quarta-feira, novembro 30, 2022
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Rosário de Mulher – A maternidade como elo criativo e solidário entre mulheres na escrita de Conceição Evaristo

Vania Maria Ferreira Vasconcelos1 Introdução Este artigo faz parte da pesquisa de doutorado em andamento, que pretende investigar as relações entre a mulher e a maternidade em enredos construídos na literatura contemporânea brasileira de autoria feminina. A idéia é investigar a relação entre o padrão construído no imaginário social, considerando as imagens do mito e das convenções nascidas como fruto da cultura patriarcal; as modificações ocorridas como resultado dos movimentos históricos e das políticas sociais que envolvem a maternidade e o reflexo de todas essas projeções na imaginação literária das ficcionistas. No caso do trabalho que ora apresento, comentarei imagens da maternidade na obra de Conceição Evaristo, autora de reconhecido talento em todos os gêneros que tem publicado (conto, romance e poesia) e de cuja obra, recortarei aqui apenas as imagens de mães em dois livros: Becos da Memória(romance) e Poemas da recordação e outros movimentos (poesia).A escolha desta autora também se dá pelo fato de que a proposta de investigação crítica visa cruzar a observação de duas questões ainda pouco abordadas na crítica literária feminista: a maternidade e as relações raciais.

Do Fazendo Gênero

Um feminismo sem cor nem útero

Sabemos que os estudos feministas no Brasil se desenvolveram em relativo atraso com relação às reflexões teóricas norte-americanas e européias e que sofremos o golpe empobrecedor e o freio dos anos levados pela ditadura militar. Enquanto o movimento feminista brasileiro esforçava-se por sobreviver, disfarçando seus propósitos teóricos em meio aos objetivos dos movimentos de mulheres em luta contra a carestia, lá fora, as feministas avançavam em questões relacionadas à sexualidade, à constituição de gênero e suas conseqüências na formação das relações familiares e nas especificidades e diferenças dentro do próprio movimento feminista. Durante as décadas de 70 e 80, estivemos distante dessas discussões. Questões mais polêmicas ou complexas, tais como a relação da mulher contemporânea com a maternidade ou as relações de raça dentro do movimento feminista, ficaram guardadas, no Brasil, para um momento posterior e mais maduro, no qual, penso, agora vivemos.

Quanto às relações de raça, por exemplo, o primeiro artigo de intelectual negra, traduzido e publicado em revista feminista, foi o de Bell Hooks, na revista Estudos Feministas, em 1995. Embora algumas militantes de movimentos negros no Brasil viessem já escrevendo e publicando sobre o assunto, quase sempre, o espaço possível eram revistas e antologias que se inseriam no grupo de publicações dos movimentos negros e não especificamente feministas. No seu artigo – Fronteiras da diferença:Raça e Mulher no Brasil – publicado na revista Estudos Feministas em 2000, Kia Lilly Caldwell, afirma que:

De várias maneiras, a ausência histórica de discussão pública sobre raça e racismo no país resultou no apagamento discursivo das realidades de dominação racial, o que aconteceu também no campo dos estudos sobre mulheres. (CALDWELL)

As reflexões específicas, publicação e divulgação de escritoras desta vertente são raras, embora tenhamos a rica e diversa divulgação de textos desta vertente na publicação dos Cadernos Negros desde os anos setenta. Autoras como Conceição Evaristo, Mirian Alves, Aline França, Cristiane Sobral ou Lia Vieira tornaram-se conhecidas graças a esse esforço cooperativo que teve como princípio a reivindicação política do espaço cultural de temática afro-brasileira. A tendência política nacional de menosprezar as especificidades das questões raciais nos estudos da sociedade, recolhendo os conflitos todos no domínio das tensões de classe tem ajudado a mascarar situações cruciais de discriminação das mulheres não brancas no Brasil. Além das questões de classe que atingem, de fato, prioritariamente a população não branca e entre elas, as mulheres em dupla subjugação, há também, por exemplo a popularização dos clichês em torno das mulheres negras e mulatas, cujo estereótipo é tão conhecido que se torna desnecessário citar.

