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A Literariedade da Obra de Carolina de Jesus: um reconhecimento necessário

O artigo tem como objetivo constatar se a obra de Carolina Maria de Jesus pode ser reconhecida como Literatura Afro-brasileira e integrar o rol dos autores considerados expoentes no Brasil. A autora amplamente conhecida nos Estados Unidos, na França e outros países, ainda hoje alguns intelectuais sequer a consideram relevante para tornar-se parte do cânone da Literatura Brasileira. Discute-se seu valor literário como uma obra extremamente proeminente que também se configura como documento histórico evidenciando a História dos negros no Brasil. Essa reflexão foi elaborada a partir da análise da Literariedade da obra de Carolina Maria de Jesus.

por Fernanda de Moura Cavalcante via Guest Post para o Portal Geledés

A Literariedade da Obra de Carolina de Jesus: um reconhecimento necessário

Fernanda de Moura Cavalcante

RA00147861

Artigo apresentado como trabalho de conclusão de curso, visando a titulação em licenciatura em História, na PUCSP.

 

Prof. Orientador: Vera Lucia Vieira

 

2º SEMESTRE DE 2017

AGRADECIMENTOS

 

Em primeiro lugar agradeço a professora Vera Lucia Vieira, orientadora deste trabalho, pelo acompanhamento no meu percurso, pela temperança e boas sugestões.

Ao professor Amailton Magno Azevedo pelas sugestões e bibliografia sobre Literatura Negra e Afro-brasileira.

Ao professor Lauro Ávila Pereira pelo apoio inicial na matéria de Orientação do Trabalho de Conclusão de Curso I.

Aos meus amigos pelas palavras de encorajamento e apoio, principalmente à Raul Carlos, que me apresentou as palavras reveladoras de Carolina Maria de Jesus.

À Raphael Paulino Gimenes, pelas horas, pelo companheirismo e pela paciência.

Resumo

O artigo tem como objetivo constatar se a obra de Carolina Maria de Jesus pode ser reconhecida como Literatura Afro-brasileira e integrar o rol dos autores considerados expoentes no Brasil. A autora amplamente conhecida nos Estados Unidos, na França e outros países, ainda hoje alguns intelectuais sequer a consideram relevante para tornar-se parte do cânone da Literatura Brasileira. Discute-se seu valor literário como uma obra extremamente proeminente que também se configura como documento histórico evidenciando a História dos negros no Brasil. Essa reflexão foi elaborada a partir da análise da Literariedade da obra de Carolina Maria de Jesus.

Palavras chaves: Carolina Maria de Jesus, Literariedade, Literatura Afro-brasileira.

 

Abstract

The article aims to verify if the work of Carolina Maria de Jesus can be recognized as Afro-brazilian Literature and integrate the role of authors considered exponents in Brazil. The author is widely known in the United States, France and other countries, but even today some intellectuals do not even consider it relevant to become part of the canon of Brazilian Literature. Its literary value is discussed as an extremely prominent work that is also configured as a historical document evidencing the History of Black People in Brazil. This reflection was elaborated from the analysis of the Literariness of the work of Carolina Maria de Jesus.

Keywords: Carolina Maria de Jesus, Literariness, Afro-brazilian Literature.

A Literariedade da Obra de Carolina de Jesus: um reconhecimento necessário

Introdução

O objetivo desse artigo, fundamentalmente, foi o de constatar, com ajuda de todo o material teórico e metodológico que integrou a pesquisa, se a obra de Carolina pode ser reconhecida como Literatura Afro-brasileira e integrar o rol dos autores considerados expoentes no Brasil.  Essa conceituação se justifica porque, até o momento a academia, e consequentemente o público consumidor, não considera sua obra como expressão literária, portanto, classificando-a como pouco relevante, sequer parte integrante da Literatura, estando, portanto, completamente fora dos cânones. São numerosos os trechos que remetem à literariedade[1]da obra de Carolina, perspectiva já apontada por autores que a discutem no âmbito da recuperação do que tem sido denominado Literatura Negra e Afro-brasileira

Portanto, não será destrinchado esse ou outro texto da produção de Carolina, mas sim adentrar ao debate sobre o reconhecimento dessa produção como obra literária.Toma-se a obra de Carolina como integrante da literatura Afro-Brasileira, como um todo, ao modo resgatado por Bernd (1989). Embora Carolina Maria de Jesus seja amplamente conhecida nos Estados Unidos, na França e outros países, aqui no Brasil, ainda hoje alguns intelectuais a consideram sequer relevante para tornar-se parte do cânone da Literatura Brasileira, de que é um exemplo o professor Ivan Cavalcanti Proençaque numa homenagem prestada à Carolina na Academia Carioca de Letras em abril de 2017, comentou que sua escrita não é literatura. Consideraremos que tanto quem o constrói os cânones literários, como quem os compõe são, em sua maioria, homens brancos europeus. O reconhecimento de tal positividade, automaticamente nos coloca em discussão com tais cânones, no sentido de promover, ou não, determinados textos, perpetuar, ou não, determinados pressupostos burgueses de sociedade.

Carolina, ao declamar a realidade que continuamente era abafada, propondo reflexões profundas e relevantes sobre vida de uma mulher negra e pobre, em meio a superficial falta de qualidade estética em sua escrita, ser capaz de emocionar, ser relevante na contemporaneidade e principalmente, possuir um teor transgressor, fazem dessa mulher ser extremamente relevante. Além do valor literário como uma obra extremamente proeminente, também se configura como documento histórico evidenciando a História dos negros no Brasil. Evidenciar as imperfeições, para ela, era o primeiro passo afim de se ter argumentos para as mudanças ocorrerem.

A irredutibilidade, a inconquistabilidade e a contradição, fazem de Carolina Maria de Jesus uma escritora – além de poetisa, sambista, contista, compositora, dramaturga, mãe, negra e mulher – extremamente ímpar. Com um temperamento forte, Carolina desvirtuava-se dos padrões e recusara a compactuar com quem ousasse contê-la. Nasceu em 1914, numa cidade pequena de Minas Gerais, chamada Sacramento. Teve dois anos de educação primária, na qual pode desenvolver minimamente sua leitura e escrita. Apaixonara-se pelos livros e os manteve por perto, sempre. Migrou durante toda vida, cedendo a movimentação enigmática que ocorreu na cidade de São Paulo desde os anos 40, que atraía despossuídos com promessas de melhores condições. Gerou três filhos, cada um de pais diferentes. Desde 1947 viveu na favela do Canindé e nesse interim, escreveu mais assiduamente que em qualquer outro período de sua vida.

