‘As pessoas precisam entender que não é vitimismo. Racismo machuca’, diz rapper Karol Conka

Queridinha da moda e da cena rap, a cantora fala sobre racismo, como construiu sua postura de atitude e fala do novo álbum

Por Gabriela Navalon, do Revista Marie Claire

Com tranças cor de rosa no cabelo, roupas divertidas e bom humor que é transmitido até na voz, Karoline de Freitas Oliveira, de 28 anos, a Karol Conka, é estrela ascendente na cena do rap nacional. Com apenas um álbum lançado, “Batuk Freak”, a paranaense coleciona sucessos, como os hits “Boa Noite”, “Gandaia” e o mais recente “Tombei”. Considerada porta-voz do movimento negro e feminista nos palcos, a rapper sente orgulho por ser uma referência fora dos padrões e faz questão de, com sua música, ajudar as pessoas.

“Acho importante transmitir mensagens de autoestima, e faço isso porque percebo, do meu ponto de vista, que o que mais adoece as pessoas é a falta de amor próprio. É isso que deixa as pessoas frustradas e faz com que elas se tornem ‘haters’ na internet. Penso que tenho o dom da fala e prefiro usar isso para transmitir uma palavra de conforto”, diz Karol, que está gravando seu novo álbum, com lançamento previsto para junho.

Para ela, a autoestima também é segredo para uma sociedade mais feliz. “Muitos fãs se sentem representados por mim, que sou uma pessoa fora do padrão, porque não se enxergam na televisão ou nos outdoors”.

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KAROL GOSTA DE INOVAR NOS LOOKS E OPTA POR CORES VIBRANTES E CHAMATIVAS (FOTO: REPRODUÇÃO/INSTAGRAM/HANNAH BAUHOFER)

O visual criativo e cheio de atitude de Karol também a aproximou do mundo da moda – ela é figurinha conhecida nas imagens de “street style” da SPFW. “Sempre achei o estilo uma forma de expressão. E sempre quis ter tudo diferente”, diz. Mas, antes de transmitir suas ideias às pessoas, a rapper viveu momentos que a transformaram em uma mulher de opinião forte e pronta para “tombar” determinados padrões sociais.

Desde a infância em Curitiba, Karol gosta de rimar. Na época em que as Spice Girls estavam no auge, ela se divertia imitando Mel B. A família encarava a vontade de ela ser artista como um sonho de criança, mas as brincadeiras eram refúgio também para o vazio que o pai, alcoólatra, deixava. “Eu ficava triste de vê-lo no banheiro em coma alcoólico. Sentia falta da presença dele. Nunca aconteceu de ele ser agressivo por causa da bebida, mas passei por situações chatas. Fantasiar me ajudava”, desabafa.

Depois, conheceu o rap e se apaixonou por Lauryn Hill. “Me senti atraída porque é um ritmo cru, real. Meus primeiros contatos com música foram samba, pop e MPB, mas o rap tinha algo a mais. Hoje sinto que consegui colocar meu jeitinho mais pop na minhas músicas”, explica. Foi após subir uma música própria no antigo MySpace que Karol começou sua carreira.

Desde pequena, Karol sentiu diversas vezes o sabor do preconceito. “Tinha 17 anos e um professor estava me dizendo que eu poderia processá-lo, pois só queríamos dinheiro dos brancos. As pessoas precisam entender que não é vitimismo. Racismo machuca. Machuca as crianças. Machuca os adolescentes.

Em outro caso, ela conta que se apaixonou, ainda criança, por um menino branco. Para namorá-la, a condição era que ela mergulhasse numa piscina de água sanitária para ficar branca. “E eu mergulhei minha mão num balde, aos nove anos, para ver se funcionaria. Naquele dia, minha mãe começou a me mostrar que eu sou linda assim, desta forma.” Como uma das únicas cantoras negras no rap nacional com visibilidade, Karol se sente responsável por representar o movimento negro e lembra do que aprendeu. “Se eu reclamo, sou vítima. Mas, se eu me calo, não adianta. Então comecei a causar.”

Não apenas como negra, mas também por ser mulher na cena do rap nacional, dominada por homens. “Muita gente me falou que não acreditava em mim e, só depois de ouvir minha música, enxergou minha capacidade. As pessoas têm essa coisa de ‘ah, é mulher fazendo’ e já rola uma preguiça. Gosto de servir de exemplo por isso, porque somos subestimadas.”

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