Também o estudo da expressão da maternidade em si, nos textos feitos por mulheres tem sido negligenciado, conforme atesta levantamento parcial feito por Cristina Stevens no seu livro Maternidade e Feminismo. Em quadro demonstrativo que apresenta do levantamento das publicações feitas de artigos com este tema nas revistas e anais de encontros feministas, a pesquisadora revela o quanto esse tema é pouco abordado e, ainda mais, que, quase sempre, os poucos artigos publicados são de áreas relacionadas a análise social ou saúde e não à literatura. Penso ser fundamental investigar como tem se expressado as escritoras a respeito deste tema, já que a literatura, entre outras coisas, expressa vertentes do pensamento da época em que é produzida.

A experiência da maternidade segue sendo muito significativa e simbólica na vida das mulheres, tanto quando se concretiza como quando se ausenta. Teoricamente, hoje, esta experiência deveria ser uma opção e não uma imposição. A mulher já poderia escolher ser mãe das mais variadas formas que isso pode acontecer ou simplesmente não se envolver com sentimentos maternais, sem que nenhuma opção gerasse qualquer desconforto. A maternidade compulsória é tão trágica quanto as dificuldades concretas que envolvem o desejo de vivê-la. A literatura, no entanto, é feita de vários mundos: é feita do mundo que vivemos, do que desejamos e do que queremos destruir dentro e fora de nós.

Na representação mais tradicional da literatura, especialmente na de autoria masculina, a complexa experiência da maternidade era representada de forma estereotipada. Na contemporaneidade, o olhar feminista pode e tem trazido à tona novos rumos em roteiros que a imaginação das escritoras tem problematizado.

Fundamental é conhecer o que nos diz a literatura de vertente afro-brasileira escrita por mulheres. Que situações maternais plasmará da realidade dessa mulher duplamente discriminada? É parte do que vamos investigar.

A mitificação e politização da maternidade

A imagem materna é, provavelmente, o mais poderoso e universal dos arquétipos; é o primeiro ser feminino com o qual o homem tem contato. A relação com a mãe funda e modela nosso barro emocional, a terra da qual tiramos o molde de nossos relacionamentos. Por outro lado, o papel de mãe, que é sinônimo de valoração no mundo patriarcal, é também uma imposição que aprisiona psicologicamente a mulher, podendo conduzi-la à frustração. Dos papéis femininos, é provavelmente a maternidade que sofreu sempre maior pressão no sentido de manter uma imagem idealizadora de mulher, relacionando-a ora à própria natureza, num determinismo redutor; ora ao sagrado, impondo-lhe o sobrenatural. A força da mitificação da figura materna é muito poderosa no nosso imaginário, dificultando qualquer proposta de maior discussão da sua real complexidade.

Considerando a atualidade, podemos facilmente perceber o quanto continua sendo manipulada, de maneira injusta e danosa, a função da maternidade na vida das mulheres, quando, transformada em política pública que dita normas, mas não confere condições práticas de realização. Nesse contexto, a mulher tem sido cobrada do ponto de vista legal, social, econômico, físico e emocional pela família, pelo estado e por toda a comunidade para que atenda às ideais condições de ‘boa mãe’, sem que lhe seja oferecido nenhum suporte para tal. Basta que lembremos das campanhas pelo pré-natal como uma obrigação de toda boa mãe, num país cujo sistema se saúde pública, além de falido, beira o criminoso ou das campanhas pelo aleitamento materno, quando as mães pobres são subnutridas, vivem em condições precárias de saneamento, quase sempre trabalham na informalidade, o que as impossibilita a licença maternidade. Dagmar Meyer demonstra que esse processo de uso político da maternidade começa na Europa dos séculos XVIII e XIX e que incorporou a mulher como mãe, no centro das políticas de “gestão de vidas” – que Michel Foucault nomeia de ‘bio-política’. Dagmar questiona:

‘Que discursos e que forças sociais, que poderes e que conflitos se conectam para produzir,definir,atualizar e re-posicionar maternidades? E quais sustentam o pressuposto de que determinadas formas de pensar, sentir e agir da mãe constituem um a priori indispensável para a saúde física e emocional da criança?’