A trajetória de Carolina implica a visão de um lado pouco mostrado da cultura brasileira: a luta quotidiana de uma mulher “de cor”, pobre e desprovida de favores do Estado, de organismos sociais, de instituições e até de amigos (LEVINE, MEIHY, 2015, p. 21).

No período que esteve na extinta favela do Canindé, situado às margens do rio Tietê, sofria preconceito entre os próprios moradores da favela, pelo fato de ser reservada e passar muito tempo sozinha, muitas vezes escrevendo ou com livros nas mãos. Era vista pelos outros moradores do Canindé como uma feiticeira, que decifrava códigos nos quais eles não tinham capacidade. Sobrevivia na favela catando papel e vendendo-os para angariar alguns cruzeiros[2], afim de alimentar minimamente os filhos e a si mesma. Catava folhas de papel e cadernos avulsos, além de livros e coisas que encontrava no lixo, como sapatos, roupas, alimentos, ou seja, tudo o que ela poderia utilizar no seu dia a dia.

A situação de penúria das favelas brasileiras, que emergiram no cenário do país a datar pelo fim da escravidão no final do século XIX, não melhoraram muito desde esse período. As periferias dos grandes centros urbanos, as favelas, no Brasil grande parte situadas no Rio de Janeiro e São Paulo remetem a uma miséria atrelada a disparidade econômica. Voltada, em sua maioria, aos povos negros, as favelas remetem a uma faceta da dominação branca e da desigualdade sistematicamente prezada e resguardada por elites que tornam elementos como a falta de saneamento básico, eletricidade, água potável e outras demandas básicas ao ser humano, parte integrante do que compõe esses assentamentos urbanos. O período que Carolina viveu foi repleto de momentos únicos na história brasileira. Existiu nos entremeios de duas ditaduras: a do Estado Novo, findada em 1945, que gestara anos depois a imposição do regime militar no Brasil, em 1964. Grandes êxodos urbanos e tentativas de tornar o Brasil um pais industrializado, focadas na região sul e sudeste. No desmerecimento da cultura agrícola, modulando as forças do desenvolvimento às cidades.

Como explicitado, Carolina Maria de Jesus em sua trajetória construiu um grande legado que segue desvalorizado. Escreveu vários romances, alguns deles inacabados, contos, peças de teatro, crônicas, memórias, poesias, provérbios. Contrapondo a inviabilidade óbvia que uma mulher negra, pobre, favelada, semianalfabeta, mãe solteira, acabou por compor um acervo de obras literárias de importância indiscutível. Carolina escrevia em papéis catados do lixo. Como sambista e compositora, gravara um álbum em 1961, um ano após o lançamento e seu primeiro livro que obteve um sucesso estrondoso, o “Quarto de Despejo”[3]. O álbum, de mesmo nome que seu best-seller, possuía músicas que ela havia composto[4], a maioria delas sobre sua vida na favela e a fama subsequente. Seu primeiro livro publicado, no qual obteve grande sucesso na época, “Quarto de Despejo” falava sobre seu dia a dia na extinta favela do Canindé, que morara com seus três filhos de 1947 a 1960, às margens do rio Tietê. O título do texto remete a uma metáfora que ela criou:

Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo[5](sic).

Seu diário misturava ficção e relato testemunhal, discorria sobre a penúria, a sujeira, os desentendimentos, também compartilhava seus sonhos e anseios, como o desejo de ter o céu como seu vestido[6]. Escreve trechos sinestésicos no qual ela descreve a fome como um assombro de cor amarela e a agonia diária dos favelados, da cor roxa[7].

Seguindo em ordem cronológica, o próximo livro publicado de Carolina Maria de Jesus, foi “Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada”, reeditado pela Francisco Alves, em 1961. Esse livro seria uma sequência ao “Quarto de Despejo”, escrito no mesmo formato de relatos diários. Expõe sua saída da favela do Canindé, e sua breve ascensão social, do barraco à casa de alvenaria. Houve uma repercussão proporcionalmente menor que seu primeiro livro. Enfatizando, agora, uma fala mais crítica, ela deixou de interessar as instâncias que gostariam de vê-la domada pela polidez burguesa, de modos e de redação. Continuou escrevendo à sua maneira. Outro texto publicado foi o romance “Pedaços da Fome”, compunha-se basicamente de um romance de folhetim, com toda suas características usuais. Personagens rasos e explicitados de maneira maniqueísta, posto que o bem sempre vencia o mal. Com o pequeno lucro que os livros anteriores haviam gerado, Carolina publica por conta própria, visto que foi recusado pelas editoras, um livro intitulado “Provérbios”, em 1969. Composto de frases, provérbios que ela destacara serem de grande valor para chegar ao fim da vida com decência e elegância. O livro encontra-se repleto de clichês, sua vendagem foi ainda menor que o livro anterior. Significava um ato de teimosia esperançosa que acabou por agravar sua condição financeira. Seu momento de celebridade denunciando a favela havia terminado. Após sua morte em 1977, foram publicados mais três livros até agora. “Diário de Bitita”[8], publicado em 1986, na qual Carolina relata sua infância em Minas Gerais. “Antologia Pessoal”, publicado em 1996, num projeto encabeçado pelo historiador José Carlos Sebe Bom Meihy, que organizara esse compilado de poemas escritos por Carolina. Esses textos inéditos até então foram preservados por Vera Eunice de Jesus Lima, filha da autora. O Antologia, era composto de poemas de variados momentos de sua vida, também escritos em cadernos usados achados no lixo. Sua poesia era composta de rimas pobres, de baixa qualidade estilística. Considerando as circunstancias, as limitações socialmente impostas, seu texto foi inédito à época e deve ser observado como um código expressivo próprio de Carolina. A publicação mais recente, “Onde Estaes Felicidade” de 2014, compila dois contos nunca antes divulgados da autora, celebrando também os cem anos de sua morte.

