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Roupas e acessórios típicos de imigrantes conquistam moradores de São Paulo
Créditos da foto: André Porto/Metro

Roupas e acessórios típicos de imigrantes conquistam moradores de São Paulo

Essa paleta tem se expandido com a crescente chegada de imigrantes e refugiados, muitos dos quais encontram na moda uma fonte de renda e uma maneira de se apegar às raízes.

Do  Metro Jornal São Paulo

O senegalês Cheikh-Gueye-Seck tem uma loja de roupas e acessórios – André Porto/Metro

Há mais de quatro anos no Brasil, o imigrante senegalês Cheikh-Gueye-Seck, 30 anos, afirma: “Eu milito por minha cultura”. Sentindo-se desvalorizado ao chegar aqui e ver muitas pessoas vindas da África em trabalhos braçais, ele decidiu continuar a ser comerciante, como era em Dacar.

Depois de um tempo vendendo roupas e acessórios africanos na rua e em eventos, Cheikh abriu a própria loja, há um ano. Chamado “Coração d’África”, o estabelecimento fica na avenida São João, uma das principais ruas do centro, traz no logotipo o mapa de seu continente natal e chama a atenção pelos tecidos estampados, todos importados da África, além dos acessórios de cores fortes.

A clientela é composta não só por conterrâneos de Cheikh como por muitos brasileiros, que, com isso, espalham as cores da moda africana pelas ruas de São Paulo. A frequência da loja mistura pessoas falando português  “brasileiro” com sotaques e outros idiomas.

O comerciante atribui o sucesso da loja entre brasileiros ao caráter internacional do estilo africano. “As roupas não têm fronteira.”

Um dos fornecedores de Cheikh é o costureiro senegalês Laye Sinaba, 45 anos, que se mudou para o Rio Grande do Sul há quase quatro anos “em busca de um bom futuro”. Lá, ele trabalhou em uma fazenda, foi metalúrgico e até costurou uniformes e vestidos de noiva, mas enfrentou muito preconceito.

Foi só em 2016 que, já em São Paulo, Laye encontrou estabilidade – unindo a costura, habilidade que tem desde os 15 anos, e a cultura africana. “Comprei uma máquina e comecei a costurar no meu quarto”, diz. Ocasionalmente, ele costura modelos brasileiros, mas conta que os africanos fazem mais sucesso. “Trazemos esses tecidos para mostrar nossa cultura a vocês”.

Shesa Otepa Londja Lambert, 62 anos, também vê a moda como uma ponte entre diferentes culturas. “No Brasil vemos muitos negros desconectados de sua origem. Nossa chegada aqui é uma maneira de reviver nossa cultura nos afrobrasileiros”, opina ele, que fugiu da guerra do Congo em 2009.

Após anos trabalhando como professor de inglês e francês em Manaus, ele e a mulher Reneé vieram para São Paulo em 2015. Shesa era geólogo, mas precisou aprender a lidar com comércio para sobreviver na capital. O casal abriu recentemente um box na galeria Passeio Mooca (zona leste), onde vende roupas e acessórios feitos por Reneé.

A galeria é alugada por Anas Mohamad Adnan Obaid, 30 anos, um sírio que chegou ao Brasil em 2015, também fugindo da guerra. Ele, que era jornalista, investiu na produção e venda de perfumes árabes em eventos. Foi alugando a galeria, no ano passado, que Anas encontrou uma maneira de ajudar outros refugiados. 

A ‘Mama’ dos imigrantes

Conhecida por todos como Grand Mama, a senegalesa Diamou Diop, 60 anos, é dona da “Mama Nossa Cultura”, marca de roupas que é sucesso de vendas e se tornou uma rede de solidariedade.

Grand Mama veio para São Paulo em 2007, acompanhando o marido. Ela conta que demorou meses para encontrar emprego. “Deixei meu currículo em muitos lugares, mas não fui chamada.”

A saída foi começar a vender máscaras africanas na República, região central. Por causa das roupas que usava, foi vítima de preconceito. “Se eu usasse turbante, muitas pessoas me chamavam de macumbeira, falavam que eu não era nada.”

Mas também havia quem elogiasse, o que incentivou a senegalesa a investir nas roupas e acessórios africanos. “Muita gente via meus turbantes e gostava dos tecidos. Começaram a me perguntar se eu sabia costurar, e eu dizia que podia fazer saia, blusa, faixa”, relembra ela.

A comerciante passou anos vendendo roupas na rua, até abrir uma loja em uma galeria no centro, há quatro anos. Foi quando a marca ganhou um nome, hoje conhecido em diversos Estados brasileiros – e até por artistas como Elza Soares e Liniker, que já usaram turbantes feitos por Grand Mama.

Mas o trabalho da senegalesa não para no sucesso da marca. Além de contratar refugiados para trabalhar nos ateliês e vender a eles tecidos por preços baixos, ela ajuda os recém-chegados com questões burocráticas, como tirar RG. Como uma mãe. “Sou chamada de Mama desde que tive meu primeiro filho, com 16 anos. Atualmente eu tenho muitos filhos, de vários países”, afirma.

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