Apresentador da Globo sofre racismo em shopping no PE: ‘É entregador?’

O jornalista Pedro Lins, apresentador do NE 1, da Globo em Pernambuco, denunciou em suas redes sociais que foi alvo de racismo estrutural, na última quarta-feira (4), em uma loja do Shopping Recife.

Por meio dos stories no Instagram, ele relatou que foi a uma loja — sem mencionar o nome do empreendimento — com a intenção de comprar um presente para uma amiga. Entretanto, a abordagem de uma vendedora o deixou bastante incomodado.

Fui entrar em uma loja do Shopping Recife. Aí, a vendedora olhou pra mim e falou assim “ah, você é entregador do Rappi [aplicativo de entrega]?”. Aí, eu falei “não, eu vim aqui comprar, mas se o pagamento for bom quem sabe eu não faço esse extra”. Bom, é isso.

Pedro Lins.

Já em seu Twitter, Pedro Lins externou aos seus curtidores que o caso sofrido dentro do shopping é racismo estrutural.

“Fui numa loja do Shopping comprar um presente para uma amiga. A vendedora me abordou perguntando se eu era entregador do Rappi. Vocês sabem o nome disso, né?”, escreveu.

Splash entrou em contato com Pedro Lins para colher mais detalhes do caso, como se realizou alguma denúncia com a loja ou vendedora ou levou o caso a administração do shopping, mas não recebemos resposta até a publicação do texto.

O Shopping Recife emitiu comunicado lamentando o episódio de racismo vivido pelo jornalista e informou que a conduta não condiz com o “compromisso de tratar todos os clientes com respeito e igualdade“.

“O Shopping Recife informa que tomou conhecimento do episódio, ocorrido em uma de suas lojas, por meio das redes sociais. O centro de compras lamenta o fato e reforça que este tipo de conduta não condiz com os valores do equipamento, reafirmando o seu compromisso em receber todos os seus clientes com respeito e igualdade”, diz o comunicado enviado a Splash.

Em nota, a Globo lamentou o episódio e afirmou que repudia o racismo em todas as suas formas e manifestações e tem firme compromisso com a diversidade e a inclusão.

O que é racismo estrutural?

Racismo estrutural é o termo usado para reforçar o fato de que existem sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras. No Brasil, nos outros países americanos e nos europeus, essa distinção favorece os brancos e desfavorece negros e indígenas.

Essa estrutura social que possibilitou a manutenção do racismo ao longo da história, inclusive do Brasil, pode ser contada a partir das próprias leis do país – algumas delas são da época em que os negros eram escravizados, é claro, mas outras vieram depois da abolição.

Um exemplo disso é a própria Lei Áurea, de 1888. Além de o Brasil ser o último país das Américas a aderir à libertação das pessoas escravizadas, a população negra que vivia aqui se viu livre, porém sem opções de emprego ou educação.

Isso se deve à legislação anterior: em 1824, a Constituição dizia que a escola era um direito de todos os cidadãos, o que não incluía os povos escravizados. Já em 1850, a Lei de Terras permitiu ao Estado a venda de espaços agrários a custos altos. Como as pessoas negras poderiam, em condições de precariedade total, cultivar o próprio alimento?

Para piorar a situação, a lei previu, mais tarde, subsídios do governo à vinda de colonos europeus para viverem e trabalharem no Brasil. O objetivo era “branquear” a população brasileira.

Se, antes da abolição, a legislação parecia não ter relação direta com o racismo, em 1890, com as primeiras leis penais da República, isso ficou evidente. Sem terras, educação ou trabalho, os negros que eram encontrados na rua ou que praticassem a capoeira podiam ser presos. Era a chamada Lei dos Vadios e Capoeiras.

A primeira vez em que a legislação contribuiu, de fato, para a democracia racial no Brasil ocorreu apenas em 1989, quase um século depois, quando a Lei Caó tornou o racismo um crime inafiançável e imprescritível.

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