Nesse artigo utilizarei como alicerce os seguintes exemplares da vasta obra de Carolina Maria de Jesus: seu primeiro livro publicado “Quarto de Despejo”. Pretendo visualizar aspectos de vida na favela e principalmente observar aspectos em seu texto que o tornam Literatura. E o livro “Diário de Bitita”, surgido ao final da vida de Carolina, que ao receber a visita de alguns jornalistas franceses, entregam-lhes os manuscritos na esperança de que seriam publicados posteriormente. Primeiramente publicados na França em 1982, apenas em 1986, o livro foi traduzido do francês e publicado no Brasil. Esse texto referência o fechamento do ciclo autobiográfico de Carolina, pois forma uma trilogia, posteriormente constatada, com os textos “Quarto de Despejo” e “Casa de Alvenaria”. Alguns comentam ser o mais importante e melhor escrito livro de sua autoria[9], ao escrever sobre sua infância, Carolina remete diretamente a sua ancestralidade como ser humano de pele preta, remetendo a suas idas e vindas na cidade de Sacramento em Minas Gerais. Esses textos me auxiliarão no percurso do artigo a biografar sua vida e ponderar aspectos que considero relevantes para completude do trabalho.

Outros tipos de materiais, além do texto escrito, foram contemplados nessa pesquisa. O uso da internet, proporcionara novos tipos de fontes para pesquisa como o vídeo, em particular o “Poética da Diáspora”[10], na qual a historiadora Elena Pajaro Peres, discorre sobre sua produção acadêmica, particularmente sobre sua tese de doutorado, utilizada nesse artigo também. O vídeo contava com imagens da época, de Carolina a passeio pelo centro de São Paulo, as imagens são pertencentes a Cinemateca brasileira. Ainda sobre a mesma historiadora, Peres, concede uma entrevista à Rádio Batuta, a rádio de internet do Instituto Moreira Salles[11], trazendo mais informações relevantes sobre Carolina e a cidade de São Paulo nos anos 50 e 60.

Durante a trajetória da pesquisa tive a oportunidade de comparecer em um curso no qual Carolina Maria de Jesus, sua vida e obra, eram o tema central. Curso intitulado de “Ciclo Carolina Maria de Jesus”, se deu no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, no mês de julho deste ano. Nesse interim pude ouvir as histórias e vivencias de quem esteve pessoalmente com Carolina. Juntamente com estudiosos da Literatura, escritoras e escritores negros. No primeiro dia do curso tivemos a fala do jornalista e fotógrafo, Audálio Dantas e da filha de Carolina, Vera Eunice de Jesus Lima. O curso teve a duração de cinco dias, no qual trabalhávamos e discutíamos questões importantes sobre o legado histórico e literário de Carolina Maria de Jesus. Tivemos a presença de Ricardo Ramos Filho[12], conceituando Literatura e literariedade. Dialogando sobre periferia e literatura, esteve Ferréz, autor de literatura marginal. As autoras negras Elisa Lucinda e Conceição Evaristo[13], trouxeram questões importantíssimas no que diz respeito a opressão de classe, gênero e etnia, questões sobre o mercado literário e a relação da contemporaneidade com Carolina. Por fim, a jornalista Adriana Carranca trouxe reflexões sobre o feminismo e Carolina Maria de Jesus. A presença nesse curso me proporcionou reflexões importantes que agora trago em minha trajetória acadêmica e de vida.

A historiadora Elena Pajaro Peres[14]delineia em sua tese o que ela chama de populações moventes, indivíduos que ao migrar trazem consigo perspectivas culturais nas quais afluem para um “conteúdo humano, imaginativo e desejante” (PERES, 2007, p. 64). Efetua o recorte temporal de São Paulo na segunda metade do século XX, convergindo com a existência de Carolina Maria de Jesus. Utiliza sua experiência como exemplo para delinear o processo de urbanização de São Paulo, da marginalização desses migrantes, assim como do advento das favelas. Compõe seu trabalho também com outras fontes literárias, como o escritor João Antonio, o dramaturgo Plínio Marcos e o cineasta Ozualdo Candeias. Peres cria uma perspectiva do estudo da cultura não-canônicos, trazendo uma crítica em relação a memória que os escritos de Carolina carregam. O caráter testemunhal da primeira obra publicada, Quarto de Despejo, é evidente e memorável, entretanto Carolina Maria de Jesus possui uma imensa produção artística de poesias, sambas, contos já publicados e outros ainda não conhecidos. Uma grande quantidade de documentação desta natureza se encontra difundida por universidades dentro e fora do Brasil, assim como no acervo dedicado a ela em Sacramento, Minas Gerais.

Verdadeiramente, Carolina Maria de Jesus denunciou aos ouvidos frágeis das classes dominantes, a realidade crua e sincera dos vencidos ao dar voz a si mesma. Criando protagonistas que desde sempre foram silenciados e fadados ao anonimato. Teve força e perspicácia ao declamar a realidade, frente à indiferença. Enfatizo aqui a profundidade e a extensão de seu trabalho, que vai além dos relatos diários da pobreza referentes a extinta favela do Canindé, nas margens do rio Tietê, onde ela morou no período de 1947 a 1960. Os temas da carência, precariedade material e da sobrevivência na marginalidade ficaram de algum modo arraigados tanto aos olhos do público, quando da academia a partir do momento que ela é citada. Observar seu trabalho de uma perspectiva mais completa, desviando um pouco do que já foi longamente discutido, evidenciando um estudo mais completo sobre sua vida e obra. Pretendo seguir o mesmo viés proposto por Peres ao me referir aos escritos de Carolina, com o intuito de gerar uma amplitude na discussão, buscando em outras obras esses sentidos, outras facetas de sua vida. De acordo com Levine e Meihy[15]Carolina sempre quis escrever “algo sobre suas lembranças da infância e do tempo na roça” e aferem que ao relatar a pobreza e a descriminação social, Carolina “tempera amargura com singeleza e humor seco” (LEVINE, MEIHY, 2015, p. 56). Pretendo evidenciar suas primeiras relações com a escrita, contrapondo a realidade presente em sua cidade de origem, Sacramento, que era repleta de oralidade.

