Combinaram de nos matar. Mas nós combinamos de não morrer!

(Conceição Evaristo)

A escrita converte-se em um ato político!

Juntamos as nossas vozes, as nossas lutas, as nossas potências para escrever a quatro mãos este texto neste mês de março de 2022, onde temos imensos desafios e muita esperança de que vamos virar o jogo do Brasil e do povo brasileiro.

O escrever pode ser um ato de descolonização e resistência, justamente nesse processo quando deixamos de ser objeto e nos tornamos sujeitas. Essa inspiração de pensar objeto para sujeito, segundo GRADA KILOMBA (2019), vem dos escritos de BELL HOOKS (1989), que afirma que o falar com a própria boca, o escrever com as próprias palavras, nos coloca no lugar de visibilidade, poder e protagonismo que temos o direito de ocupar.

O patriarcado, o colonialismo, o racismo e o sexismo constituem formas de dominação que caracterizaram o período de escravização e que, no que pese apresentarem dinâmicas diferentes em cada contexto nacional, influenciaram a formação dos aspectos da vida social, e por mais que estejamos em 2022, seguem estruturando as relações na sociedade atual.

Na história brasileira, em 1888, ocorria a abolição da escravatura. As mulheres e os homens negros estavam livres, mas, perante a lei e a sociedade, não eram cidadãos e não tinham os mesmos direitos de seus pares. Os homens brancos estavam no topo da pirâmide social, como ainda ocorre hoje, passado mais de 130 anos. Não há dúvidas que a escravidão deixou marcas profundas, desumanizando os escravizados, violentando as mulheres e criando estereótipos ou padrões que ainda estão presentes no inconsciente coletivo.

Vivemos em uma quadra política de avanço do conservadorismo e de perda de direitos sociais e trabalhistas historicamente conquistados, os dias de chumbo da ditadura militar de 1964, nos lembram o período que estamos vivendo nos dias de hoje.

As desigualdades sociais estão estampadas nas ruas, com milhares de pessoas e famílias ao relento. Mais da metade da nação – 116,8 milhões de pessoas – vive sob insegurança alimentar e 19 milhões estão passando fome. 

A pandemia de Covid-19 escancarou ainda mais essa realidade, que tentava se esconder atrás de mitos como a meritocracia e a democracia racial brasileira.  O imenso abismo existente entre ricos e pobres e a desigualdade social e racial ficaram ainda mais expostos, como uma incômoda ferida aberta. 

O país ultrapassa à dolorosa marca de mais de 640 mil mortos pela Covid-19. Essa tragédia, associada ao agravamento da situação geral do país se deve à postura negacionista do presidente que tem como marca de seu governo o projeto ultraliberal, neocolonial e autoritário. O presidente além de genocida, é misógino, racista e LGBTfóbico. 

O coronavírus atingiu a todos, com certeza, mas ele afetou ainda mais a vida da população que já estava em vulnerabilidade, como as mulheres das comunidades periféricas,  principalmente, as mulheres negras. Foram as mulheres que ficaram mais expostas à violência doméstica, ao desemprego, à sobrecarga de trabalho e ao medo. O medo de “levar a doença para casa” teve que pesar menos na balança, do que o medo da fome e do desemprego.

Os mecanismos históricos de opressão e dominação criaram uma condição onde a mulher negra tem ficado, ao longo do tempo, em uma situação de maior vulnerabilidade social.  De acordo com ANGELA DAVIS (1981) é necessário entender esta relação entre raça, classe e gênero, para se pensar um novo modelo de sociedade.  Lutar por um outro mundo possível,  precisa passar pela compreensão que estes fatores se correlacionam e que a questão racial e de gênero são tão importantes, quanto a de classe.

O racismo, assim como o machismo, está enraizado em nossa sociedade. Sendo ele estrutural, as ações não podem centrar-se somente nos indivíduos, mas também nas estruturas que mantém o sistema de privilégios, de vantagens e de discriminações. A eleição de Bolsonaro demostrou este enraizamento, o conservadorismo, a violência e a necessidade de aprofundar o discurso, a prática, a educação e as políticas públicas antidiscriminatórias no Brasil.

