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“Trabalhar a literatura de Carolina Maria de Jesus foi imprescindível para descolonizar olhares”

Silene Barbosa mergulhou na história da escritora negra Carolina Maria de Jesus para trazer aos quadrinhos a vida de uma catadora de papel da periferia de São Paulo que realizou uma das mais importantes obras literárias brasileiras, “Quarto de Despejo”, livro traduzido em 13 idiomas e distribuído em 49 países. O HQ “Carolina” foi indicado, em 2017, ao Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, e Sirlene foi a primeira quadrinista negra indicada à premiação. Os diálogos nos quadrinhos ganham ainda mais força com os traços do artista visual João Pinheiro.

por Kátia Mello

Mestra em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP, a professora de língua portuguesa revela nesta entrevista à coluna Geledés no debate que sua inspiração para escrever o livro veio de um momento em sala de aula, em que meninas negras não se identificaram com as princesas da literatura.

Sirlene não está sozinha como inspiração para as jovens negras que querem apostar na literatura. A militante feminista, professora e jornalista, Bianca Santana, escreveu o livro “Quando me Descobri Negra”, baseado em seu processo de descoberta identitária. O livro de Bianca levou o Prêmio Jabuti 2016 na categoria de melhor ilustração.

Os livros de Sirlene e Bianca foram incluídos no edital PNLD – Literário, o que significa que ambos podem ser adotados por escolas públicas, abrindo a oportunidade de debates relevantes sobre a negritude entre estudantes e professores, em um momento tão necessário para reflexões.

Sirlene Barbosa / Divulgação

Geledés – Como se deu o processo de contar em um livro de quadrinhos uma parte da vida da escritora negra Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de Despejo”,?

Trabalho como professora de língua portuguesa da Rede Municipal de São Paulo. Por cinco anos, fui professora responsável pela Sala de leitura da escola. Querendo botar em prática a lei 10.639/03, me preocupava em ler contos de fadas cujas princesas fossem negras. Um dia, abri o livro e iniciei a leitura para crianças de 10 e 11 anos e, como todo conto de fadas, comecei com o famoso: “Era uma vez uma princesa muito linda…”. Quando abri a segunda página do livro para apresentar a ilustração da princesa negra, uma garotinha botou a mão na boca e me retrucou: “Você disse que ela era linda!”. Eu fiquei atônita e questionei: “Por que ela não é linda?”. Um garoto gritou: “porque ela é preta!”.

Bummmm… Parei tudo. Vi a emergência de aqueles estudantes, por sinal, em sua imensa maioria, negros, conhecerem outra história do povo negro. De saber que negra é princesa, escritora, juíza, médica, cientista, enfim, que era urgente olhar para o acervo da sala de leitura que eu coordenava e procurar mais livros cujos autores e/ou protagonistas fossem negros. Era necessário descolonizar aqueles olhares.

Portanto, trabalhar a literatura de Carolina Maria de Jesus foi imprescindível para esse processo. Foi possível apresentá-la a estudantes de várias faixas etárias e sempre, repito: sempre dava muito certo. Havia reconhecimento, orgulho, esperança, por fim, as aulas chegavam aos objetivos propostos: mais negras e negros na literatura.

Em uma pesquisa rápida, feita com os professores de sala de leitura da região onde leciono; descobri que de uma média de 40 docentes, apenas cinco já tinham ouvido falar da escritora e nenhum deles nunca a havia lido para estudantes.

Então, surgiu a ideia de apresentá-la por meio da linguagem dos quadrinhos, com o objetivo de mostrar a força “caroliniana” para estudantes, principalmente, mas, também para os educadores.

ILUSTRADOR JOÃO PINHEIRO / Divulgação

Geledés – Como foi feita a pesquisa sobre ela? Você teve algum contato com Vera Eunice, filha de Carolina?

