A babá

A polarização não hesitou em fazer de uma doméstica o ícone de uma disputa política

Por Flávia Oliveira, do O Globo 

Foto: Marta Azevedo

Triste do país onde cidadãos têm a individualidade desprezada em prol de embates políticos. Aconteceu no Brasil das manifestações do domingo, 13 de março. A caminho dos protestos na Zona Sul carioca, uma babá, vestida de branco, foi fotografada empurrando um carrinho com dois bebês. À frente, seguia o casal que a emprega, usando as camisetas auriverdes que coloriram a mobilização contra a corrupção, a presidente Dilma, o ex-presidente Lula e, com menos ênfase, outros personagens da vida política nacional igualmente às voltas com denúncias e processos. A imagem de João Valadares, repórter do “Correio Braziliense”, detonou o debate furioso (mais um) entre a direita-coxinha e a esquerda-petralha, classificação binária que grassa nas redes sociais, a ágora da era digital.

O país está mergulhado numa crise política que só faz se agravar, a economia enfrenta acelerada agonia, a agenda de direitos civis segue ameaçada, e a militância virtual se entrincheirou para discutir “a babá”. Uma mulher negra no cumprimento de seu ofício teve a imagem e a narrativa sequestradas por dois grupos interessados tão somente no vale-tudo da disputa ideológica.

De um lado, ficaram os que viram na cena do casal com os filhos e a empregada doméstica a representação recorrente, até no branco do uniforme, desde que o Brasil é Brasil. Basta lembrar das gravuras de Jean-Baptiste Debret com senhores e mucamas do século XIX. Daí surgiu a profusão de comentários, provocações e memes buscando associar os atos de domingo à tentativa de retorno (ou manutenção) de status quo pelas elites e retirar do movimento a intrigante complexidade exibida nas ruas.

No lado oposto, ficou o bunker dos empregadores de bem, liderado por Claudio Pracownik, o patrão fotografado e, horas depois, identificado como vice-presidente de Finanças do Flamengo. Ele próprio reagiu às críticas e ironias com texto, numa rede social, em que explicitava posições políticas e alardeava a carteira assinada da babá e as contribuições trabalhistas em dia. De quebra, permitiu-se a grosseria de afirmar que a empregada — até ali, completamente fora do debate da qual era pivô — estava “livre para pedir demissão, se achar que prefere outra ocupação ou empregador”.

Sim, estão certos os que denunciaram que o trabalho doméstico é mazela histórica da sociedade brasileira, herança da colonização escravocrata. A consulesa da França em São Paulo, Alexandra Loras, que já morou na Inglaterra, na Alemanha, na Espanha e na Suécia, costuma dizer em entrevistas que o Brasil é o único país do mundo onde ela vê babás vestidas rotineiramente de branco. Negra, ela própria já foi tida como ama do próprio filho, um menino de pele clara.

Uma década atrás, em reportagem para a “Revista O Globo”, eu mesma escrevia sobre o quanto a emancipação de mulheres de classes média e alta no Brasil se ancorou na transferência das atribuições familiares para empregadas — principalmente jovens e mulheres negras — mal remuneradas e sem direitos trabalhistas. É Brasil Colônia ao infinito. Em 1940, a Obra do Berço, ainda hoje em atividade no Rio, passou a funcionar como internato “devido a uma grande demanda de domésticas que trabalhavam na Zona Sul e não tinham com quem deixar seus filhos”, diz o site da instituição.

A PEC das Domésticas — que estendeu aos trabalhadores do lar benefícios garantidos pela CLT aos demais profissionais desde meados do século XX — só foi promulgada em 2013 e regulamentada no ano passado. Mesmo assim, ainda anteontem, o IBGE informava na Pnad Contínua que apenas um em cada três trabalhadores domésticos do Brasil (6,2 milhões, ao todo) tem carteira assinada. A renda média da categoria em fins de 2015 era de R$ 759, a menor entre dez atividades pesquisadas.

O fato de contratar legalmente e quitar encargos não tira dos empregadores a obrigação de refletir sobre uma realidade social tão duradoura quanto inaceitável. Se o tal marciano desavisado baixar no Brasil por esses dias vai se deparar com um exército de mulheres, predominantemente negras e vestidas de branco, a atender e cuidar dos filhos das outras em praças, parques, casas de festas, piscinas de clubes. Os lares da classe média e da elite, ainda hoje, são teimosamente construídos com dependências de empregada que remetem à senzala, porque a prática de dormir no trabalho não foi abolida com a Lei Áurea.

A reflexão é essencial e profunda, mas não foi ela que motivou o confronto virtual do início da semana. Este foi resultado da polarização que não hesitou em fazer de uma trabalhadora doméstica o ícone de uma disputa política para a qual ela não foi chamada. Maria Angélica de Lima, 45 anos, moradora de Nova Iguaçu (RJ), mãe de duas filhas, patroa de uma babá, eleitora de Aécio Neves (PSDB), insatisfeita com o governo, mas contra o impeachment de Dilma — soubemos de tudo isso pela reportagem de Bruno Alfano, anteontem, no “Extra” — foi silenciada e ignorada na web. Os gladiadores virtuais se apropriaram de sua imagem e subtraíram dela o protagonismo, a individualidade, o direito de contar a própria história. É algo que não se faz. Por causa alguma.

 

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