segunda-feira, agosto 8, 2022
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Inveja do quê, meu “fi”? Sobre as coisas que nos atribuem

Matheus foi fazer uma entrega de comida em um condomínio classe média em Valinhos, interior de São Paulo, antro da ostentação da descendência italiana. Tem condomínios fechados que são como casas populares, todas iguais e da mesma cor, construídas com material de baixa qualidade, superfaturado,  e que custa 1 milhão de reais, como um que visitei em Campinas, perto do Shopping Center Dom Pedro. Mas quando cercado e altamente vigiado, com porteiro e zelador,  com  áreas separadas para domésticas e babás, vira chique para os padrões da classe média brasileira cafona e retrógrada.  Ali pertinho de Valinhos, na cidade de Jundiai, também tem um, ao lado do Jundiai Shopping , que tem até praça de empregada. Ué,  a empregada passa o dia inteiro dentro da mesma casa com a patroa e na hora de usar a pracinha, tem que ser separado? Quanto mal gosto! Quanta falta de noção! Mas aí viajam para a Europa e acham lindo andar de trem junto com o povo europeu. Afinal, povo bom é povo dos países ricos. 

O cidadão, e não quero ofendê-lo com isso, todo desengonçado, com graves problemas nos testículos,  vira  e diz ao rapaz  que entregava sua refeição : “você- tem inveja disso aqui, das famílias… disso aqui (indicando a cor da pele)”.  O cara é o sósia do personagem James Sulivan, do filme Universidade dos Monstros, e ostentando branquitude! O pai o defendeu dizendo que ele é doente, sofre de esquizofrenia, mas chama a atenção que ele não está fora da realidade, em uma realidade paralela ou em um mundo de fantasia, ele expressa justamente o que grande parte dos brancos do Brasil pensa e acredita. Eu lhe daria um laudo de sanidade mental, ao invés de doente, por saber incorporar muito bem o racismo estrutural e usá-lo apenas com trabalhadores, como os próprios vizinhos confessaram. 

Mas voltamos à questão da “inveja”. Não é a primeira vez que nos atribuem esse sentimento e não será a última. E como dizia Toni Morrison : “as definições pertencem aos definidores; não aos definidos”. O cara, como não foi bajulado, como não foi exaltado, como não houve cabeça baixa da parte de Matheus, “soltou os cachorros”, como dizem no meu sertão mineiro. Então ele se antecipou e acusou o trabalhador, que se manteve digno, com aquele olhar de quem sabe seu valor e olha para o outro, que se acha invejado, se “descabelando” de desespero porque não teve palanque para ele, não teve tapete vermelho e  é então que ele invoca inveja. Inveja do quê, meu fi?

Alguns anos atrás eu lia o conto de Clarice Lispector, “Felicidade Clandestina” e um trecho me chamou a atenção, pois assim como a personagem que ela descreve, também tenho cabelos crespos e livros: “Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de história gostaria de ter: um pai dono de livraria. ” 

Essa menina, descrita desse modo por Lispector possuía algo que era ela, a narradora, invejava, ou seja, os livros e a livraria do seu pai. E essa menina sequer dava livros de presente para as colegas. E mais à frente, a narradora continua : “Mas que talento  tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança; chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres…”

Ai, minha santa paciência! Olha como a narradora do conto atribui inveja à menina que ela mesma invejava porque tinha um pai dono de livraria e chupava suas balas escandalosamente? E alguém não pode ser feliz de cabelos excessivamente crespos, Clarice? E uma menina cercada de livros invejaria os “cabelos livres” de uma menina que a inveja? E no decorrer do conto, Lispector relata o sadismo da menina ao fazer com que aquela que amava livros fosse até sua casa, todos os dias, com a promessa de que receberia um livro em empréstimo, mas a garota não a dava, adiando tudo para o dia seguinte. Foi então que a mãe “horrorizada da filha que tinha (…) espiava em silêncio a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife.” E se a menina fazia isso não porque invejava os “cabelos livres” e a colega loura, mas porque essa era chata mesmo?

Atribuir inveja a alguém pela cor da pele, cabelo, branquitude, é tão ridículo. Eles e elas precisam sustentar essa imagem de que nós os invejamos para se sentirem superiores. É como se olhassem no espelho, que somos nós, buscando confirmação, e se confirmamos, se tranquilizam, mas quando lhes negamos, dão chilique e tentam nos enfiar goela abaixo a tal da inveja que nem nossa é.

Frantz Fanon dizia que é no corpo que se atinge o negro. Eu ando vendo que é no corpo que se atinge a branquitude. Até pouco tempo atrás, se nos chamassem de “cabelo ruim” ou de “bombril”, a gente corria pra alisar. Hoje, quanto mais gritam, mais volume colocamos, mais negritude liberamos. E a raiva, o ódio que sentem por nós, é proporcional aos palanques que lhes desmontamos. A inveja que nos atribuem é nada mais, nada menos que o desejo de nos ver invejosos. Não tem mais babação de ovo em cabelo liso, olhos e pele clara. E espero que não tenha mesmo.

E termino com uma situação bizarra que me aconteceu aqui na França. Eu tinha uma amiga brasileira que frequentava minha casa e comia do meu pão de queijo, e para uma mineira, dividir o pão de queijo é algo muito íntimo. Essa moça, muito bem intencionada, antirracista, anti-Bolsonaro, é branca dos olhos verdes e todos que a conhecem enfatizam a beleza dos seus olhos e sua elegância. Eu nunca toquei no assunto, não por maldade, mas por que ela ouve a mesma coisa a vida inteira, então porque eu preciso continuar a alimentar isso? Problema de auto-estima ela não tem, pelo contrário, ela agia de modo que a nossa relação girasse em torno dela, do tempo dela, dos dramas dela. Assim, percebendo que eu não alimentava seu narcisismo branco, se virou na minha cozinha e disse : “todo mundo fala que eu deveria valorizar mais meus olhos e tirar os óculos. Você reparou nos meus olhos? Olha aqui!” E tirou os óculos, arregalou os olhos e me fixou esperando adoração. Como não lhe dei, apenas respondi : “eu ja vi seus olhos, fulana”. Ela colocou novamente os óculos, meio sem graça. Gente, a branquitude precisa parar com isso. Está feio.  Bateu o desespero nela. E nós daqui do nosso canto, só observando e rindo dos atributos que ostentam enquanto nos  chamam de invejosos (as).  Inveja do quê, meu fi?

Arquivo Pessoal

Fabiane Albuquerque, é sociologa e pesquisadora pela UNICAMP

 

 

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