Outro texto que sustenta o artigo é o de Robert M. Levine, um brasilianista norte-americano e José Carlos Sebe Bom Meihy, um historiador brasileiro. Em “Cinderela Negra”, os autores, com ajuda de um grupo de alunos pesquisadores, permeiam a história de Carolina Maria de Jesus através de recursos variados, mesclando códigos como depoimentos jornalísticos, artigos em geral, dados estatísticos. Metodologias da História Oral brasileira e estadunidense, depoimentos colhidos e editados pelos autores, além de testemunhos de quem esteve próximo a ela, como: Vera Eunice de Jesus Lima, Jose Carlos de Jesus, Audálio Dantas, Maria Puerta e Maria Teresinha Godinho[16]. Adentrando uma próxima parte do texto, pretendo questionar a noção de literatura e cânone em Carolina Maria de Jesus, promovo essa discussão utilizando de Zilá Bernd[17]e seu “Introdução a Literatura Negra”. Constatando também um breve estudo comparativo sobre os critérios empregados para considerar um texto como literatura negra ou afro-brasileira, através de Eduardo de Assis Duarte[18]e seu texto “Literatura Afro-Brasileira: Um Conceito em construção”. Unindo essas duas referências: Bernd, que busca conceituar literatura negra, em termos mais amplos, portanto, recorre à autores negros do Caribe para demonstrar as semelhanças e vicissitudes com a literatura negra brasileira. E Eduardo Duarte responde perguntas importantes sobre as especificidades da literatura afro-brasileira, termo mais restrito aos nossos trópicos, ao averiguar cinco pontos distintos que, unidos formam a chamada Literatura Afro-Brasileira.

 

O mundo que Carolina retrata

Carolina Maria de Jesus havia nascido em 1914, data questionável, porém mantida por falta de documentação a antagonize. A convivência diária com alguns personagens da cidade de Sacramento onde nasceu, lhe trouxe o desejo de desenvolver a oralidade antes mesmo de conhecer a leitura. Posto que nessa cidade do interior a maioria era analfabeto.  Seu avô, Benedito José da Silva, parente importantíssimo para Carolina, foi um ex-escravo de ascendência Bantu, e de acordo com a mesma, vindo na última leva de escravos cabindos[19]. Ele representava a figura forte da família que lhe era o grande exemplo de bons modos, ancestralidade e liberdade. Esse personagem notável em sua vida, traçava um paralelo entre as gerações ao contar sobre os horrores e as resistências à escravidão[20]. Nas ruas de Sacramento, o oficial de justiça Manoel Nogueira, um mulato, lia todas as tardes, notícias do jornal “O Estado de São Paulo” para os negros que não sabiam ler e Carolina comparecia para compartilhar das novidades. Notícias essas sobre a Primeira Guerra, a política local e do país, insurreições brasileiras e o cotidiano em geral. Peres comenta que foram durante esses anos que ela desenvolveu seu senso crítico perante o mundo, que se tornaria presente na escrita de suas memórias. Outro ponto importante na formação intelectual e crítica de Carolina foi sua passagem de dois anos no Colégio Allan Kardec[21]. Na qual foi beneficiada por uma residente de Sacramento, Dona Maria Leite, que subsidiava o estudo de algumas crianças negras e pobres na cidade. Com esforço Carolina aprendeu a ler e relata no “Diário de Bitita” que uma tarde ao sair da escola, leu o primeiro letreiro de um comércio local e sentiu que poderia ter mais possibilidades em sua vida. “A partir daí passou a compreender o código que antes era dominado apenas pelo senhor Manuel, o leitor oficial da comunidade”[22]. Ao chegar em casa se deparara com um lugar sem livros, uma casa de tradição oral. O primeiro romance que leu, emprestado da vizinha, foi “A Escrava Isaura” de Bernardo Guimarães, e assim, não mais parou de ler.

A mãe de Carolina trabalhava como lavadeira em Sacramento e tempos depois foi convidada por um homem a trabalhar na roça, nas imediações de Uberaba[23]. Numa fazenda distante da cidade e consequentemente da escola, fazendo com que sua jornada no colégio terminasse, o que a entristeceu imensamente. Com o tempo passou aproveitar melhor a experiência, porém ela se mudou com a mãe mais algumas vezes, de cidade em cidade, lhes dando a possiblidade de trabalharem como empregadas domésticas. Não existem muitas informações sobre essa parte da trajetória de Carolina, além das perdas que adviriam por toda sua vida:

As perdas se sucederam no transcorrer de toda vida de Carolina, tendo que se mudar constantemente, de Sacramento para a cidade paulista de Franca, de Franca para Sacramento, da cidade para o campo e novamente para a cidade, de casa em casa. Obrigada a partir com o pouco que podia carregar, sofreu inúmeras vezes          a experiência de deslocamento. Deixando para trás livros, pés de jiló, casa, roupas, criações, dinheiro por receber, utensílios, pessoas, amizades (PERES, 2007, p.87).

Sabe-se que após a morte de sua mãe em 1937, Carolina trabalhara de lavradora, empregada doméstica, cozinheira até decidir migrar para São Paulo, em 1947[24]. Justifica-se, pois, São Paulo “era por excelência, a cidade dos imigrantes e migrantes, o núcleo irradiador de oportunidades que vibrava na escala do desejo por uma existência melhor” (PERES, 2007, p. 21). Seu avô tão admirado havia morrido, os parentes que restavam foram deixados em Minas ou havia perdido o contato, deste modo, se encontrava sozinha na cidade grande. Portanto, de acordo com Peres,

A necessidade de escrever sentida por Carolina ao chegar a São Paulo, no início da década de 40, estava relacionada a essa percepção. A oralidade tão viva em seu grupo de origem – apesar de fragmentada pela experiência anterior da escravidão e das sucessivas inclusões decorrentes do processo migratório – não era mais funcional nesse novo entorno e não trazia mais em si a memória da coletividade, uma vez que suas relações familiares e de vizinhança estavam rompidas. (PERES, 2007, p.190)

Trabalhou em diversos empregos subalternos, dormira em outros tantos ambientes insalubres. Como mulher independente que fora, cativava e era cativada por homens e tinha a simpatia em namorar demasiadamente. Por conta disso se envolvia com homens brancos e consequentemente era malquista e perdia seu espaço nas casas como empregada doméstica. Esforçou-se para mudar de vida na cidade que lhe trazia esperanças, buscou outras ocupações, como faxineira, auxiliar de enfermagem, vendedora e até mesmo artista de circo. Um ponto alto nesse período ocorreu quando Carolina trabalhou na casa de um médico que se tornou renomado no país, o cardiologista Euricledes Zerbini, sendo o primeiro a transplantar um coração no Brasil. Carolina conta que foi permitida a usar a biblioteca pessoal do médico, assim leu diversos filósofos e expandiu seu conhecimento. De acordo com Levine e Meihy[25], em 1948 um marinheiro português a engravidou para em seguida dispensá-la, fazendo com que fosse mais uma vez demitida da casa na qual trabalhava. Grávida de seu primeiro filho, João, viu-se sem saída ao realizar que não seria contratada naquelas condições em lugar algum, portanto, instalou-se na favela do Canindé.

