Bell Hooks: Por uma pedagogia interseccional

“É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.” – Paulo Freire

Fundamentando-se em sua história de superação pessoal por meio da teoria libertadora, Bell Hooks nos mostra que, na educação quando a nossa experiência de vida está intrinsecamente ligada à teorização, não existe uma separação entre a teoria e a prática. Na teoria como prática libertadora, a autora traz a teorização como um processo crítico e reflexivo que pode levar a uma mudança, uma prática, uma cura do indivíduo ou do coletivo, desde que seja direcionada para este fim. Como feminista negra interseccional, a escritora reivindica constantemente a teoria dentro do ativismo (tanto na forma escrita, quanto na forma oral) e desenvolve o capítulo propondo centralizar a discussão pedagógica voltando-se para esse movimento sociopolíticoracial.

Para as mulheres negras ocidentais, lecionar é um ato essencialmente político, contra hegemônico e que possui raízes na luta anti-escravocrata e antissegregacionista. O movimento feminista afro-americano possui um marco importante no sistema educacional porque foram elas que sempre lutaram contra as desigualdades de maneira plural e não dominante. No final da década de 80, a contribuição dessas mulheres para a reconstrução de um feminismo multicultural e crítico a respeito de raça, gênero, classe, orientação sexual e teorias feministas brancas, foi inestimável e alcançou as discussões modernas sobre a pedagogia. E isso é fundamental para compreender a constante preocupação da escritora com a descolonização do conhecimento e seus questionamentos diante da parcialidade das práticas de ensino.

Alicerçada nas obras de Paulo Freire, Hooks acredita que a construção de uma educação humanista – antirracista, antissexista, anti-homofóbica e etc. – que reconheça as peculiaridades do indivíduo e que garanta a voz dos estudantes, é capaz de estimular o senso crítico dos mesmos e avançar para uma prática que liberte as minorias das opressões. Mas para isso, se faz necessário combater os métodos pedagógicos arcaicos, descentralizar o conhecimento teórico e reconhecer a falta de compromisso da academia em aproximar a teoria da prática. A supervalorização da produção acadêmica feminista formulada num ambiente elitista/branco cujas obras escritas por “pessoas de nome”, privilegiadas, muitas vezes, invisibilizam as fontes poucos conhecidas, hierarquizam o debate e não contribuem na prática para o coletivo. Esses “dogmas teóricos” rigorosamente seguidos são paradoxais porque, é inconcebível um desempenho teórico que só pode ser entendido por um círculo mínimo de pessoas e não serve para educar o público. Ou seja, o pensamento inútil, produzido na academia para manter o status quo da classe dominadora intelectual, sem nenhuma pretensão de intervenção prática na realidade social, só será desafiada, segundo a escritora, através da teoria da libertação.

“É evidente que um dos muitos usos da teoria no ambiente acadêmico é a produção de uma hierarquia de classes intelectuais onde as únicas obras consideradas realmente teorias são as altamente abstratas, escritas em jargão, difíceis de ler e com referências obscuras (HOOKS, 1994, 89).”

Segundo a ativista, a criação de um abismo entre a teoria e a prática na academia é intencional porque é esse o artifício utilizado para perpetuar o elitismo intelectual que produz teorias irrelevantes para o todo e promove uma falsa dicotomia entre a teoria e a prática.  Por não se enxergarem dentro dessa hegemonia, muitas mulheres negras tentaram resistir à teorização acreditando apenas que a prática poderia trazer uma solução concreta para a comunidade. Porém, Bell Hooks rebate essa crítica colocando a complexidade do feminismo e do movimento negro como um parâmetro para grandes fenômenos que não se prendem a uma teoria única. Entretanto, em um determinado momento “as mulheres negras perceberam que permanecer calada (sem teorizar) só ajudaria a perpetuar a ideia que podemos engajar sem teoria”, pesando na teoria como algo apenas abstrato, o que na visão da autora é inconcebível.

“Infinitas vezes, os esforços das mulheres negras para falar, quebrar o silêncio e engajar-se em debates políticos progressistas radicais enfrentam a oposição. Há um elo entre a imposição de silêncio que experimentamos e censura anti-intelectualismo em contextos predominantemente negros que deveriam ser um lugar de apoio (como um espaço onde só há mulheres negras), e aquela imposição de silêncio que ocorre em instituições onde se dizem as mulheres negras e de cor que elas não podem ser plenamente ouvidas ou escutadas porque seus trabalhos não são suficientemente teóricos (HOOKS, 1994, 95).”

Hooks rejeita os formatos acadêmicos tradicionais e inclusive defende que a teoria não acadêmica (como a tradição oral, por exemplo) seja tão valorizada quanto à acadêmica e também concorda na existência da prática sem a teoria. Mas não descarta em hipótese nenhuma a importância da mesma. Por isso ela acredita que os negros, em especial as mulheres negras, precisam teorizar e subverter o feminismo branco, o patriarcado e o racismo epistêmico dominante – já que para a autora a prática envolve o processo de teorização. Entretanto, alguns negros ainda menosprezam a teoria e acreditam que a luta pode se dá sem a mesma. Por outro lado, intelectuais negros tentam superar a barreira do pensamento hegemônico para mostrar que as palavras servem para compreendermos a natureza da nossa situação e os meios pelos quais podemos engajar e transformar a nossa realidade. Nesse contexto, a feminista ressalta que, mesmo tentando subverter o sistema, não devemos tratar toda teoria dominante como inútil, pois essa atitude reacionária é similar ao que os brancos fazem quando rejeitam como teoria a produção intelectual dos grupos marginalizados.

a posse de um termo não dá existência a um processo ou prática; do mesmo modo, uma pessoa pode praticar a teorização sem jamais conhecer/possuir o termo (HOOKS, 1994, 86).”

A teoria como prática libertadora, pressupõe uma educação que não reproduz o status quo, que traz o pensamento crítico, reflexivo e desconstrutivo para a sala de aula. Mas para isso, se faz necessário reconhecer a diversidade teórica; e a diversidade teórica, nada mais é, do que as experiências de vida. Para a escritora, todas as pessoas levam algum conhecimento para a sala de aula e essa pluralidade deve ser respeitada e utilizada como metodologia pedagógica: Escambo de vivências (o professor não deve ser uma autoridade e deve participar da troca de conhecimento), debates abertos, descentralização de condutas e etc. Num contexto multicultural, os alunos devem ser convidados a conhecer a diversidade epistemológica num espaço criado pelo professor para incluir temas que tragam, por exemplo, consciência de raça, sexo e classe associando-as a disciplina oferecida. Uma educação que liberta e que não faz dos estudantes pessoas meramente passivas e engessadas, não apenas exige o despertar da criticidade acerca da sociedade que vivemos, mas também, a visibilidade dos não brancos, das mulheres, dos LGBT’s e dos marginalizados. Só com a “educação engajada” [3] conseguiremos visualizar como as relações de poder interferem na educação e desarticularemos a escola como um lugar opressão.

[1]HOOKS, Bell; A teoria como prática libertadora. In:_____ Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.  Cap.5, p.83-104.

[2] Feminista negra que reivindica sua pauta como mulher negra que sofre com o racismo e o machismo, mas acreditando que há uma intersecção entre diversas opressões: de gênero, orientação sexual, raça e classe social, não acreditando assim haver uma hierarquia entre elas.

[3] Uma educação que venha na direção oposta da ideologia mercantilista e dominante, que atenda as necessidades da população excluída dos direitos básicos da existência humana e que forme sujeitos críticos, conscientes e construtores de sua própria história.

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