Falsa polêmica sobre aborto viola direitos e dissemina narrativa ideológica

Enviado por / FonteECOA, por Bianca Santana

Queiroz recebe mais uma vez o benefício de prisão domiciliar, depois de revogado, depois de ter sido encontrado na casa do advogado da família Bolsonaro, depois de mais de um ano foragido, depois de movimentar quase R$ 3 milhões em sua conta como operador do esquema de rachadinhas de Flávio Bolsonaro. Difícil acompanhar.

O Ministério Público do Rio de Janeiro perdeu um prazo — veja bem, perdeu um prazo — de recurso no caso de investigação das tais rachadinhas. A primeira-dama Michelle Bolsonaro recebeu, entre 2011 e 2016, 21 cheques de Queiroz. Tem ainda compra de imóveis com dinheiro em espécie. Tem tuíte do presidente preocupado com os celulares de Adriano da Nóbrega, depois de o miliciano ter sido assassinado: “sem uma perícia isenta os verdadeiros criminosos continuam livres até para acusar inocentes do caso Marielle.” Tem até denúncia de que o presidente disse que interviria no STF depois da possibilidade de apreensão de seu celular e do celular de Carlos Bolsonaro. E tem também 56 pedidos de impeachment protocolados.

E, então, a terrível cumplicidade das famílias de bem com o dado de que 53,8% das vítimas de estupro no Brasil são crianças de até 13 anos de idade, ocupa os noticiários. Não pela denúncia da perversidade de uma sociedade que aceita 66 mil estupros por ano, e que deixa meninas vulneráveis a pedófilos ao proibir a discussão de gênero nas escolas. Mas pela propagação de uma ideologia antiaborto. Por que uma ministra de Estado tornaria público, em suas redes sociais, o caso de uma criança de dez anos de idade que engravidou por ser vítima de estupro, quando há legislação e políticas públicas para proteger essa garota? Depois de ser vítima de estupro e pedofilia, mais direitos são violados pela publicização do caso, divulgação de identidade, e batalha ideológica contra os procedimentos médicos adequados à proteção da menina.

Diante de tantos temas sensíveis para o governo Bolsonaro, a ministra, mais uma vez, captura a atenção pública para disseminar sua ideologia fundamentalista. O debate colocado não foi sobre aborto, se fosse, quem ocupa a função de ministra em um Estado laico deveria lidar com o dado de que a cada dois dias uma mulher morre por aborto inseguro no Brasil e admitir que esta é uma questão de saúde pública, além de trabalhar para a garantia do direito ao aborto legal de qualquer vítima de estupro. A guerra travada não é em defesa da vida, se fosse, jamais exporiam a imagem e a saúde de uma criança estuprada por um pedófilo, ainda mais quando se trata de procedimentos médicos legais. A batalha é por capturar a atenção, tirando o foco das acusações de corrupção da família Bolsonaro, aproveitando para disseminar uma narrativa ideológica contra meninas e mulheres.

Os direitos das crianças e das mulheres devem ser garantidos pelo Estado, não colocados em xeque em falsas polêmicas quando o governo quer abafar algum caso.

 

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