Rolnik[26]ao trabalhar com espaços urbanos e territórios negros nas principais metrópoles brasileiras, conta que desde a escravidão o espaço dedicado à população negra é um espaço a parte. No período da escravidão, o confinamento das senzalas; na contemporaneidade, a periferia e as favelas. Discute a presença de territórios negros nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, desde o final do século XIX, ao fim da escravidão. Conceitua território negro a partir das fronteiras pré-estabelecidas geograficamente e como essas divisões se estendem ao âmbito socioeconômico, mostrando como os indivíduos inseridos nesses ambientes compartilham especificidades culturais e ancestrais. Pondera que “é perfeitamente plausível falar-se em segregação racial, discriminação e dominação branca nessas sociedades” (ROLNIK, 2007, p. 75). Conclui que esses territórios são marcados pelo estigma e pela marginalização:

A história da comunidade negra é marcada pela estigmatização de seus territórios na cidade: se, no mundo escravocrata, devir negro era sinônimo de subumanidade e barbárie, na República do trabalho livre, negro virou marca de marginalidade. O estigma foi formulado a partir de um discurso etnocêntrico e de uma prática repressiva; do olhar vigilante do senhor na senzala ao pânico do sanitarista em visita ao cortiço; do registro esquadrinhador do planejador urbano à violência das viaturas policiais nas vilas e favelas (ROLNIK, 2007, p. 90).

A autora perpassa no texto também os anos 40, 50 e 60, período no qual fez parte da favela nossa personagem negra, o objeto da pesquisa, Carolina. A São Paulo que a abrigou já possuía nos anos 40, cerca de 50 mil pessoas marginalizadas em favelas. Constituída basicamente de migrantes, nordestinos e mineiros, compunha-se o que foi a extinta favela do Canindé, próxima ao Rio Tietê, onde Carolina vivia do lixo. Adquiria seu sustento e o de seu filho, João, que logo teria mais um irmão, José Carlos e uma irmã Vera Eunice, os três de pais diferentes, todos brancos. Catando restos de comida, vestimentas, vendendo papéis, acumulando cadernos e folhas que encontrava no caminho, construía uma reflexão, sobre si mesma e de tudo que a cercava. A partir do real e do imaginário, apresentara a vida diária da favela, revelando-nos seus sentimentos e sonhos, desenvolvendo, assim, nesse período um “aprendizado vivencial que ia traduzindo em letras, registradas em folhas achadas nas ruas, aqui e ali” (LEVINE, MEIHY, 2015, p. 19), relatados em seu livro mais conhecido e não suficientemente lido “Quarto de Despejo”, publicado em 1960.

O ineditismo de sua escrita tornou-a um fenômeno, a ponto de conseguir finalmente mudar de vida e transladar-se para a casa de alvenaria tão almejada[27]. “Primeiro foi para Osasco e depois para uma casa própria em Santana”[28]. Entretanto, continuava a ser rebaixada a mulher preta subalterna e subserviente, majoritariamente pela imprensa de ampla circulação que respondia ás classes dominantes. O contrassenso de sua fama segue no sentido de que “Carolina, neste espaço, negra, era o contraste perfeito de uma sociedade, branca, que queria exibir-se moderna, progressista, organizada” (LEVINE, MEIHY, 2015, p. 21). Sendo assim, a presença da favela e de uma mulher favelada com alguma voz, perturbava a branquitude polida das regiões centrais, ao confrontar a marginalidade e o descaso político. Contudo, foi uma personagem contraditória, se vangloriava por não depender economicamente de homem algum, ao não compactuar com a instituição burguesa do casamento, ao mesmo tempo que se lamentava da falta de assistência do Estado e, lisonjeara diversas vezes algumas figuras políticas da época. Políticos tais que iniciam uma movimentação de “desenvolvimentismo e progresso” ao passo que marginalizaram e confinaram a população negra ás periferias. Peres pondera:

O Brasil, nas duas décadas que se seguiram ao término da Segunda Guerra Mundial, especialmente em meados dos anos 50, procurou penetrar na senda do chamado desenvolvimento como forma de conter as tensões. Com os investimentos norte-americanos, o país parecia ter encontrado seu rumo e aceitado sua suposta vocação para o crescimento (PERES, 2007, p.20).

Em São Paulo, o vislumbre do progresso era latente em todos os âmbitos, desde a abertura de largas avenidas, da importação do capital e a absorvência da cultura americana. Ao contrário dos migrantes que não possuíam espaço para tal conjuntura. O desenvolvimento urbano, econômico e cultural se inseria nos centros na mesma progressão e veemência na qual os migrantes eram afastados para a periferia. Gerando uma falta de pertencimento por parte dos residentes que não compunham uma burguesia que ditava as regras e modificava as relações, americanizava-se e supervalorizava o terreno urbano. Rolnik salienta que: “Essa reestruturação vinha adaptar a cidade senhorial-escravista aos padrões da cidade capitalista, onde terra é mercadoria e o poder é medido por acumulação de riqueza” (ROLNIK, 2007, p. 80). A autora conceitua esse processo de segregação urbana como zoneamento social, ou seja, a população negra que vivia nos cortiços dentro de moradias precárias, insalubres e abarrotadas, foram despejadas para dar espaço à maiores empreendimentos, mais rentáveis, atraindo, assim, pessoas de maior poder aquisitivo.

