O patógeno do preconceito: O coronavírus espalha racismo contra – e entre – os descendentes de chineses

O medo da covid-19 faz as pessoas se comportarem mal, incluindo alguns chineses

Por The Economist, na Carta Maior 

Foto: Luca D´Urbino

“EI, MENINO VÍRUS! Não vem contaminar a gente!” Assim, Andrew Zhou, um chinês-canadense em Vancouver, foi ridicularizado no recreio da escola. No dia 8 de fevereiro, Hao Chunxiang, um estudante universitário chinês na Holanda, reclamou no Facebook que no elevador de seu dormitório haviam sido pintadas, com spray, as palavras “MORRA CHINÊS”. No Japão, a hashtag

#ChineseDon’CometoJapan (Chineses não venham ao Japão) está em alta no Twitter. Rhea Liang, uma médica na Austrália, tuitou que um de seus pacientes havia se recusado a apertar sua mão por causa de sua etnia.

Em meio à ansiedade global sobre a disseminação do novo coronavírus, detectado pela primeira vez em dezembro na cidade chinesa de Wuhan, as dezenas de milhões de descendentes de chineses que vivem fora da China e Taiwan estão particularmente desconfortáveis. Há evidências anedóticas de que o medo do vírus está gerando fobia racial contra eles. Até o momento, o vírus infectou mais de 70.000 pessoas e matou mais de 1.700.

Os líderes políticos manifestaram preocupação. Os primeiros ministros do Canadá e da Austrália, que têm grandes populações de etnia chinesa, condenaram publicamente o racismo antichinês resultante do surto. O mesmo acontece com o governo chinês. Seu Ministério das Relações Exteriores alertou repetidamente contra a discriminação de estrangeiros, referindo-se tanto a ataques etnicamente direcionados quanto a insultos à própria China.

Um desenho animado em um jornal dinamarquês da bandeira chinesa com suas estrelas substituídas por coronavírus foi causa de indignação, inclusive nas mídias sociais chinesas, onde muitos chamavam a obra de arte de racista. O primeiro ministro da Dinamarca, Mette Frederiksen, respondeu que “temos liberdade de expressão na Dinamarca – também para desenhar”. A Organização Mundial da Saúde criou um nome para a doença, covid-19, que visa evitar qualquer associação com a China.

A etnofobia desencadeada pelo vírus às vezes é sutil e difícil de separar dos medos exagerados do próprio patógeno. Um garçom de um restaurante chinês em Chinatown, em Londres, diz que os negócios caíram “em pelo menos 70%” desde que o vírus começou a se espalhar globalmente em meados de janeiro. Muito menos clientes que não são de etnia chinesa estão aparecendo, diz ele. Um estudante malaio da University College London diz que decidiu faltar à aula por uma semana no final de janeiro porque “metade da turma é chinesa”. Ele temia que alguns estudantes tivessem recebido parentes infectados da China durante o feriado lunar do ano novo.

Alguns descendentes de chineses estão reagindo. Uma campanha de mídia social na França, usando a hashtag #JeNeSuisPasUnVirus (“Eu não sou um vírus”), inspirou centenas a compartilhar suas próprias histórias de grosserias. Alguns são asiáticos não chineses que dizem ter sofrido danos colaterais. Na Austrália, algumas pessoas de etnia chinesa lançaram uma petição acusando dois jornais de usarem linguagem racialmente ofensiva em conexão com o vírus. Dezenas de milhares de pessoas assinaram.

Os próprios descendentes de chineses às vezes se permitem, baseadas na etnia, extrapolar conclusões relacionados a vírus, por temer ou suspeitar de pessoas da província de Hubei, onde Wuhan está – ou mesmo por chineses do continente em geral. Em 2 de fevereiro, quando os Estados Unidos proibiram a entrada de qualquer estrangeiro que tivesse estado recentemente na China, muitos comentaristas ocidentais se queixaram de seus tons discriminatórios. O Canadá não seguiu a liderança americana. Mas Ryan Zhang, que mora em Burnaby, uma cidade canadense onde um terço da população é de etnia chinesa, diz que a maioria dos chineses de sua comunidade deseja que o Canadá o faça. Ele diz que eles têm um medo paranoico de que os viajantes da China que desejam entrar nos Estados Unidos possam primeiro parar no Canadá por um tempo e infectar outros antes de prosseguir.

Talvez a maior fissura na diáspora esteja relacionada à hostilidade entre pessoas de Hong Kong em relação às de origem continental. Os recentes distúrbios pró-democracia no território exacerbaram essas tensões. Um canadense originário de Hong Kong se refere aos habitantes do continente que compram máscaras cirúrgicas no Canadá como “gafanhotos”. Este é um epíteto popular em Hong Kong para pessoas do outro lado da fronteira que fazem compras no território, esvaziando prateleiras de mercadorias. Às vezes, a solidariedade étnica está ausente, mesmo dentro da própria China.

*Publicado originalmente em ‘The Economist’ | Tradução de César Locatelli

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