quarta-feira, janeiro 19, 2022
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Racismo em tempos de covid-19

Quão mais exasperados são os tempos, mais excessos se cometem. Depois de semanas de quarentena, recorda-se já com saudades o “mundo antes de covid-19”. Não há dúvida que há um mundo pré e pós-covid-19. No entanto, não podemos cair no erro de embelezar um mundo, que por si só já pecava por defeitos.

E é precisamente baseados nestes defeitos, sendo um destes defeitos o racismo, que muitos excessos se estão a cometer. Em Janeiro e Fevereiro a maior parte dos casos de racismo a que se assistiu relacionados com a covid-19 foi contra asiáticos, por o surto se encontrar descontrolado quase apenas na China. Discriminou-se indiscriminadamente, passe-se a redundância, pois bastava parecer asiático, e não necessariamente chinês, para ser vítima de discriminação. Se a nova estirpe do coronavírus praticamente não sofre de mutações, o mesmo não se aplica ao racismo, que se transforma, adapta e multiplica. Ironicamente, a situação neste momento inverteu-se e são os estrangeiros que se encontram na China que sofrem de racismo.

Perceba-se o contexto: há um mês que estrangeiros estão proibidos de entrar no país. Esta proibição não é racista, mas significa que os estrangeiros que se encontram na China têm virtualmente as mesmas possibilidades de ser fonte de transmissão como qualquer outro cidadão chinês. Infelizmente, muitos negócios estão actualmente a proibir a entrada de cidadãos estrangeiros nas suas instalações. Mesmo com o registo pessoal e digital da “carta de saúde”, uma forma oficial de demonstrar que pelo seu histórico de deslocações e encontros sociais não há perigo de contágio, a entrada acaba por ser negada a estrangeiros. Bares, restaurantes, cabeleireiros e até farmácias negam entradas baseando-se apenas na origem da pessoa. Muitos negócios fazem referência a indicações do Governo para proceder desta forma, embora tal ainda não tenha sido oficialmente comprovado.

Mas dentro da própria China há também chineses a serem discriminados. A população de Wuhan começa a poder sair da cidade e a retornar a outros locais na China, onde dizem sofrer de discriminação. Os habitantes de Wuhan dizem aos restantes cidadãos chineses “não serem o vírus”. Entretanto, os chineses e cidadãos de etnia asiática dizem ao resto do mundo “não serem o vírus”. Seguidamente, foi a vez de estrangeiros na China começarem a dizer aos chineses que também eles “não são o vírus”.

É um ciclo vicioso e o episódio chinês acima descrito é apenas a ponta do icebergue. Conhecidos são os casos de professores atacados em Timor-leste, mas os casos de racismo seguem pelo mundo fora. O autor negro Eusebius McKaiser revela que no continente africano existe em certas facções um sentimento de ajuste de contas, pelos ressentimentos existentes em relação aos países afectados. Talvez isso explique o sentimento de revolta quase universal, quando um médico francês sugeriu que as vacinas contra a covid-19 também poderiam ser testadas em África. Veredicto das redes sociais: África não é o laboratório da Europa. No Quénia, um deputado sugeriu que a população apedreje os chineses que não respeitem as regras de quarentena impostas pelo país. Na Etiópia, a embaixada dos Estados Unidos avisou os seus cidadãos de um “sentimento anti-estrangeiro” no país. Em Angola, apenas os passageiros que não são “filhos ou familiares do regime de Luanda” têm de passar por quarentena. Na Tailândia, o ministro da Saúde acusou os estrangeiros sujos de importarem a doença para o país.

Racismo, tal como o coronavírus, não conhece fronteiras, etnias ou géneros. Um mundo sem covid-19 parece uma realidade longínqua, mas um dia esse mundo voltará a existir. Infelizmente, muito depois de a doença ter desaparecido, ainda viveremos com as ondas de choque do racismo ampliado por esta crise. Este problema não pode ser ignorado: é este o momento destes actos serem criticados pelos representantes governamentais de cada país e também das Nações Unidas. Ninguém é um vírus. E cabe a cada um de nós derrotar o vírus do racismo.

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