A dor e a solidariedade entre as mães de Conceição Evaisto

Na narrativa e na poética de Conceição Evaristo, a diversidade das situações que envolvem a maternidade demonstram a reflexão e a observação da complexidade desse papel na sociedade brasileira, revelando, além das preocupações de gênero, a denúncia do agravamento das dificuldades da vivência desta situação quando nela pesam os problemas de classe social e repercutem os preconceitos de raça.No entanto, como um traço de esperança na dicção da autora, uma corrente se forma de tom e cor de mulher; como uma trança de solidariedade ou um ‘rosário de mulheres’; a ligação cúmplice entre mulheres de várias gerações, que se protegem e cuidam, especialmente quando mães ou como mães, como se fizessem parte de uma grande corrente, que envolveria talvez as ancestrais, as santas, as orixás.Vejamos alguns textos e trechos ilustradores da construção dessa idéia:

Meu Rosário

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e
falo padres nossos, ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, em que meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
nas minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas,no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração, eu diria, porém,que há vidas blasfemas).
Nas contas do meu rosário eu teço intumescidos
sonhos de esperanças.
Nas contas do meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
de meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto,
eu grito, eu calo, No estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas de meu rosário, Eu falo de mim mesma um outro nome.
(…)
E sonho nas contas do meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas do meu rosário
que são pedras marcando-me o corpo-caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuta em tinta,
me guia o dedo me insinua poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma e descubro que ainda
me chamo Maria.
(EVARISTO, 2008)

Encanta-me neste poema a rica conjugação do simbólico com o figurativo; da representação metafórica com a metonímia da realidade, além do movimento construído tanto no ritmo, quanto na sugestão que a idéia traz. O rosário, além de símbolo da religiosidade presente em nossa cultura, é também uma peça que se opera pela repetição das contas e das mesmas preces no ritual da reza, aqui vai também representar a repetição das dores, dos lugares, das situações vividas e presenciadas no roteiro de uma vida entre o sonho e a decepção diante da recorrência da injustiça, repito:

Vou e volto por entre as contas do meu rosário/ que são pedras marcando-me o corpo-caminho.

Usando, portanto, uma imagem da memória que facilmente nos remete ao sentido maternal deste ícone religioso, evocador de proteção e acolhimento, a poetisa vai relacionar os arquétipos maternais das religiões cristã e do candomblé, estabelecendo nossa filiação afetiva e feminina no modo de crer, mas denunciando que essa mesma cultura que se traveste de generosidade acolhedora no sincretismo, é firme na exclusão quando agride nossas crianças pelo preconceito racial, fazendo já nascer aí o sentimento de inferioridade e não pertencimento. Por fim, o eu-lírico expressa a compreensão de saber-se filha desta cultura, mas senhora do seu saber e do seu ser, sendo Maria.

O sentido verdadeiro de acolhimento se dá em alguns outros textos nos quais a autora relembra a mãe, como aquela que inspira, junto com as tias e suas histórias, a gênese da criação literária de Evaristo.A imagem dessa mulher forte e sábia, que inventava algodão doce feito de nuvens e se fazia rainha em brincadeiras com as filhas em dias de pouco alimento para o corpo e muito para a imaginação; a imagem dessa mulher que agachava-se perto do rio e desenhava o sol para que ele existisse, deu a menina o sentido da invenção, da superação e da realidade transformada pelo risco em chão de areia e em papel. Depois, as muitas mulheres, parentes e vizinhas, nas histórias da resistência, da dor, da alegria e da invenção:

Como ouvi conversas de mulheres! Falar e ouvir entre nós, era a talvez a única defesa, o único remédio que possuíamos. Venho de uma família em que as mulheres, mesmo não estando totalmente livres de uma dominação machista, primeira a dos patrões, depois a dos homens seus familiares, raramente se permitiam fragilizar. (EVARISTO, 2005)

Entre as mulheres plasmadas por Conceição, quero destacar algumas do romance memorialista Becos da Memória.Nelas, percebemos a problematização social que envolve a maternidade: a primeira, envolve uma personagem que podemos considerar a ‘mãe da comunidade’, é a mãe velha, semelhante a Yemanjá, senhora de autoridade tipicamente maternal, que era obedecida e respeitada pela fala e pelas ações; que socorria aos que eram abandonados e dissolvia atritos.A personagem parece entrelaçar o mito e a realidade brasileira, personificada numa função bem popular nos cantos pobres do país – a parteira – aquela que transforma habilidade aprendida na experiência em solução improvisada, mas que termina por resolver frequentemente a ausência de assistência ao parto e aos cuidados com a saúde de mulheres e crianças.