Nós ganhamos o prêmio da Secretaria de Cultura do Governo de São Paulo, ProAC 2014, para termos condições financeiras de pesquisar e concretizar o livro. Viajamos para Sacramento (MG), a cidade onde ela nasceu e lá fizemos um passeio com um estudioso de Carolina. Ele nos mostrou onde ela morou, estudou, ficou presa, enfim, pisamos no chão que Carolina pisou. Voltando de Sacramento, em janeiro de 2015, fomos à residência da filha dela, Vera Eunice, para entrevistá-la e contar sobre nosso projeto. Queríamos ir para além das biografias.

“Apresentar uma mulher negra, moradora de uma das primeiras ou da primeira favela de São Paulo, na década de 1950, chefa de família, que sustentava o lar como coletora de material reciclável e escritora é uma “porrada” na porta branca e elitizada da literatura brasileira.”

Geledés – Existe algum paralelo entre sua vida e a de Carolina?

Sim, com certeza. Sou mulher, negra, nascida e ainda moradora da periferia de São Paulo, Itaquera, bairro da Zona Leste de São Paulo. Desde menina eu queria “ser alguém na vida”, fazer uma faculdade. Carolina conta, em seu livro Diário de Bitita, que queria aprender a ler para ser uma pessoa ilustrada. Ela dizia que quem sabia ler não era enganado. Acredito que, de alguma forma, eu pensava como a escritora. Ela conseguiu lançar seu livro, é escritora, eu me graduei em Letras, sou mestra em linguística, estou com doutorado em educação parado, mas iniciado; sou educadora e pratico, com veemência, um currículo descolonizado. Não quero perder estudantes negros porque estes não se encaixam no currículo europeizado e pintado com a cultura estadunidense, ficando, portanto, sem identificação. Trabalho para uma escola mais plural, inclusiva.

Geledés- Qual a importância de se resgatar a história de Carolina nesse momento no Brasil?

Nossa… Apresentar uma mulher negra, moradora de uma das primeiras ou da primeira favela de São Paulo, na década de 1950, chefa de família, que sustentava o lar como coletora de material reciclável e escritora é uma “porrada” na porta branca e elitizada da literatura brasileira. É dizer: “A gente também sabe fazer e fazemos muito bem”! Carolina vive!

Geledés- Existe identificação entre a história de Carolina e seus estudantes de escolas públicas? Se sim, de que maneira isso se expressa?

Muita identificação. A maioria deles expõe suas histórias, inclusive relatos de já terem passado fome, com mais orgulho. Não percebo vergonha neles, mas empoderamento em seus discursos, após conhecer a história e a vida de Carolina e há muita concordância com a metáfora da escritora: “A fome é amarela”.

Geledés- Como se deu a interação entre seus textos e o trabalho do artista visual e responsável pelos quadrinhos, João Pinheiro?

Para além da parceria de casal, dividimos ideias, trabalhos. Pensei em trabalhar Carolina e ter o João, já tão perto de mim, como o artista da obra e deu certo. Ele escreveu o roteiro e desenhou a partir das minhas pesquisas e conversas que tivemos ao longo do processo.

Geledés – Em suas aulas nas escolas públicas, você menciona sobre o momento em que a escritora conceituadíssima Clarice Lispector se encontra com Carolina de Jesus, no lançamento do livro dela, dizendo que Carolina é a escritora porque escreve “a verdade”. Qual o significado dessa passagem?

Como Conceição Evaristo disse: “Carolina trabalha com a escrevivência.” Clarice, com a ficção, e isso não significa dizer que sua literatura é ruim, pelo contrário, mas é reiterar que a literatura de Clarice não é superior à de Carolina; dizer que sua força de mulher negra, trabalhadora, mãe de três filhos e chefa de família está registrada em seus escritos.

Carolina introjeta vida na literatura e isso não significa diminuir a literatura de Clarice, mas de enaltecer o famoso “apesar de tudo tentar contribuir para dar errado, com Carolina deu certo e só deu porque a mulher poderosa, depois de um dia de trabalho pesado, preocupação com o que dar de comer para seus filhos, ainda chegava em casa e escrevia. O que a incomodava, ela botava pra fora, por meio da literatura”.