O projeto bolsonarista, que representa a face mais nefasta do Estado capitalista, tem uma agenda racista, antipovo, reacionária e conservadora, que aposta na ordem patriarcal, na violência de gênero, no gabinete do ódio, na desinformação, na antipolítica, na necropolítica e no negacionismo, portanto, a cada dia se torna mais urgente derrubarmos Bolsonaro, para garantirmos a vida das mulheres.

Cotidianamente nos deparamos com o aumento dos casos de ódio, incentivados pelos discursos vindos do próprio Planalto. Não suportamos mais tanta barbárie, ausência do Estado e descaso com as mulheres e homens do nosso país. Para vencermos nosso inimigo de classe, estamos resistindo, lutando e esperançando.

Temos hoje novos ventos soprando nas nossas mentes e corações, vai despontando um novo ambiente político, marcado pelas grandes manifestações nas ruas, construídas com ampla unidade e participação de diversos setores da sociedade que demonstram sua indignação em atos pelo Brasil do Oiapoque ao Chuí.

A esperança do povo desabrocha. Vai sendo criada a possibilidade real das oposições vencerem as eleições de 2022, derrotando e expulsando Bolsonaro do governo, único meio de termos soberania nacional, uma vida digna, democracia e nossos direitos que foram roubados. É muito importante que a frente Fora Bolsonaro cresça com amplos setores da sociedade que quiserem se somar para fortalecer a nossa luta contra o fascismo em defesa da democracia e da vida.

Neste 8 de Março conclamamos para estarem nas ruas e nas redes: todas, todos e todes que tem convergência que é urgente derrubar Bolsonaro e lutar pela vida das mulheres. 

Escolher escrever é rejeitar o silêncio, Chimamanda Nogzi Adichie.


Silvana Conti – Vice – Presidenta da CTB/RS. Mestranda em Políticas Sociais UFRGS/RS.  

Angela Antunes – Funcionária Pública – Secretária de Movimentos Sociais e Igualdade Racial da Seção Metropolitana da CTB/RS

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

+ sobre o tema

Em defesa da tolerância religiosa em nossa sociedade

Em defesa da tolerância religiosa em nossa sociedade: Uma...

Encontro das águas: precisamos falar sobre afetividade

O sistema escravocrata e as divisões raciais criaram condições...

Quanto vale uma vida?

Quando perguntamos às crianças o que querem ser quando...

A manutenção de Fundeb como estratégia para reorganização das comunidades escolares pós-pandemia do covid-19

Foi reportada, pela primeira vez, pelo escritório da Organização...

para lembrar

A não-violência funciona para negros?

Em 1967, o ativista Stokely Carmichael fez um discurso no qual...

Racismo e menoridade intelectual da branquitude

Deixando de lado o gesto retórico da sagaz narradora...

Por que comemorar a indicação de um álbum do Racionais MC’s nas leituras obrigatórias para o vestibular da Unicamp?

Ogunhê! Por Esdras Soares para o Portal Geledés  Divulgação Racionais MC’s A...

Quem matou Marielle atiçou um formigueiro

Em 18 de março de 2018, milhares de pessoas...

Estudo mostra o impacto do fator racial materno no desenvolvimento infantil

O ganho de peso e o crescimento dos filhos está diretamente relacionado ao fator etnorracial das mães. Isso é o que mostra uma pesquisa desenvolvida pelo Centro de Integração de Dados...

Mulheres pretas e pardas são as mais afetadas pela dengue no Brasil

Mulheres pretas e pardas são o grupo populacional com maior registro de casos prováveis de dengue em 2024 no Brasil. Os dados são do painel de...

Esperança de justiça une mães de vítimas da violência policial no Rio

A longa espera por justiça é uma realidade presente entre as mães de vítimas da violência policial do Rio de Janeiro. Deise Silva de...
-+=