‘Vó Rita era a parteira da favela. Todos gostavam dela. Quantas vezes um fuzuê estava armado e, se ouviam a voz da vó Rita por perto, cada contendor tomava seu rumo.Não era preciso dizer nada.Era só ouvir a voz da vó Rita que o valentão ou valentona se desarmava todo (…) Sempre sabíamos quando Vó Rita estava chegando.Ela vinha cantarolando ou falando sozinha, às vezes, até sozinha sorria, gargalhava mesmo.E não era louca, Vó Rita era boa, muito boa mesmo.Hoje quando penso em Vó Rita é como se pensasse no mistério e na plenitude da vida.’ (EVARISTO,2006)

Também da narrativa, salta uma situação trágica, comum nas comunidades pobres: a mãe que escolhe sacrificar um filho no desespero de obter como sustentar outro e que aceita, com naturalidade, o destino de mercadoria para sua filha . É Tetê do Mané, mãe de Nazinha, que vende a filha na esperança de salvar a si, ao filho doente e, na sua visão distorcida pela ignorância e miséria, a própria menina da pobreza:

A mãe da menina sonha leite, pão, dinheiro. Sonha remédios para o filho doente, emprego para o marido bêbado.Sonha um futuro menos pobre para a menina.A mãe da menina sonha ter nenhuma necessidade.Sonha dinheiro, dinheiro, dinheiro.Outro dia, veio aqui um fornecedor da fábrica de cigarros suprir os botequins da favela.O homem, diferente de nós, fala grosso com a mão no bolso.A mãe da menina fica a olhar a mão do homem.Os dois se olham.Ela sabe do vício do moço.O moço já sabe das necessidades dela.O moço é rápido,direto,franco e cruel.’Quanto você quer, mulher?’A mãe da menina não responde.O homem tira o pacote de notas.A mãe chama a menina. ‘Nazinha, acompanhe o moço!’O homem pega a menina pela mão e segue outros rumos. (EVARISTO, 2006)

Já a situação de outra personagem – Custódia – denuncia outra situação que envolve a tensão de classe e a situação de gênero. Cheia de filhos, vivendo com o marido bêbado e a sogra que não mais tolerava novas crianças a agravar a miséria, é surrada pela sogra, que se aproveitando de uma bebedeira do filho, faz parecer que era ele quem surrava a mulher, provocando assim o aborto:

Custódia apanhava da sogra, que gritava como se fosse Tonho o agressor. Ele nada percebia. No outro dia,Custódia não se levantou de dor.À tarde, pariu uma menina morta.Dona Santinha pegou a Bíblia e orou.Enterrou a criança no fundo do barraco. (EVARISTO, 2006)

Percebemos que a autora constrói situações que revelam a complexidade da experiência materna dentro da realidade social precária, construindo retratos que traduzem questões polêmicas, de conotação social, política e de gênero, afastando-se do padrão idealizado e enquadrando-se esteticamente na contemporaneidade.

Entre a dor que representa essa visão realista da maternidade pobre num país tão mariano, no entanto, percorrem as páginas de Conceição esse rosário de mulheres, que se irmanam numa compreensão profunda do que são, trocando experiência, afeto e proteção, como se fizessem parte de uma irmandade não confessa, talvez nem consciente, mas de efeitos reais e necessários. Essas mulheres não têm leveza ou sacralidade das mães construídas pela imaginação masculina; ao contrário, estão quase sempre envolvidas em muita lida, sangue e lágrimas, mas, talvez mesmo por isso, conseguem partilhar força,ternura e experiência, entre gerações.

Para finalizar, voltando à poesia de Conceição Evaristo, vejamos seu primeiro poema publicado – Vozes Mulheres – e, em seguida um poema e um trecho de outro, com os quais espero fechar a idéia que inspirou este breve estudo:

Vozes – Mulheres

A voz de minha bisavó

ecoou criança nos porões do navio ecoou

lamentos de uma infância perdida.

