Universidade com a cara do povo brasileiro – parte 2

14/04/26
  • Cotas nas instituições federais mudam radicalmente perfil dos estudantes
  • Estudo mostra crescimento de 279% no ingresso de pessoas pretas, pardas e indígenas

Volto ao tema da coluna anterior para apresentar alguns dados que sustentam minha convicção de que as cotas são a mais eficiente e eficaz política pública já adotada pelo Estado para fazer frente ao fosso de desigualdades que nos caracteriza enquanto sociedade.

Como se sabe, até o fim dos anos 1990 o perfil acadêmico dos alunos das nossas universidades federais era composto majoritariamente por jovens brancos, filhos das classes média e alta.

Com a lei 12.711/2012, que instituiu a reserva de 50% das vagas nas universidades e institutos federais a alunos oriundos do ensino médio público, essa realidade mudou radicalmente.

Em primeiro plano, em local com pouca iluminação, seis pessoas parecem caminhar na mesma direção; ao fundo se vê uma ampla área envidraçada, mais iluminada, com mesas e cadeiras ocupadas, com aparência de um refeitório.
Campus Quitaúna da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em Osasco – Rafaela Araújo – 1.ago.24/Folhapress

Hoje, os estudantes autodeclarados pretos, pardos e indígenas correspondem a 52,4%. E são pessoas majoritariamente das classes D e E, ou seja, a renda média é inferior a dois salários mínimos.

Estudo realizado em 2023 pelos doutores Inácio Bó e Adriano Souza Senkevics mapeou a contribuição das cotas para tornar menos desigual o acesso ao ensino superior no Brasil.

Segundo os autores, com as cotas, o número de pessoas pretas, pardas e indígenas ingressantes nas universidades aumentou 279%.

Quando observados os candidatos oriundos de famílias de baixa renda, o crescimento foi de 235%.

Mas o maior impacto das cotas se deu entre pessoas com deficiência: o aumento do número de aprovadas foi de 1.030%.

Outro documento elucidativo é o livro “O Impacto das Cotas: Duas Décadas de Ação Afirmativa no Ensino Superior”, organizado pelos sociólogos Luiz Augusto Campos e Márcia Lima.

A publicação desmistifica uma das maiores falácias contra as cotas: a do desempenho inferior dos cotistas. É verdade que estudantes cotistas ingressam nas universidades federais com notas menores no Enem, mas também é fato que essa diferença some ao longo do curso.

Esses e outros dados deixam evidente que cotas étnico-raciais são um instrumento fundamental para fazer frente ao racismo no Brasil.


Ana Cristina Rosa – Jornalista especializada em comunicação pública e vice-presidente de gestão e parcerias da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública)

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