo o Sr. Diretor da Seção Colonial que tivessem sido fornecidos quaisquer artigos de vestuário ao Rei do Congo [..] não é por consequência da responsabilidade deste comissariado o pagamento da fatura”.

O documento, além de apontar o desconhecimento dos organizadores, indica que a cobrança estava sendo feita há algum tempo, porque as Comemorações Centenárias haviam acabado em dezembro e, em fevereiro de 1941, o pagamento ainda não tinha sido efetivado. Porém, esse impasse não deixou de realizar a estratégia do Rei do Congo: o pagamento dos ternos pelo evento. 

Assim, o olhar penetrante de D. Pedro VII sentado com um manto em seus ombros e um cetro em suas mãos cruzadas disparou diversas histórias e questões em torno de uma fotografia em situação colonial, assim como evidenciou problemas centrais no combate ao racismo: Como pensamos as imagens fotográficas produzidas em contexto colonial? Seus usos contemporâneos apresentam a agência histórica dos retratados ou os apresentam como ilustração de algo? Esses usos reforçam ou questionam a estrutura racista-colonial? Desmantelam os vestígios do colonialismo ou perpetuam seus estereótipos? Questões como essas permanecem nos horizontes daqueles que buscam repensar o vasto arquivo fotográfico produzido pelo colonialismo contemporâneo e se apresentam como o principal desafio na construção de uma sociedade efetivamente antirracista.

Assista ao vídeo do historiador Marcus Vinicius de Oliveira no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC):

Ensino Fundamental: EF06HI02 (6º ano: Identificar a gênese da produção do saber histórico e analisar o significado das fontes que originaram determinadas formas de registro em sociedades e épocas distintas); e EF09HI36 (9º ano: Identificar e discutir as diversidades identitárias e seus significados históricos no início do século XXI, combatendo qualquer forma de preconceito e violência).

Ensino Médio: EM13CHS101 (Analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão e à crítica de ideias filosóficas e processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais); EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais da emergência de matrizes conceituais hegemônicas (etnocentrismo, evolução, modernidade etc.), comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos); EM13CHS104 (Analisar objetos da cultura material e imaterial como suporte de conhecimentos, valores, crenças e práticas que singularizam diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço); EM13CHS503  (Identificar diversas formas de violência (física, simbólica, psicológica etc.), suas causas, significados e usos políticos, sociais e culturais, avaliando e propondo mecanismos para combatê-las, com base em argumentos éticos); EM13CHS504 (Analisar e avaliar os impasses ético-políticos decorrentes das transformações científicas e tecnológicas no mundo contemporâneo e seus desdobramentos  nas atitudes e nos valores de indivíduos, grupos sociais, sociedades e culturas).


Marcus Vinicius de Oliveira

Doutorando em História na Universidade Federal Fluminense; E-mail: marcusoliveira93@gmail.com; Instagram @mrcoliver.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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