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Vidas negras importam, vidas negras importadas e vidas negras expropriadas

“Pela primeira vez na história humana, o nome Negro deixa de remeter unicamente para a condição atribuída aos genes de origem africana durante o primeiro capitalismo (predações de toda a espécie, desapossamento da autodeterminação e, sobretudo, das duas matrizes do possível, que são o futuro e o tempo). A este novo carácter descartável e solúvel, à sua institucionalização enquanto padrão de vida e à sua generalização ao mundo inteiro, chamamos o devir-negro do mundo.” (MBEMBE, 2014. p. 18) (grifo do autor)

Assim o filósofo e cientista político Achille Mbembe (1957) introduz uma de suas principais obras, Crítica da Razão Negra (2013), em que tanto traça um panorama do Negro enquanto categoria ontológica² , trazida historicamente, primeiro em sentido negativo, do Negro como “aquele (ou ainda aquele) que vemos quando nada se vê, quando nada compreendemos e, sobretudo, quando nada queremos compreender” (p. 11), segundo em sentido positivo, em um dado momento da “evolução da história da humanidade” em que na universalização do devir-negro, no momento em que “toda a humanidade subalterna se tornar negra”, dermos materialidade (práxis) aos questionamentos sobre a “universal promessa de liberdade e igualdade” (p. 21) nunca realizada, um momento em que a autoidentificação, como Negro, nos desperte para o autorreconhecimento e nos conduza à autodeterminação. (p. 255).

Como país que possui a segunda maior população negra do mundo – 54% segundo dados do IPEA (2016) – o capital internacional sob a gerência dos EUA e suporte das potências europeias, lega ao Brasil o mesmo destino de países africanos a partir de práticas de espoliação imperialistas do século passado: o acordo com a burguesia local e o recrutamento de militares nativos para subjugar a população, destruir a funcionalidade pública do Estado e a soberania do país.

O mais curioso é que muitos dos “críticos” de tais práticas neocoloniais de espoliação de países do continente africano, imprimidas na eleição de ditadores apoiados pela burguesia local e militares mercenários, que escraviza a maioria da população, foram eleitores e são apoiadores da ascensão dessa mesma prática neocolonial em terras brasileiras no momento atual.

Enquanto as riquezas naturais são entregues à exploração de multinacionais nacionais e estrangeiras, e o Estado é tomado por uma autocracia de mercenários, cimentando práticas corruptas como nepotismo, clientelismo e paternalismo, a maioria da população, negra, pobre e trabalhadora sofre entre o subemprego, a miséria, a doença, a fome e a guerra entre facções civis mantidas pelo próprio Estado, a partir de seus agentes de segurança pública, nas comunidades periféricas.

Um “Brasil africanizado”, mas de uma África tratada assim, de forma abstrata, desistoricizada, desterritorializada, desumanizada e objetificada pelos e para interesses imperialistas do centro do capital internacional, atendendo às necessidades da reconfiguração do sistema capitalista globalizado, em que o Brasil, suas riquezas naturais, seus trabalhadores e trabalhadoras são parte de um projeto de reorientação ao setor primário, produção de insumos, fornecimento de matéria-prima e mão de obra barata, no intuito de alimentar as potências industrializadas na divisão internacional do trabalho.

Mais uma prova concreta de que a luta anticapitalista e antirracista estão imbricadas, e separá-las é cair em certa demagogia reacionária trazida por bandeiras com os emblemas da representatividade e do identitarismo, mas hasteadas sob um reducionismo barato (ou caro), pois apropriadas pelo mercado, pela burguesia, seus medias e seus “programas de inclusão” para uma “exploração humanizada”, programas a serem estruturados pelos dogmas do empreendedorismo.

Assim, infelizmente, a maioria de nós, negros, nesse “Brasil do passado” trazido ao presente por essa forma e conteúdo de governabilidade neofascista e seu projeto econômico neocolonial, irá se descobrir negro e escravizado pelo imperialismo capitalista, notadamente estadunidense, da forma mais brutal, crua e real, em um cotidiano desumanizador imposto, ironicamente, sob o verde-e-amarelo da “pátria amada” e as fardas dos “heróis nacionais”.

Justamente porque embora nosso fenótipo traga características que nos apresente enquanto negros e negras – cor da pele, dos olhos, textura do cabelo, formato do nariz, boca, etc. –, ainda há uma distância considerável para que tomemos consciência dessa nossa negritude e sua importância: sua positividade.

Distância que apenas será trilhada e reduzida quando ascendermos à nossa consciência negra, a ser edificada a partir do momento em que revisitarmos nossa história enquanto negros e negras, desde que nossos antepassados foram sequestrados das inúmeras sociedades de que faziam parte no continente africano, para serem escravizados e violentadas pelos brancos europeus e seu projeto de colonização e acumulação primitiva de capital. A partir do momento em que entendermos que esse passado negro continua tendo influência em nosso presente negro mesmo após a tida abolição formal pela Lei Áurea (1889), pois essa “liberdade” foi concedida sem qualquer tipo de posse material e espiritual, educação, moradia, direito a culto, ou qualquer tipo de assistência do Estado a esse novo cidadão da então nova República. A partir do momento em que compreendermos que a cultura, língua, religião e símbolos nacionais que comumente aprendemos a legitimar nos processos de educação de/para nossa sociedade, além de impostos, nos foram legados pelo colonizador europeu para formatar nossa consciência branca que naturaliza o racismo de cada dia.

Portanto, para que possamos ter maior consciência de que vidas negras importam, precisamos ter consciência da importância de nossa cultura e história negras enquanto negros, da história de vidas negras que foram importadas e expropriadas, e que continuam sendo na desigualdade social, na exploração trabalhista, na diferença salarial, nas oportunidades distintas, na violência policial, na violência sexual, no sistema carcerário, na intolerância religiosa. A cada direito negado e a cada dia em que o racismo persiste, é tolerado e legitimado cotidianamente a partir do momento em que pessoas continuam sendo segregadas e negativadas pela cor de sua pele, a qualidade de seu cabelo, pela cultura e história que carregam consigo mesmo que ainda não saibam: tenham consciência.

Notas de rodapé: 

1 Licenciado em filosofia pela PUC/MG. Professor no ensino básico.

2 Ontologia, em uma transliteração dos termos gregos óntos (ser/ente) e logía (saber), é o “estudo do ser”, a investigação teórica do ser e/m sua existência. Segundo Abbagnano (2007) “doutrina que estuda os caracteres fundamentais do ser: os que todo ser tem e não pode deixar de ter.” (p. 662). Um caráter ontológico é aquele que busca o entendimento do ser/ente a partir daquilo que ele é, em sua existência, num processo de diferenciação em uma relação com o (seu) outro como parte de um todo.

REFERÊNCIAS:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Trad. Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. Trad. Marta Lança. Lisboa: Antígona, 2014.

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