- Novo livro busca contribuir para a formação de uma gestão pública mais equitativa
- Apesar dos avanços, o espaço para melhorar a atuação do Estado continua amplo
Sim, estão.
E é preciso dizer isso sem rodeios. A desvantagem é persistente e cumulativa. Ela não aparece apenas em um ponto isolado da vida. Ela vai se formando etapa por etapa, como uma engrenagem que empurra uma parte da população para trás desde cedo.
Isso não quer dizer que outros grupos não enfrentem dificuldades. Quer dizer apenas que, no caso dos negros, há um peso adicional. Eles estão sobrerrepresentados entre os mais pobres e, além do custo de uma origem desfavorável, pagam também o preço da discriminação. É essa sobreposição que torna o quadro particularmente difícil.
E esse custo começa cedo, antes mesmo do nascimento. Existem pesquisas mostrando que as desvantagens, somadas ao estresse das discriminações, afetam a gestação e o desenvolvimento do feto. Depois do nascimento, a distância continua a aumentar. Crianças negras crescem mais expostas a ambientes vulneráveis e, em muitos casos, a formas precoces de preconceitos que afetam autoestima e aprendizagem.
E a escola, que poderia funcionar como um dos instrumentos de compensação, nem sempre consegue corrigir o que veio de trás. Em vários casos, elas acabam reproduzindo parte dessas assimetrias. Não raro, estudantes negros recebem tratamento distinto, são menos estimulados e menos reconhecidos como promissores. O impacto disso aparece no desempenho, na relação com o espaço educativo e, muitas vezes, no abandono.

Mais tarde, no mercado de trabalho, a desvantagem ganha novas formas. Mesmo quando têm escolaridade semelhante, experiência semelhante ou competências semelhantes às dos brancos, trabalhadores negros tendem a enfrentar mais barreiras tanto para entrar quanto para ascender e para receber salários mais altos.
Ganham menos na mesma função e têm menor retorno para os mesmos níveis de educação. Existe também ali o peso do preconceito operando de maneira muitas vezes sutil. Então, tem-se que a renda mais baixa se reflete em menor chance de acumular patrimônio, menor proteção diante de crises e menor possibilidade de transmitir segurança material à geração seguinte. Então, a desvantagem atravessa gerações, sendo um ciclo que se renova.
E ele se renova também porque o Estado é parte ativa dessa história. Ele conviveu com a desvantagem e ajudou a produzi-la. Durante muito tempo, fez isso de modo explícito. Hoje, faz isso por meio de rotinas que parecem neutras, embora sigam atingindo de forma negativa os negros.
Foi pensando nisso que desenvolvemos o livro “Guia da Gestão Pública Antirracista”. A obra nasceu de um esforço coletivo, construído por mim, Clara Marinho, João Caleiro, Giovani Rocha, Lia Pessoa, Karoline Belo e Ellen da Silva, a partir de um período de trocas na Blavatnik School of Government, da Universidade de Oxford. Nosso objetivo é oferecer ferramentas para que a gestão pública enxergue a desvantagem com mais precisão e atue sobre ela com mais impacto.
O livro será lançado em São Paulo, no Insper, no dia 24 de abril, às 18h, e em Brasília, na Livraria Circulares, no dia 27 de abril, às 19h. Você é meu convidado. A pré-venda já está disponível no site da editora Jandaíra.
No fundo, o que me move é um sonho bastante elementar, embora ainda distante. O sonho de um país em que mais brasileiros possam se desenvolver plenamente e que fatores externos ao esforço pesem cada vez menos sobre o destino de cada um.
O texto é uma homenagem à música “Clube da Esquina Nº 2”, interpretada por Milton Nascimento.

Michael França – Ciclista, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, economista pela USP e pesquisador do Insper. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia e Stanford