Realizado na capital paulista, o IV Encontro Internacional da Coalizão Negra por Direitos reuniu dezenas de ativistas para discutir sobre democracia, eleições e representação política negra. O evento teve início no dia 29 de julho com uma ação pública: o relançamento do Quilombo dos Parlamentos. Já nos dias 30 e 31 foram realizadas plenárias com temáticas variadas e a presença de representantes da organização de diferentes regiões do Brasil.
“Discutimos como avançar na estratégia em torno da participação do movimento negro nas instâncias de decisão e de tomada de poder. Queremos trabalhar o futuro dessa participação negra, precisamos construir lideranças e figuras públicas que possam disputar outros patamares”, afirmou Monica Oliveira, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco.
“Temos trabalhado também o tema da questão climática, especialmente a justiça ambiental, racismo ambiental e adaptação antirracista, mantendo o fio condutor da atuação da Coalizão, que é incorporar a perspectiva racial em todas as áreas. Porque se o racismo afeta a população negra em todas as áreas da sociedade, é preciso enfrentá-lo em todas as áreas”, acrescentou.
No dia 29 de julho, o relançamento do Quilombo nos Parlamentos contou com a presença de candidaturas negras de todo país, bem como com a participação de militantes e intelectuais do movimento negro. “Estamos aqui para expressar solidariedade, compromisso e responsabilidade com o conjunto de candidaturas negras que se apresentaram para nós nesta noite. Estamos aqui para dizer que nós, como princípio organizador da Coalizão, acreditamos piamente que sem combater o racismo não há democracia neste país”, destacou Sueli Carneiro, coordenadora de Memória e Reparação de Geledés.
A primeira plenária do dia 30 de julho tratou da democracia, reparação e Bem Viver como projeto político. Já a segunda abordou experiências internacionais e a cooperação entre movimentos negros. Em seguida, o assunto foi comunicação, narrativas, plataformas digitais e soberania tecnológica. A programação terminou com uma mesa sobre incidência jurídica, ações afirmativas e justiça racial.
Semayat Oliveira, editora do Portal Geledés, foi uma das painelistas na mesa de comunicação e destacou: “a mídia negra sempre esteve associada com o movimento de libertação e de emancipação”. Pontuou ainda a importância da comunicação dentro do movimento negro e seu papel de resguardar a memória de lutas e de atuações dessas organizações.
Já no dia 31 as plenárias foram: representação política negra e desafios democráticos; direito à cidade e racismo climático e violência contra mulheres, juventudes e comunidades negras. Outro assunto tratado foi a Incidência Internacional, com a presença de convidadas do movimento negro a nível internacional, como Lamar Bailey, da UN Anti-Racism Coalition e Itumeleng Mothlabane, da Equal Education. Para representar o Brasil, a mesa contou com Maria José Menezes, em nome da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, e Leticia Leobet, coordenadora-adjunta da área internacional de Geledés.
Durante sua fala, Leticia pontuou que, neste momento, temos os pilares de desenvolvimento sustentável, direitos humanos e segurança na ONU. Portanto, é fundamental ter muita estratégia. “Precisamos interconectar as nossas lutas nessas diferentes agenda para que consigamos ser mais efetivas e, de fato, disputar os rumos da governança global nessa perspectiva de justiça reparatória e de justiça racial”, destacou.
A coordenadora-adjunta também destacou a importância do fortalecimento das articulações entre o Brasil e o continente africano no âmbito das discussões de fóruns internacionais. “Isso será muito necessário, principalmente no que diz respeito à construção de uma governança que seja muito mais pautada pelo Sul Global do que pelo Norte Global”, pontuou.
Após importantes reflexões sobre caminhos para a construção de um projeto político de país baseado na justiça racial, democracia e garantia de direitos, o evento foi finalizado com a apresentação e aprovação da Carta Política 2026–2030. Para Monica Oliveira, do ponto de vista político, o encontro colabora para o amadurecimento da Coalizão. “Processo importante para avançarmos nas nossas estratégias coletivas e darmos lugar às distintas atuações”, ressaltou.