‘A gente é mais feliz quando se aceita’, diz rapper Karol Conka

Cheia de estilo e nova queridinha do mundo fashion, a cantora curitibana falou de preconceito e feminismo

Por Anna Rombino

“Sociedade em choque eu vim pra incomodar. Aqui o santo é forte, é melhor se acostumar”. Nas letras de suas músicas, a rapper Karol Conka mostra a que veio – e que não está muito aí para a opinião alheia. Sem muitos limites e com verdade e carisma de sobra, ela vai passando sua mensagem de empoderamento feminino e contra o racismo. Talvez por isso, a curitibana seja a maior rapper brasileira da atualidade: ao lado da cantora mirim Mc Soffia, foi, por exemplo, um dos destaques da cerimônia de abertura da Olímpiada do Rio de Janeiro.

E, cheia de estilo, virou ícone também do mundo fashion. Só nesta semana, se apresentou em dois eventos em São Paulo, o festival #EseEssaRuaFosseSua, organizado pela marca YouCom, que rolou no domingo, 28, e o lançamento da nova grife jovem My Favorite Thing(s), que ocorreu na terça, 30. Com cabelo cor de rosa, roupas mega coloridas e um toque de humor no visual, Karol é referência para meninas negras, que adotaram as famosas tranças usadas pela rapper e começaram e se divertir mais com a moda. Em entrevista ao Estadão, a artista falou de estilo, empoderamento feminino e preconceito. Já que é para tombar, Karol Conka tombou.

Você é mulher, negra, canta rap e está bombando na mídia. Tem dimensão da importância disso tudo? 

Sim. A representatividade diminui traumas, suicídios, depressão. A gente é mais feliz quando se aceita. Quando tem um artista falando de aceitação, fica mais fácil se identificar. Aí você desliga a televisão, em que está passando uma pessoa padrão, e vai para a internet encontrar a pessoa que fala o que você quer ouvir, não importa a cor da sua pele ou status social. O que importa é você se sentir bem e não fazer mal a ninguém.

Você sempre se aceitou? 

Toda criança negra não se aceita. Eu me aceitei depois dos 15 anos. É por isso que a gente grita tanto isso hoje em dia. O grito e o choro são reflexos da má educação que as pessoas têm nas escolas, na televisão e até dentro de casa.

Considera-se feminista? 

Sim. Acredito que o feminismo propõe igualdade para todos e serve para a mulher parar de ser vista como frágil, mas muita gente deturpa o real significado do movimento. Semana passada, um cara me falou que as feministas querem dar função para os homens e não é nada disso. Tudo o que uma mulher menos quer é ter que ficar dando função para um cara que não faz nada. Ela só não quer ser diminuída. Tem gente que fala: ‘não curto a Karol Conka porque ela é feminista’. Eu sou mesmo, aprendi com a minha avó, que apanhou pra caramba na vida. Se não fosse ela, talvez eu não estaria aqui com essa força.

Você é a precursora do movimento que chamamos de “geração tombamento”, com looks divertidos, tranças coloridas e muita irreverência. Como criou esse estilo? 

Meu estilo passa minha personalidade. Não importa a grife que a pessoa está usando, e sim a essência. Na minha carreira, o que mais me emociona é o feedback das pessoas, e me sinto responsável por passar uma mensagem. Se eu tenho esse dom da palavra, preciso usá-lo de maneira boa.

Por que acredita que cada vez mais marcas querem se associar a você?

Acho que é porque a internet é muito ampla. Ela mostra a voz e o gosto do povo. Se as marcas não falam de empatia e igualdade, elas vão estar perdendo. Nas redes, o público cobra isso. Quando as marcas se alinham a pessoas como eu, elas estão se reeducando.

Quais referências busca para montar seus looks de palco?

Gosto de remeter aos anos 1990 e à super-heroínas. Meu look sempre tem um lance cômico e uma pegada das antigas. Eu gosto da Madonna nos anos 1980 e 1990, também me inspiro nas angolanas e nas japonesas de Harajuku.

No clipe de “É o poder” você também usa produções ricas e inovadoras. Como foi o processo de construção dessa imagem? 

Eu gosto muito de trabalhar em equipe, mas desde que essa equipe trabalhe de acordo com minha essência e entenda a mensagem que passo. Para o clipe, contei com a ajuda dos meus stylists Anna Boogie e Rodrigo Polack. Eles compuseram os looks, que lembram orixás e artistas pops, mas a intenção era fazer isso criando uma imagem mais minimalista mesmo. Todos os meus clipes são cheios de gente, mas nesse projeto fui desafiada, pois só tem eu. No começo achei um pouco estranho, depois comecei a gostar de me ver nessa situação de expor minha atitude.

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