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Giovana Xavier: “Mercado editorial descobriu que mulher preta vende …

Historiadora elogia maior presença de autores negros na Flip, apesar de público ainda ser “essencialmente branco”

Giovana Xavier, autora que participa da Flip Foto: Imagem retirada do site Época

PARATY – Em 2016, a historiadora Giovana Xavier, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e criadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras, acusou a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de “arraiá da branquitude”. Naquele ano, não havia um só negro entre os 39 autores convidados da festa. Uma carta aberta assinada por Xavierafirmava que a Flip não era assim tão cosmopolita e lhe faltava compromisso político.

Neste sábado 13, na Casa Poética Negras, na programação paralela da Flip, Xavier lançou seu livro Você pode substituir Mulheres Negras como objeto de estudo por Mulheres Negras contando sua própria história (Malê). Nos 33 ensaios do livro, ela fala sobre surfe, rap, literatura, teatro, orixás e… a Flip. Algumas horas antes do lançamento, num café em Paraty, Xavier conversou com ÉPOCA sobre a presença de negros e negras na Flip, na academia e no mercado editorial.

Três anos depois que a senhora denunciou o “arraiá da branquitude” da Flip, o que mudou?

Houve mudanças indiscutíveis. Quando você entra na Livraria da Travessa, a maior da festa, vê que as duas primeiras estantes são dedicadas a autores negros. Isso é revolucionário num país forjado às custas do trabalho escravo negro. Nós conseguimos nos mover para além daquela coisa da “única”: “Ah, a única autora negra”, “Ah, a única exceção”. Mas o público da Flip ainda é essencialmente branco, o que mostra quanto ainda temos de trabalhar. Na sexta-feira 12, eu assisti a uma mesa da Jarid Arraes com a Conceição Evaristo. e uns 95% das pessoas eram brancas. Mas eram pessoas brancas interessadas no pensamento de mulheres negras. Nós conseguimos conquistar ouvidos, porque voz a gente sempre teve.

Dos 33 autores convidados desta Flip, são oito negros: cinco mulheres e três homens. O que ainda falta mudar?

Esse número continua não sendo representativo. Num cenário ideal, com o qual a gente nunca trabalha, a representação de autores brancos e negros deveria ser paritária, porque o Brasil tem 54% de pessoas negras. Se não é assim, devemos fazer perguntas: não temos autores e autoras negras? Se não temos, por que não temos? Se temos, por que eles não estão aqui? E se estão, quem é que está? Na história do Brasil, há muitos avanços que coexistem com permanências. Quanto à Flip, agora a questão é outra: já passou da hora de falar da curadoria de pessoas negras. A Conceição Evaristo pautou isso ontem. Ficamos ligados na questão da autoria, que é fundamental, mas precisamos ocupar esses espaços para pensar e colocar em prática a Flip que a gente quer.

O mercado editorial está mais aberto a autores e autoras negras?

Demorou, mas o mercado editorial descobriu que mulher preta vende. Ao mesmo tempo, isso ainda acontece dentro dos marcos do racismo estrutural, porque se cria um grupo de excepcionais, de autores brilhantes que você conta com os dedos de uma mão. Precisamos pensar padrões do mercado editorial que contemple e represente a diversidade da negritude. Tenho alunas na UFRJ que escrevem loucamente, têm cadernos e cadernos preenchidos e não sabem o que fazer com aquilo. Como publicar essas vozes e sair desse cânone das exceções? A disputa hoje passa por criar um sentido de negritude que caiba dentro da história do Brasil. Fica um paralelo entre “literatura negra” e “literatura brasileira”.

Quais são suas referências intelectuais negras?

Essa pergunta é um termômetro do impacto revolucionário de nosso trabalho. Geralmente, quando somos entrevistadas nos perguntam sobre o racismo e a invisibilidade negra na Universidade. Nunca nos perguntam “Quem você lê?”. Essa pergunta sinaliza uma novo padrão de pensar a escrita de mulheres negras. Eu tenho muitas referências. Uma delas é minha avó, uma mulher semianalfabeta que me ensinou a ler e escrever com um caderno de caligrafia e me fazia ir à escola quando eu não queria. Conceição Evaristo é uma referência fundamental. Assim como o professor Flávio Gomes, historiador negro, estudioso dos quilombos. Ele foi o primeiro professor negro que eu tive na Universidade. Eu dialogo muito com referências que viabilizam nosso conhecimento pela oralidade ou pela música, como Iasmin Turbininha (DJ funkeira), o DJ Rennan da Penha e MC Carol. Meu trabalho tem uma pegada de curadoria do pensamento dentro que não se restringe ao acadêmico. O intelectual nem sempre é um homem branco de meia-idade posando na frente de uma estante de jacarandá. O intelectual também dança 150 BPM, faz quadradinho, pega onda, lê no smartphone no ônibus sacolejando.

Como a senhora, uma intelectual negra, se relaciona com o pensamento canônico, que é masculino, branco e colonial?

Simone de Beauvoir foi uma autora fundamental em minha formação feminista. Ela dialoga com a historiadora negra Maria Beatriz Nascimento. Em minhas aulas, dou um capítulo de Simone de Beauvoir e um capítulo de Maria Beatriz Nascimento para ver o que vai dar. Muita gente não quer ler Gilberto Freyre em protesto. Mas tem de ler. E tomar cuidado, porque ele é muito sedutor. É fundamental acessar a maneira como o pensamento social brasileiro é construído para apresentar outras formas desse pensamento. Nosso confronto passa pelo estudo desses autores fundamentais. Podemos discutir o racismo, a invisibilidade e o silenciamento da população negra no pensamento de todos eles, mas, para isso, precisamos ler. A boa batalha é o confronto de ideias.

Recentemente, assistimos a um movimento de resgate da negritude de Machado de Assis. Qual a importância desse movimento?

Existem diferentes possibilidades de ser negro no Brasil, Não é só “Eu, mulher negra, resisto”. A história do Machado mostra que essa não é a única possibilidade e, muitas vezes, não é a mais estratégica. Esse resgate das raízes negras de Machado evidencia um diálogo cada vez mais necessário entre a academia e o movimento social. Precisamos romper com essa ideia de que a academia é o único lugar que legitima saber.

 

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