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Criei um exército de armas harmônicas, diz presidente do bloco Ilú Obá de Min

Criado em 2005, bloco de Carnaval reúne 450 mulheres na bateria e trabalha com as culturas de matriz africana e afro-brasileira

por Mônica Bergamo no Folha de São Paulo

Concentração do bloco Ilú Obá de Min, em 2018 Eduardo Knapp:Folhapress
Concentração do bloco Ilú Obá de Min, em 2018 Eduardo Knapp:Folhapress

“Meu pai era militar e queria que eu fosse dessa área. Mas ele deve estar feliz de ver onde estou hoje, porque eu criei um exército. Um exército feminino e com armas mais harmônicas [risos]”, diz Beth Beli, 50, uma das regentes do bloco de Carnaval Ilú Obá de Min, cuja bateria é formada por 450 mulheres.

O cortejo é a espinha dorsal da associação paulistana sem fins lucrativos Ilú Obá de Min – Educação, Cultura e Arte Negra, criada em 2004, e que é presidida por Beth. A entidade tem como base o trabalho com as culturas de matriz africana e afro-brasileira e a mulher.

O bloco desfila na sexta-feira e no domingo de Carnaval, em SP. O primeiro cortejo, em 2005, reuniu 3.500 pessoas. O maior público veio em 2013, com 65 mil pessoas.

O nome Ilú Obá de Min —criação de Beth— significa “mãos femininas que tocam o tambor para o rei Xangô”. “Ele é o orixá da justiça e nós precisamos muito dela. O Ilú clama por isso”, diz. Ela afirma que o grupo não é religioso, embora trabalhe com religiosidade.

“As influências [sonoras] são os tambores do candomblé. Todos os arranjos são tirados desses ritmos e de sons brasileiros, como maracatu, coco e baião”, explica ela.

Em seu 14º ano, o cortejo desfila com o tema “Negras Vozes – Tempos de Alakan”. A palavra alakan, do iorubá, significa alianças. “Queremos falar dessa militância das mulheres, dessas negras vozes unidas”, conta Beth.

Com expectativa de reunir 40 mil pessoas, o bloco deste ano será formado por 450 mulheres na bateria, 40 bailarinos e 12 artistas na perna de pau. Cerca de 180 mulheres ficaram de fora desta edição do desfile —o processo seletivo para integrar o cortejo prioriza mulheres negras e quem já participou em anos anteriores.

“Aqui, as mulheres são reconhecidas, valorizadas e sentem que pertencem ao processo. Todas são peças importantes para que o Ilú funcione”, completa Beth.

O perfil do grupo é heterogêneo: são mulheres de classes sociais diferentes (desde moradoras de ruas até as que foram criadas em bairros nobres), idades distintas (dos seis aos 70 anos) e origens variadas —além de brasileiras, já participaram argentinas, uruguaias, gregas e coreanas.

A sambista Leci Brandão, uma das madrinhas da entidade, a escritora Conceição Evaristo e a percussionista Monica Millet são algumas das personalidades que participarão neste ano. O cineasta Beto Brant, com quem o grupo mantém uma parceria de outros Carnavais, vai documentar o desfile.

A certa altura do trajeto, o bloco vai parar em frente ao Theatro Municipal para ler uma versão de uma carta de 1978 escrita por ocasião do surgimento do Movimento Negro Unificado —que foi criado em um ato  em 1978 em frente às escadarias do mesmo teatro.

A preparação para o Carnaval começa cerca de seis meses antes da data do desfile. Em um primeiro momento, há o processo de composição das canções, que é coletivo e feito na base da oralidade —não existem partituras, por exemplo.

Os ensaios ocorrem aos sábados e aos domingos. “Quando as meninas chegam [ao Ilú], elas não sabem nem segurar o instrumento”, diz Mazé Cintra, 60, uma das coordenadoras e regente do bloco. “E, quando termina o processo do Carnaval, são visíveis as mudanças em cada uma delas. Chega a ser transformador. Elas passam a se reconhecer”, completa.

Beth estima que os últimos ensaios, feitos ao ar livre, reuniram multidões de “até 2.000 pessoas”. “Começamos a passar o chapéu e conseguimos uns R$ 600 num dia. Tem gente que até leva cadeirinha de praia pra assistir [risos]”, diz.

Ela conta que o bloco não tem patrocínio: “Do tamanho que o Ilú ficou, acho que R$ 200 mil resolveriam. Só para os carros de som são R$ 16 mil.” Ela lembra que, em um primeiro momento, o Ilú era formado por cerca de 30 mulheres. Hoje, mais de 39 mil pessoas seguem a página do grupo no Facebook.

Os recursos para viabilizar o desfile e a própria entidade são provenientes de ações organizadas por suas integrantes, como festas e rifas, além de cursos e oficinas ministradas em sua sede, no Bom Retiro, como dança afro, prática vocal e percussão geral.

Recentemente, a entidade foi contemplada por dois editais do Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais (Pro-Mac).

O Ilú também faz shows —o cachê gira em torno de R$ 15 mil. Estabelecido no circuito municipal, com apresentações em Viradas Culturais e nas unidades do Sesc, por exemplo, o grupo já tocou ao lado de cantoras como Fabiana Cozza, Juçara Marçal e Leci Brandão.

O Ilú fez uma participação no disco mais recente da veterana Elza Soares, “Deus É Mulher” (2018). Em 2018, também foi uma das atrações do Coala Festival, em São Paulo.

Além da cena musical, as mulheres participaram de projetos audiovisuais, como a gravação de uma cena para a segunda temporada do seriado brasileiro “3%”, da Netflix, lançado em abril de 2018. Elas também participam do próximo documentário da diretora Eliane Caffé.

Outro projeto que está no horizonte é o lançamento de um livro, ainda sem nome definido, que vai compilar artigos sobre temas que foram abordados na série de ciclos e debates que o grupo promove desde 2004, “Ilú na Mesa”.

Beth diz que mais de 60 mulheres das áreas de educação, ativismo negro, cultura, política e feminismo participaram do projeto. “Agora queremos isso em livro, pra chegar a mais pessoas ainda. Quem sabe até na academia.”

“O Ilú sempre esteve do lado de quebrar os padrões e de peitar tudo, lutar pelas minorias. E hoje isso está mais na moda, as discussões estão mais exacerbadas, à flor da pele. Mas nós sempre fizemos política”, diz Mazé. “O ato da mulher pegar o tambor pra tocar na rua já é uma quebra de padrão.”

E foi esse o motivo que atraiu Mazé a participar do projeto. “Antes, se você [mulher] fosse em uma escola de samba eles te davam um ‘chocalhinho’. Eu queria tocar o tambor.”

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