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Valorização da estética é a arma contra o racismo

quais são as consequências físicas e psicológicas enfrentadas pelas crianças

Do Simões Filho

O post com a foto de uma criança de 2 anos, que teve o cabelo alisado e escovado em um salão de beleza, foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais nas duas últimas semanas.

Publicada por uma cabeleireira, a imagem mostrava a garota com os cabelos crespos, ao natural, ao lado de outra versão, com os fios alisados. A ideia era promover um novo produto químico.

A situação – que, em princípio, pode ser vista apenas como um direito dos pais sobre os próprios filhos – traz à tona uma discussão importante: quais são as possíveis consequências físicas e psicológicas geradas nesta criança após o procedimento.

Na opinião da especialista em educação e pedagoga Jacilene Nascimento, ao utilizar meios para alisar o cabelo dos filhos, os pais estão cometendo uma violência.

“Uma atitude como essa interfere no processo de reconhecimento de identidade dessa criança. É, também, através da pele e do cabelo que ela reconhece a própria ancestralidade e se percebe no mundo como uma garota negra. Ao alisar o cabelo da filha, a mensagem que os pais passam é a de que há um padrão de beleza que é melhor  e mais bonito do que o dela”, explica.

Aceitação

Essa é também a opinião da psicóloga e psicoterapeuta Odile Britto. “A autoimagem faz parte do processo de construção do eu emocional da criança. Ter seu cabelo alisado significa que algo não está certo com a sua imagem, há uma desqualificação. Então, ela incorpora a crença de que para ser aceita tem que ser diferente”.

Segundo a profissional, a questão também está relacionada ao modo como a família, na qual a criança está inserida, lida com a questão identitária. “Como esses pais se veem? Quais são seus valores? O que consideram esteticamente belo? Tudo isso influenciará na forma como a criança se enxergará futuramente. É na infância que ocorre o desenvolvimento dos valores e que os estereótipos vão sendo sedimentados”.

Isso explica o fato de Nalanda Santos, 9, ter tanto orgulho do próprio cabelo. “Acho o meu black lindo demais”, diz, sem nenhuma modéstia. Nascida em uma família que valoriza a própria raça, ela aprendeu, desde pequena, não só a gostar do que vê diariamente na frente do espelho, mas a se defender das constantes situações de preconceito.

“Alguns amigos do colégio dizem que meu cabelo é feio, que pareço uma bruxa, mas digo que é pura inveja. Sei me defender. Minha mãe me ensinou a ser uma menina empoderada”, discursa.

Empoderamento foi uma palavra que a estudante de administração Milla Carol Soares, 22, só aprendeu depois que saiu da fase da infância. Quem a vê, atualmente, com os cabelos trançados e fazendo parte da comissão organizadora da Marcha das Crespas, talvez nem imagine que, quando criança, também teve os cabelos alisados pela mãe.

“A minha mãe, assim como a mãe dessa criança que teve o cabelo alisado recentemente, são tão vítimas quanto nós. Somos todos vítimas de um sistema que nos impõe um padrão de beleza pré-estabelecido e que nos obriga a estar dentro dele – seja alisando o cabelo ou fazendo dietas absurdas – para sermos aceitos socialmente. As mães alisam os cabelos dos filhos na tentativa de fazer com que o mundo os aceite e não para prejudicá-los”, acredita.

Hoje, a estética é justamente uma das armas utilizadas por Milla para combater o preconceito. “A nossa estética diz muito sobre o que pensamos, sobre o que acreditamos. A nossa estética é política, ela empodera e é uma ferramenta importante no combate ao preconceito”, considera.

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