 

 

 

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

 

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

 

debaixo das trouxas

roupagem sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela.

 

A minha voz ainda

ecooa versos perplexos

com rimas de sangue e fome.

 

A voz de minha filha

recorre todas as nossas vozes

 

recolhe em si as vozes

mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz da minha filha recolhe em si a fala e o ato.

 

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

Se fará ouvir a ressonância

O eco da vida-liberdade.

(EVARISTO, 2008)

 

Desejo destacar, além da beleza sonora, a própria construção harmônica das estrofes, através do paralelismo dos versos iniciais que reforçam a idéia de um grito que vai se construindo, através de gerações de mulheres, crescendo em tom e acumulando história. O entrelaçamento das vidas dessas mulheres é uma corrente que se dá justamente pela voz que ecooa.É ela o elemento libertário, que vai transformando-se de lamento, baixinho, até chegar ao eco da vida liberdade.

 

De Mãe

O cuidado de minha poesia

aprendi foi de mãe,

mulher de pôr reparo nas coisas,

e de assuntar a vida.

 

A brandura de minha fala

na violência de meus ditos

ganhei de mãe,

mulher prenhe de dizeres,

fecundados na boca do mundo.

 

Foi de mãe todo o meu tesouro

veio dela todo o meu ganho

mulher de sapiência, yabá,

do fogo tirava água do pranto criava consolo.(…)

(EVARISTO,2008)

 

Menina

Para Ainá, minha filha, ou minha mãe, talvez

 

Menina, eu queria te compor em versos

cantar os desconcertantes mistérios

que brincam em ti

 

mas teus contornos me escapolem.

Menina, meu poema primeiro,

cuida de mim.

(EVARISTO,2008)

 

Os dois poemas, plenos de beleza lírica, soam como orações de agradecimento, homenagem, louvor.No primeiro, tendo o eu-lírico a sensibilidade de perceber a sabedoria das lições dessa mulher de pouca ou nenhuma escolaridade, mas de farta generosidade na partilha da experiência; no segundo, na aprendizagem necessária do amor de mãe que se sabe impotente diante das escolhas e do destino dos filhos de qualquer condição.Este laço entre avó- mãe e filha está também no belíssimo conto Olhos D’água, no qual a narradora busca lembrar os olhos da mãe e encontra tantos outros sinais de sua presença e memória, antes de reencontrá-los, primeiro ao vivo, compreendendo-lhes na umidade da emoção, depois no olhar da filha, que também apreende-lhe a mesma ‘cor de umidade’.Neste conto, em outros textos,nos poemas aqui lidos, o entrelaçamento de destinos de mulheres que escolheram não silenciar, não desistir, não negar nem seus corpos, nem suas almas,traduzidas pelas contas-palavras duma escrita rosário, bela e comovente como pode ser uma oração em qualquer crença, mas certamente com cor de mulher.

 

Referências Bibliográficas CALDWELL, Kia Lilly.Fronteiras da Diferença:raça e Mulher no Brasil, in Revista Estudos Feministas, ano 8,segundo semestre 2000.

EVARISTO, Conceição. Becos da Memória.Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006.

___________________Poemas da recordação e outros movimentos.Belo Horizonte: Nandyla,coleção Vozes da Diáspora Negra,2008.

__________________ Da grafia-desenho de minha mãe: um dos lugares de nascimento da minha escrita, in Representações Performáticas Brasileiras: tórias, práticas e suas interfaces. (org) Marcos Antônio Alexandre, Belo Horizonte, Mazza Edições, 2007 __________________Olhos D’água, in Cadernos Negros, vol.26, São Paulo, QuilombhojeLiteratura, 2005.

MEYER,Dagmar E.Estermann .A Politização Contemporânea da Maternidade.in: Gênero.Revista do Núcleo de Gênero – NUTEG 2º semestre de 2005 –v 6 no 1 STEVENS,Cristina.Maternidade e Feminismo:diálogos na Literatura Contemporânea.Florianópolis:ed. Mulheres, 2007.

 

 

 

 

 

 

 

 

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