Peres enfatiza que essa segregação urbana era extremamente proveitosa e interessava a muitos. A burguesia que visava o isolamento e asseio dentro e fora de suas casas, o especulador imobiliário que se interessava em ver novos bairros nascendo e as regiões centrais higienizadas de uma população preta e pobre. Em contrapartida, as favelas ao se expandirem, desvalorizavam o terreno e objetavam o projeto de progresso iminente. Exemplifica-se a favela onde viveu Carolina, “a favela do Canindé, existente desde 1945, foi derrubada em doze meses e seus moradores foram distribuídos por 75 bairros da grande São Paulo” (PERES, 2007, p. 38). A repercussão de sua denúncia no “Quarto de Despejo” causou uma grande agitação para que o esse mal fosse destruído, antes que se instalasse efetivamente. Diferentemente do Rio de Janeiro, as favelas em São Paulo, na mesma época, ainda estavam se expandindo. No ano seguinte que Carolina deixou a favela, em 1961, a mesma foi desapropriada e extinta pela Divisão de Serviço Social da Prefeitura de São Paulo, levada a cabo pelo prefeito Prestes Maia.

Levine e Meihy discutem o papel de Carolina como a negra que representou a favela em espaços que ela jamais chegaria sozinha. Carolina sempre buscou ter seus escritos publicados. Existiram tentativas anteriores, publicara alguns pequenos poemas no jornal, porém nada com a mesma expressão que a publicação de seu primeiro livro. Contara com a ajuda de Audálio Dantas, reputado jornalista e fotógrafo, na época, da revista Cruzeiro que a auxiliou a publicar seu primeiro livro. Após um causo no playgroundrecém construído, por conta das eleições do ano de 1958, adultos se divertiam com os brinquedos construídos para as crianças. Carolina bradava que escreveria sobre todos eles em seu livro, ao passo que Dantas ouvindo o bafafá, se intrigou com a favelada que sabia escrever. Carolina primeiro mostrou seus romances, poemas e contos, porém Audálio sentiu que seu diário sobre a favela era contundente e tinha a força necessária para ser publicado num formato de livro. Inicialmente, publicara trechos do diário na revista Cruzeiro, para em seguida conseguir dar início a publicação na Editora Francisco Alves.

Obteve também ajuda da imprensa que, ao mesmo tempo que concedia visibilidade, a rechaçava de todas as maneiras que conseguia, além dos clichês que perpetuava a seu respeito. Usufruía desse “espécime novo, produto da combinação do protesto contra a pobreza urbana com os meios promovidos por uma mídia deslumbrada” (LEVINE, MEIHY, 2015, p. 33), ao contar relatos exacerbados sobre a ex-favelada, que ao se tornar ‘rica’, pena para se encaixar nos pressupostos burgueses de comportamento. Peres salienta que:

Para a elite intelectual paulistana, que nunca a aceitou plenamente, ela era “estranha”, qualificativo sempre usado para designá-la, porque ousou penetrar no código vedado aos mais pobres (PERES, 2007, p. 201).

Observando de um aspecto político a figura e os escritos de Carolina Maria de Jesus, principalmente seu primeiro livro publicado e o sucesso abrupto subsequente, conclui-se que não geravam o apoio da esquerda nem tampouco da direita:

Para os primeiros ela não parecia suficientemente estridente para provar as teses da luta de classes ou da vítima consciente da marginalização inconformada. Até, pelo contrário, sob alguns pontos de vista Carolina mostrava-se conservadora e mesmo racista, sobretudo isolada. Para a direita, seus testemunhos incomodavam o pressuposto da pobreza domesticada, útil sem dúvida para os discursos disciplinadores, mas, ao mesmo tempo, ela elogiava alguns comandantes políticos e por isso servia de massa de manobra. (LEVINE, MEIHY, 2015, p. 22)

A crítica empregada pelos autores de “Cinderela negra” elucida este aspecto comumente ignorado por quem escreve sobre Carolina Maria de Jesus. A luta pela sobrevivência e para prover aos filhos, sempre foi seu objetivo principal. Sua escrita não possuía uma consciência de classe do marginal revoltado, como uma voz que reverberava em prol dos companheiros de adversidade. Por vezes culpa o infortúnio de residir na favela, ao acaso ou destino. Alude a sua condição de preta e mulher, entretanto, não questiona o racismo sofrido, e por vezes envereda pelo mesmo caminho ao comentar sobre os nortistas[29]. Além disso, não questiona seu abandono e preterimento por parte dos homens brancos que a deixaram filhos. Mas principalmente, o cerne da crítica é demonstrar que não houve movimentação política como consequência dos seus relatos, aparenta-se que discussões foram irrompidas, porém não encorajara nenhuma revolta contra o sistema[30]. Por conta disso fica evidente como seus escritos foram deixados de lado pela academia e consequentemente pelo grande público. Levine e Meihy eloquentemente concluem,

Carolina foi, pode-se dizer, uma guerreira valente contra as tropas da herança racista, anti-interiorana, preconceituosa em relação às mulheres e, sobretudo uma pessoa afrontadora da marginalidade e da negligência política. Rebelava-se sozinha e por isso jamais chegou a ser revolucionária ou heroína permanente[31]

O desconhecimento de Carolina das razões estruturais do racismo, do sexismo e da pobreza na qual sofria, trouxe algum tipo de inviabilização em relação a sua fala, rebaixando-a, portanto, ao simples caráter testemunhal da carência em relação a sua vida de favelada. Em contrapartida, de acordo com Levine e Meihy, o livro de Carolina nos dias subsequentes ao lançamento, vendeu cerca de dez mil exemplares e ao curso de seis meses, noventa mil cópias estavam espalhadas pelo país. Enfatizam: “No espaço de um ano ela havia se equiparado, em vendagem, a Jorge Amado, e, como ele se, transformado no mais traduzido dos autores brasileiros de todos os tempos” e em relação ao seu sucesso internacional: “As 182 páginas de Quarto de Despejoforam republicadas em 13 línguas em mais de 40 países, incluindo a então União Soviética e o Japão”[32]. Portanto, ao observarmos as constatações, impossível não se embasbacar com a visibilidade que o texto atingiu, entretanto, hoje, permanece ainda sem nenhum reconhecimento, menos ainda como integrante da Literatura Brasileira. Após o sucesso meteórico, foi relegada ao esquecimento. Como o usual em sua vida de migrante, se retirou de sua casa em Santana onde vivia sendo requisitada e exilou-se num sítio em Parelheiros, em busca de privacidade. Permaneceu até o fim de sua vida em 1977, quando foi surpreendida por uma crise de asma.