“Não quero perder estudantes negros porque estes não se encaixam no currículo europeizado e pintado com a cultura estadunidense, ficando, portanto, sem identificação. Trabalho para uma escola mais plural, inclusiva.”

João Pinheiro / Divulgação

Geledés- Você foi indicada ao Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura de nosso país, na categoria Quadrinhos. O que significa isso e como vê a literatura de mulheres negras hoje?

A indicação foi uma honra. Fui a primeira quadrinista negra a ser indicada ao prêmio. Isso é muito importante para a luta do povo negro. Penso que sempre que uma ou um negro desponta é para segurar a escada para que outros subam!

Vejo muitas negras escrevendo, promovendo eventos literários, faço questão de lê-las em sala de aula. Acredito que estamos crescendo. Claro que falta muito reparo para com o povo negro, ainda esperamos a abolição, de fato, mas consigo vislumbrar, nem que sejam “incômodos” com nossos discursos e requerimentos.

Geledés – Bianca Santana, em seu livro “Quando Me Descobri Negra”, em 2016, afirmou: “Tenho 30 anos, mas sou negra há 10. Antes, era morena.” Como analisa essa declaração?

Entendo-a perfeitamente. Cresci numa família cujos avôs eram italianos, negros e índios. Não tinha a menor consciência racial. Assim como a Bianca, tenho 37 anos, mas sou negra há 17. Toda a minha família dizia que eu era morena, moreninha, cor de jambo. Minha avó pedia para eu parar de tomar sol, para não ficar mais preta.

Foi numa aula de cursinho pré-vestibular, cujo tema era escravização do povo negro no Brasil, e o professor para enaltecer a beleza dos negros, afirmou que os portugueses preferiam as negras às portuguesas. Apontou para mim e disse: “Vejam esta negra. Quanta beleza!”. Hoje entendo que ele disse, nas entrelinhas: apesar de negra, é bonita; e diminuiu o fato de muitas negras terem sido estupradas e não casadas com esses portugueses. Não era preferência, era abuso, violência.

Quando ouvi a referência negra ligada a mim, primeiro tive vergonha, porque ele me colocou no centro da aula. Mas quando esta aula acabou, fiz questão de ir embora sozinha.Precisava pensar. Ainda me lembro de eu descendo a Rua Tuiuti, famosa no bairro paulistano do Tatuapé, e me questionando: “Eu sou negra? Mas meu cabelo é meio liso, meio ondulado? Não tenho a pele tão escura quanto à de algumas amigas”. Não digeri a nova identidade negra em um dia. Foram meses, talvez anos. Após esses anos, surgiu outra identidade e é a que mais empodera minha militância: sou MULHER NEGRA, me dê licença que tô passando!

Geledés – Aos 71 anos, uma das principais expoentes da literatura brasileira, a escritora negra mineira Conceição Evaristo, desafiou a Academia de Letras Brasileira (ABL) em agosto desse ano ao se candidatar à vaga de Nelson Pereira do Santos. Porém, Conceição recebeu apenas um voto e não foi eleita. Como viu essa decisão da principal instituição de literatura do país?

Vi como mais um episódio racista. Lamentável, óbvio. Confesso que esperava que ela pudesse ganhar. No entanto, penso um pouco como Lima Barreto, que detestava o universo dos “acanudados”. Nem todos que lá estão ou estiveram sequer por lá chegam perto do brilhantismo de Lima, que também não é estudado como deveria, nem entrou na ABL, quiçá de Conceição Evaristo. Como escreveu Quintana: “Eles passarão/ [Nós] passarinho”. Sabe por quê? Porque somos sementes. Estamos sempre renascendo.

Incluído no edital PNLD – Literário2018 – Marcelo D’Salete / Divulgação
Cumbe – Incluído no edital PNLD – Literário2018 – Marcelo D’Salete / Divulgação
Angola Janga – Incluído no edital PNLD – Literário2018 – Marcelo D’Salete / Divulgação

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