Homicídios de negras crescem enquanto os de brancas caem

Mapa da Violência aponta alta de 54% nas mortes de pardas e pretas; as de brancas reduziram 9,8%

Por JOANA SUAREZ, do O Tempo 

Luiz Tito | Ag. A TARDE

Quando se fala em violência contra a mulher, a cor da pele faz a diferença. Nos últimos anos, os homicídios de negras no Brasil cresceram 54,2%, enquanto os de brancas, caíram 9,8%. Esses números estão no Mapa da Violência de 2015 e são os mais atuais que evidenciam uma realidade de opressão sobre a mulher negra, muito ligada a uma cultura antiga de hipersexualização e exploração. Não por acaso, movimentos sociais e militantes da causa comemoraram o fato de a Globeleza – símbolo do Carnaval da TV Globo – ter aparecido vestida, neste ano, na vinheta da festa, após anos seminua, e dividindo a tela com outros personagens carnavalescos que representam a diversidade do país.

. Para Larissa Borges, o problema está no pensamento histórico racista e patriarcal

Por trás do crescimento dos assassinatos de mulheres negras está um pensamento histórico racista e patriarcal, como afirma a subsecretária de Políticas para as Mulheres, da Secretaria de Estado de Direitos Humanos de Minas Gerais, Larissa Borges. “Os homens tratam a mulher branca com mais respeito, com mais gentileza. Repare quando for a um ponto de ônibus. Se uma loira der sinal, o motorista vai parar exatamente onde ela estiver. Se for uma negra, ela terá que correr atrás do ônibus”, exemplificou Larissa, que é negra.

Há pouco mais de dez anos, ela, a mãe e as irmãs sofriam violência por parte do pai em casa. Depois de romper o ciclo de agressões, Larissa se envolveu com a luta e chegou à subsecretaria. Mas ela diz que é uma “exceção que comprova a regra”, pois a maioria de suas companheiras de cor trabalha no setor de serviços gerais.

“A mulher negra ocupa um lugar social de desvalorização e desumanidade, são poucas as que alcançam um espaço de poder. Tinha um ditado popular que dizia: ‘Branca é para casar, mulata é para fornicar, e negra é para trabalhar’”, citou.

Em Minas Gerais, a alta de homicídios entre negras em dez anos foi de 37,7%, enquanto as mortes de mulheres brancas caíram 5,3%. No Estado, as negras representavam, em 2015, 61% das vítimas, conforme dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MG).

Fatores. Raça, gênero, classe social e orientação sexual são especificidades que tornam as pessoas mais vulneráveis às diversas violências. “Se for uma mulher negra, pobre e homossexual, sofrerá ainda mais”, avalia a assessora parlamentar Daniela Tiffany, 36, que diz contar nos dedos quantas negras como ela estão em cargos de assessoria na Assembleia Legislativa de Minas. “Somos vistas como estranhas. É muito dolorido, porque a grande maioria é faxineira, sem demérito nenhum, mas ocupam espaços de silenciamento”, disse.

Por isso, o feminismo do tipo que reivindica o direito da mulher de trabalhar fora, por não querer ser mais dona de casa, não as representa, dizem as mulheres negras. Elas já trabalham há séculos no ambiente doméstico, explicam elas, e nunca ocuparam o espaço de patroa do lar. Ao mesmo tempo, homens negros, que lutam lado a lado contra o racismo, continuam sendo machistas, ressaltam.

Daniela fala da solidão da mulher negra no trabalho e nas relações amorosas. “Muitos homens negros, quando estão numa situação de ascensão social, escolhem as brancas. A negra também não pode ter uma relação homossexual, tem que gostar de homem, porque há uma hipersexualização da mulher negra, que é tida como fogosa e exclusivamente para o sexo”, reitera.

Diferenças

Olhar. A presença de uma negra na subsecretaria aumentou a preocupação da pasta com a questão da raça. Hoje, cartazes e vídeos usam mulheres negras e brancas, e dados são divulgados de forma diferenciada.

Negras unem forças para enfrentar preconceito

Para formar uma rede de enfrentamento da violência, as mulheres negras demandam espaços de fortalecimento e recuperação das origens. “Nosso esforço é para que as leis e as políticas públicas sejam ajustadas para as várias mulheres, pensando a partir de cada perspectiva. Tem o feminismo das negras e das lésbicas, tem as jovens e as idosas”, defende Larissa Borges, subsecretária estadual de Políticas para as Mulheres. Ela diz que busca tratar as coisas de maneiras diferentes para construir a igualdade.
Larissa, que gosta de usar exemplos para esclarecer situações, lembra-se de uma charge sobre equidade: “Tem um jogo de futebol e um muro, e atrás tem três pessoas, uma alta, uma média e uma baixa; aí colocaram três banquinhos de tamanhos diferentes, e todas conseguiram ver o jogo”. (JS)

“Sororidade”

Opressão vem também de mulheres

Nem entre as mulheres, em que se fala em sororidade – união feminina –, as negras estão livres de serem oprimidas. “Se você tem uma empregada doméstica negra, explora a força de trabalho, se nega a pagar os direitos, é uma opressão. O feminismo negro contesta a sororidade, mas acredita em uma rede de solidariedade”, destaca Daniela Tiffany.

Na página do Facebook Eu Empregada Doméstica, mulheres negras relatam situações de violência cometidas por ex-patroas. “Isso tem a ver com a compreensão de que uma diferença precisa gerar uma desigualdade”, resume Larissa Borges. Muitas negras conseguiram superar o preconceito, denunciar esses abusos e se empoderar com a hashtag PretaRara. A fanpage tem intenção de lançar um livro com os depoimentos.

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