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Chegou a hora dessa gente branca mostrar o seu valor – Por Atila Roque

A crise política que atinge a democracia brasileira com a força de uma tsunami exige de cada um e cada uma de nós um enorme esforço para não cair prisioneiro dos acontecimentos diários. É fundamental não perder de vista as correntes profundas e densas que há séculos atolam o Brasil na areia movediça das desigualdades e injustiças. O Brasil não é para principiantes. Somos mestres em mudar tudo para que tudo permaneça onde sempre esteve.

Por Atila Roque em seu Blog 

Uma dessas forças profundas que nos mantém tão próximos do estado de barbárie é a persistência do racismo.

Nos últimos anos, em reação ao protagonismo dos movimentos negros e de uma juventude majoritariamente negra que não aceita mais ser silenciada por hierarquias de lutas que sempre colocaram a sua dor em segundo plano, as forças racistas saíram do armário centenário em que andavam guardadas, e se expuseram de maneiras mais ou menos explícitas. O momento icônico desse embate, não tenho dúvida em apontar, foi a discussão sobre a adoção de cotas raciais para o acesso à universidade. Foi ali que se revelou de maneira cristalina – e lembrando o que sempre nos disse a filósofa e liderança histórica negra, Sueli Carneiro – como o racismo no Brasil não tem preferencias político-ideológicas, ou seja, viceja à esquerda e à direita.

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Não tinha como ser de outra maneira, afinal a lei básica da física tem equivalência no mundo das lutas sociais: toda ação produz uma reação. A diferença é que no mundo da vida essas forças não são iguais e vivenciamos, como poucas vezes na nossa história, um momento de grandes escolhas e embates, potencializado por 30 anos de avanços no campo da democracia e dos direitos humanos, com consequências cruciais para a luta antirracista.

O desafio mais importante para quem se encontra comprometido com o fortalecimento da luta antirracista no Brasil é escutar o som ao redor.

E isso significa, em primeiro lugar, escutar a si mesmo. Esse é o primeiro passo para superar as autodefesas que vergonhas racistas produziram historicamente em nosso inconsciente coletivo. Falar de racismo no Brasil sempre foi algo de mal tom nos ambientes bem educados, nas salas de jantar e encontros familiares. O assunto ainda hoje cria desconforto. Permanece dolorosamente atual a pergunta feita pelo título de uma campanha realizada há uma década: Onde Você Guarda o Seu Racismo?

Em segundo lugar, precisamos escutar o outro, especialmente aqueles e aquelas que por muito tempo lutaram para terem suas vozes (e as suas dores) reconhecidas. E não estou falando de nenhum “outro” abstrato, estou falando de jovens negros das favelas e periferias, mulheres negras empregadas domésticas, babás negras dos filhos e filhas dos endinheirados, porteiros negros, crianças e adolescentes negros abandonados pelas ruas, jovens negros nas prisões, policiais negros, adolescentes negros nos abrigos e nos centros para jovens infratores. Sujeitos de uma vida de acesso e possibilidades seletivas, descartáveis, determinadas, em grande medida, pela sua posição na hierarquia racial brasileira. Sujeitos também de um novo protagonismo social e político que não aceitam mais retrocessos, nem mediadores. Exigem voz própria e controle sobre as próprias narrativas.

E aqui entro, finalmente, em terreno sensível, desconfortável, mas sobre o qual precisamos falar abertamente: essa escuta é particularmente necessária entre os brancos. Não podemos desconhecer séculos de “produção do silêncio” e privilégios históricos, permitindo que umas falas prevaleçam em relação a outras.

Enquanto os brancos não aprenderem a reconhecer o momento de calar e de ouvir as vozes negras (mais ainda dos homens e das mulheres negras jovens), não serem capazes de reconhecer de fato esse protagonismo que não pede licença para existir, o Brasil não será capaz de superar a danação do racismo.

Somente assim a luta antirracista pela igualdade será mesmo de todos, sem exceções, como deve ser. Faço uso da classificação “brancos” sem medo de ser acusado de “racializar” o debate, como tanto se difundiu durante o debate das cotas. O racismo, afinal, não precisa da existência científica de raças para existir. Não vamos, portanto, nos perder novamente em falsos debates.

Estou convencido que pessoas brancas estão – mais do que jamais estiveram em qualquer outro momento da história do Brasil, com a possível exceção do período da luta abolicionista – desafiadas a entender o que significa esse lugar de privilégio, nesse país tão radicalmente e profundamente racista. Sem culto da culpa ou autoflagelo, mas também sem paternalismo, nem condescendência. Defendo, portanto, ser urgente debater o significado da“branquitude” na organização das relações socioculturais no Brasil, sem a qual não existe possibilidade de superarmos o racismo estrutural que produz tanta violência física e simbólica, tanta dor. Tenho certeza que a sociedade brasileira está pronta para isso, a oportunidade é agora.

Esse é um desafio que faz parte da luta por igualdade que diz respeito ao conjunto da cidadania, sem exceções de cor ou classe social. O racismo é um dos principais, senão o principal, fator de sustentação das desigualdades no Brasil. Sem essa tomada de consciência não seremos capazes de construir as pontes dialógicas que precisamos de maneira tão urgente para conseguir romper com as falsas polarizações e discursos de ódio e intolerância que povoam atualmente qualquer discussão nas redes sociais. Os negros já vem fazendo a sua parte nessa tomada de consciência. Agora é a hora de nossa gente branca mostrar o seu valor – escutar, reconhecer e fortalecer o movimento antirracista que precisa ser abraçado por todos e todas senão não avançaremos.

 

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