Carolina, de ouvinte e leitora, passou para a poesia declamada e cantada, depois escrita e finalmente para o texto impresso. Com o tempo foi adotando novos gêneros literários como o diário-crônica, o romance e os provérbios (PERES, 2007, p. 194).

 

A literariedade de Carolina Maria de Jesus       

Quando o Quarto havia sido publicado em outros países, não lhes cobravam “virtudes literárias nem coerência”[33], como lhe foi cobrada pela imprensa e a crítica da época, assim como pelos criadores dos cânones literários. Remetendo a um assunto extremamente contemporâneo em Carolina, a desconsideração da natureza literária de seus escritos. É perceptível que determinados textos são aclamados pelos seus contemporâneos, perdurando como clássicos e outros que são fadados ao esquecimento, alegando falta de qualidade estética. Tendo em vista quem constrói esses cânones, afim de questioná-los e ressignificá-los, darei espaço a definições necessárias que mostram a verdadeira importância de tais textos. Para tanto utilizarei o “Introdução a Literatura Negra” de Zilá Bernd e promoverei uma complementação entre as definições de Eduardo de Assis Duarte, no que diz respeito a literatura afro-brasileira e a literatura de Carolina Maria de Jesus.

Considerando a Literatura como uma instituição, que possui instâncias legitimadoras, ou seja, referenciais do que se entende como literatura, tais instancias ditam o espaço que a obra será designada ao longo da história, o da consagração ou o do esquecimento. Conceituando-se em Bourdieu[34], Bernd aponta as que são

Diretamente responsáveis pela emergênciadas produções literárias, como revistas, jornais, editoras e livrarias; outras lhes trazem o reconhecimento, como a crítica e a historiografia literárias, enquanto outras garantem sua consagração: prêmios e academias, reservando-se à escola e às bibliotecas a sua conservação (BERND, 1989, p.40).

Zilá Bernd salienta que qualquer desequilibro ocorrido ao longo desses processos, o ciclo desmorona. No processo de emergência, reconhecimentoe consagraçãodas obras de Carolina Maria de Jesus, percebem-se falhas ao decorrer do processo. Sua entrada no universo literário se deu, como sabemos, através de “Quarto de Despejo”. A crítica que havia lhe trazido um reconhecimento estrondoso, acabou por manifestar-se de maneiras quase sempre negativas, principalmente após a publicação dos livros subsequentes, desgastando propositalmente sua imagem. A consagração de Carolina e sua obra, de acordo com Levine e Meihy[35], foi quando passara a ser celebridade, ganhando prêmios e se apresentando em universidades, canais de televisão e rádio. Foi homenageada pela Academia de Letras de São Paulo e pela Academia de Letras da Faculdade de Direito de São Paulo. Viajara para todo o Brasil, também para o Uruguai, Chile e Argentina, na qual recebera em Buenos Aires a “Orden Caballero del Tornillo”. Sabemos hoje, que sua consagração como escritora integrante da Literatura Brasileira, segue postergada. Bernd enfatiza que “o valor estético não é a determinante única da sacralização de uma obra, nem seu banimento para as regiões da sombra e do esquecimento”[36]. A valorização da “boa” literatura, prezada pelos cânones, manifesta como a obra de Carolina possui um teor transgressor. Quanto mais desagregadora da ordem tal obra ser, maiores serão os obstáculos impostos pelas instâncias legitimadoras dentro do processo de reconhecimento e legitimação da obra.

Essa atitude do poeta de colocar-se em uma posição marginal junto com os grupos marginalizados cuja voz quer tornar audível torna-se tão ameaçadora quanto a de um dinamiteiro ao utilizar a dinamite para fazer voar pelos ares determinado alvo (BERND, 1989, p.41).

Carolina se posicionava como uma porta voz em seu primeiro livro. Escreveu ao longo de sua carreira literária de maneira antiquada, ultrapassada. As técnicas literárias vanguardistas eram reservadas as elites intelectuais dominantes. Tornando-se, assim, uma escrita subversiva, existindo no contra fluxo[37]. Constitui-se de uma contraliteratura.

Caracterizando-se por uma postura crítica no interior do campo literário instruído, a contraliteratura se estrutura como contestação sistemática dos valores representados pela cultura dominante (BERND, 1989, p.43).

O teor de denúncia empregado por Carolina, negligenciada pela literatura enquanto instituição remete, portanto, a uma literatura de resistência, que articula vocabulário, símbolos e devires, afim de criar uma contraliteratura negra. Afim de enfatizar e escancarar as tensões existentes na realidade de uma mulher negra, pobre, mãe solteira e favelada.

Duarte[38]enfatiza a existência de constantes discursivasno que se categoriza Literatura Afro-Brasileira. As especificidades dessa modalidade que se faz variada e diversa, demonstra como a escrita negra desapropria os cânones e contrapõe a trajetória linear da história. O autor destrincha cinco pontos nos quais, para ele, formam a literatura escrita por afrodescendentes no Brasil. Esses sendo: temática, autoria, ponto de vista, linguagem e público. Vale ressaltar que esses componentes separadamente não configuram a presença na Literatura Afro-brasileira, apenas uma interação.

O primeiro ponto referencia-se a temática, “esta pode contemplar o resgate da história do povo negro na diáspora brasileira, passando pela denúncia da escravidão e suas consequências ou ir até à glorificação de heróis como Zumbi e Ganga Zumba”[39]. A denúncia da escravidão, a perpetuação da oralidade num ambiente repleto de ancestralidade, condiz com o que Carolina escreve em “Diário de Bitita”. Ela comenta sobre seu avô, ex-escravo, apelidado por ela de Sócrates Africano, que lhe contava histórias do passado, trazendo um contrafluxo à história social dominante. Outro tema presente na escrita de Carolina que a configura como literatura afro-brasileira, foram as dificuldades presentes na modernidade brasileira pós escravidão, o drama da marginalização, da desigualdade, da negligência política, longamente enfatizados em seus textos como “Casa de Alvenaria” e “Quarto de Despejo”. O próximo critério refere-se à autoriado texto, Duarte enfatiza que apenas o fenótipo não é suficiente, “é preciso compreender a autoria não apenas como um dado exterior, mas na condição de traduzida em constante discursiva integrada a materialidade da construção literária”[40]. Ou seja, a fala do autor deve estar conjugada com o devir negro, dos oprimidos. A autoria do texto está estritamente atrelada ao ponto de vistadesenvolvido pelo escritor. A visão de mundo atrelada ao universo afrodescendente, se faz presente através do vocabulário, dos valores ideológicos e morais e de uma observação do mundo negro por meio de suas opressões, como a de gênero e etnia[41]. Duarte, enfatiza também a importância da linguagem como fator decisivo que revela a diferença cultural presente no texto.

