Inação diante do linchamento público de Moïse remete à escravidão no Brasil

“O linchamento tem uma característica que é o compartilhamento social mais abrangente: tem as pessoas que matam e as pessoas que assistem, que estão no entorno. Esse é um elemento muito importante e pode ser conectado com a experiência da escravidão no sentido desse algo público, desse corpo negro sendo exposto publicamente, violentado, a cena pública como a paisagem de violência sistemática”, explica a socióloga Flavia Mateus Rios, professora da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do Núcleo Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

“Esse linchamento público é a dimensão do racismo estrutural do país, herança do colonialismo, de um pelourinho vivo, de uma consistência permanente de violência e violações contra corpos negros.”

Ao longo da história, o Estado brasileiro tentou se eximir da reparação necessária à nossa população negra. Negou e nega as consequências nefastas do período escravocrata sem garantir dignidade e direitos à população negra e promove até hoje políticas que de alguma forma retomam a elementos da escravidão e a sua violência. O Brasil promoveu uma falsa abolição, incentivou o embranquecimento da população com políticas de miscigenação racial (1888-1920), criou o mito da democracia racial com a noção de que o Brasil é um país cordial e amigável e até hoje normaliza a violência policial, embasada numa “guerra às drogas”, que mata pessoas negras.

Essa manutenção oficial e deliberada das desigualdades raciais é racismo.

No livro “O massacre dos libertos” (Editora Perspectiva), obra mais recente do sociólogo Matheus Gato, professor da Unicamp e pesquisador do Núcleo Afro do Cebrap, é possível compreender como se deu a invenção simbólica de uma “fraternidade racial” sustentada na ideia da Abolição, mas que na realidade difundia a esperança de liberdade sem, contudo, oferecer meios básicos de sobrevivência. Essa condição obrigava os libertos e ex-escravos a se submeterem aos brancos.

Matheus fez uma pesquisa rigorosa sobre o massacre de 17 de novembro de 1889, a maneira como os fatos foram contados e os seus simbolismos. Na ocasião, em São Luiz (MA), o exército avançou sobre um protesto negro e matou dezenas de pessoas, em um evento que articulou a abolição da escravatura e a proclamação da República. “O Massacre de 17 de Novembro é um acontecimento-chave para entender o estabelecimento de um contexto de clivagem racial de direitos que se consolida no pós-abolição. Trata-se de um marco na formação de uma cidadania negra no Brasil; não por constituir um fato historicamente extraordinário, como foi considerado por vários dos seus cronistas, mas porque dá a ver aquelas práticas, sentimentos, atitudes e valores que fizeram da raça uma fronteira econômica, política e imaginária entre grupos sociais na formação do Brasil moderno”, explica, em um trecho do livro.

A xenofobia associada ao racismo contra imigrantes e refugiados africanos e latinoamericanos (como os haitianos) tem origem nessa formação do Brasil, o país que teve a mais longa e numerosa escravidão do mundo. São pessoas ainda invisíveis. Tão invisíveis a ponto de um jovem negro congolês ser espancado na calçada e ninguém tomar atitude para cessar a violência.

Moïse chegou ao Brasil aos 11 anos em busca da esperança de uma vida livre e digna. Como a gente explica para as crianças a barbárie que é a sua morte? Como falar com as crianças negras sobre esse menino, que se tornou um jovem trabalhador e foi linchado até a morte e sobre os riscos que elas correm por serem negras no Brasil? É dolorido demais. Mas não pode ser uma responsabilidade solitária das famílias negras. Precisamos falar e cobrar coletivamente as instâncias da Justiça, exigir políticas de igualdade racial e reparação e o acesso a direitos.

“Ai, Brasil”, lamentou, chorando, um parente de Moïse em protesto com outros congoleses. “Ele trabalhava”, disse. O trabalho e a liberdade são valores muito importantes ao povo congolês. Patrice Lumumba, um importante político do Congo, líder panafricanista que lutou pela libertação do país, disse: “mostraremos ao mundo o que pode fazer o homem negro quando trabalha em liberdade, e faremos do Congo o centro de iluminação de toda a África”. Ele foi assassinado em 1961, depois de um golpe, pelos governos da Bélgica e dos Estados Unidos. A família de Moïse fugiu dos conflitos que ainda envolveu o país.

A violência racial não pode ser parte da nossa paisagem. O compromisso é de todos nós. Ser antirracista é assumir essa responsabilidade em conjunto. Movimentos negros brasileiros planejam para o próximo sábado (5) manifestações pelo país.

Leia também:

‘Mataram aqui como matam em meu país’, diz mãe do congolês Moïse Kabamgabe

Embaixada do Congo denuncia assassinatos de congoleses no Brasil e cobra Itamaraty

Justiça decreta prisão de três homens pela morte do congolês Moïse no Rio

+ sobre o tema

Contra a Brutalidade Policial

Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto Associação...

‘Descendentes precisam saber que história da África é tão bonita quanto a da Grécia’

Principal africanólogo brasileiro, diplomata Alberto da Costa e Silva...

Filósofo russo já morto é citado como suspeito em inquérito no Rio de Janeiro

Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, Mikhail Bakunin,...

Nos 20 anos da Chacina da Candelária, onde está Amarildo?

"Olha quem morre,Então veja você quem mata,Recebe o mérito,...

para lembrar

Policial que atirou em jovens caídos no chão é preso em São Paulo

A Polícia Militar de São Paulo informou nesta quarta-feira...

Giz para todas as cores de pele

Pintar pessoas durante a infância não é fácil. Faltam...

Abordagem Conceitual das Noções de Raça, Racismo, Identidade e Etnia

Por Kabengele Munanga Etmologicamente, o conceito de raça veio do...
spot_imgspot_img

Futuro da gestão escolar

A educação pública precisa de muitos parceiros para funcionar. É dever do Estado e da família, com colaboração da sociedade, promover a educação de todas as...

Educação para além dos muros da escola

Você pode fornecer escolas de qualidade para os mais pobres e, mesmo assim, talvez não veja a mudança na realidade do país que se...

Criança não é mãe

Não há como escrever isto de forma branda: nesta quarta-feira (12), a Câmara dos Deputados considerou urgente discutir se a lei deve obrigar crianças vítimas de estupro à...
-+=