A afro-brasilidade tornar-se-á visível já a partir de uma discursividade que ressalta ritmos, entonações, opções vocabulares e, mesmo, toda uma semântica própria, empenhada muitas vezes num trabalho de ressignificação que contraria sentidos hegemônicos na língua (DUARTE, 2007, p. 109).

No “Diário de Bitita” os conflitos relacionados ao racismo se escancaram, há, sempre, menções à cor da pele, com o branco como o ideal de referência estética e de comportamento. Reproduzem-se estereótipos em relação ao homem e a mulher negra; com o homem negro sendo o malandro fanfarrão e a mulher negra como a carne sempre acessível. Desde pequena quando ainda era Bitita, Carolina fora ensinada a odiar sua pele, seus traços e seus cabelos negros.  A alusão à cor da pele nessa obra evidencia, principalmente, como são as relações sociais humanas. Elucida-se, também, nesse mesmo texto, seu processo dolorido de aceitação como ser humano de pele preta. Sua linguagem, que nem sempre atendia as expectativas da escrita hegemônica, era única e demonstrava sua ancestralidade[42].

A última das constantes discursivas se configura no públicoem que o texto é voltado. Obviamente o escritor de Literatura Negra anseia que seus escritos reverberem, conformando um ato político e o impulso à ação.

No caso, o sujeito que escreve o faz não apenas com vistas a atingir um determinado segmento da população, mas o faz também a partir de uma compreensão do papel do escritor como porta-voz de uma determinada coletividade. Isto explica a reversão de valores e o combate aos estereótipos, que enfatizam o papel social da literatura na construção da autoestima dos afrodescendentes (DUARTE, 2007, p.110).

Assim, quando são criados coletivos, ocupações, saraus, comunidades, apresentações teatrais relacionadas ao tema, o escritor abdica de seu “euindividual e funde-se no nóscoletivo, evidenciando o empenho em delinear uma identidade comunitária”[43].

Bernd, ao conceituar Literatura Negra descreve que:

A presença de uma articulação entre textos, determinada por um certo modo negro de ver e sentir o mundo, e a utilização de uma linguagem marcada, tanto no nível do vocabulário quanto no dos símbolos, pelo empenho em resgatar uma memória negra esquecida legitimam uma escritura negravocacionada a proceder a desconstrução do mundo nomeado pelo branco e a erigir sua própria cosmogonia (BERND, 1989, p.22).

Carolina preferiu construir uma narrativa de vida independente, e ao mesmo tempo, sempre se inserindo na coletividade do quarto de despejo da cidade de São Paulo ou da coletividade majoritariamente oral de Sacramento. Apresentar a si mesma e sua história através de seus textos, objetivava sua visão de mundo particular como mulher e negra. Cada um de seus textos mostram um pedaço de sua passagem pela história e sua importância como objeto e representação concreta da História dos negros no Brasil.

Ao citar esses fatores – temática, autoria, linguagem, ponto de vista e público – é evidente como Carolina Maria de Jesus transita dinamicamente no que se configura Literatura Afro-brasileira e Literatura Negra, de acordo com Duarte e Bernd. Considerando essas cinco constantes discursivascomo pressupostos teóricos, é possível observar a produção de escritores afrodescendentes no Brasil como uma expressão própria, que carrega grande teor de contraliteratura, ancestralidade e devir negro.

 

Conclusão

A relevância da obra de Carolina é latente, pois que ainda apresenta problemas que ainda perduram cotidianamente no cenário brasileiro. Uma obra que reclama novas significações, posto que remete a grandes camadas da sociedade e a problemas que ainda não foram solucionados. Carolina toma seu lugar de fala, seu espaço sempre posto como o do outro, visto de longe e cheio de condolências, para tornar-se dona de seu devir histórico. Protagonizando suas palavras, seu eupoético universalizado em protesto, mostra como a literatura brasileira pode transpor as barreiras das instancias legitimadoras canônicas.

 

BIBLIOGRAFIA

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DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura afro-brasileira: um conceito em construção. In: Niyi Afolabi; Márcio Barbosa; Esmeralda Ribeiro. (Org.). A mente afro-brasileira: crítica literária e cultural afro-brasileira contemporânea/The afro-brazilian mind: contemporary afro-brazilian literary and cultural criticism. Trenton – EUA: Africa World Press, Inc., 2007, v. 1, p. 103-112.

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PERES, Elena Pajaro. Exuberância e invisibilidade. Populações moventes e cultura em São Paulo, 1942 ao início dos anos 1970. Tese de doutorado em História Social. Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2007

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[1]Conceito que remete as características, linguísticas, semióticas, sociológicas, que tornam um texto literário, criado por teóricos da literatura, no início do século XX, posteriormente chamados de formalistas russos. Cf. EIKHENBAUM, B. et al. Teoria da Literatura. Porto Alegre: Globo, 1976, 3ª Ed.

[2]Moeda brasileira que circulou até o início dos anos noventa.

[3]JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo. Diário de uma favelada. São Paulo: Francisco Alves, s.d.. (1ª Ed. 1960).

[4]As doze faixas presentes no LP de “Quarto de Despejo”, o álbum, podem ser encontradas nesse site: http://radiobatuta.com.br/selecao/carolina-maria-de-jesus-canta/. Acesso em: 06 nov. 2017.

[5]JESUS, Carolina Maria de.Op. cit., p. 37.

[6]JESUS, Carolina Maria de. “Eu que sou exótica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido”. Op. cit, p. 33.

[7]JESUS, Carolina Maria de. “Cor roxa. Cor da amargura que envolve os corações dos favelados”. Op. cit. p. 34.

[8]JESUS, Carolina Maria de. Diário de Bitita. Sacramento: Editora Bertolucci, 2007, 2ª ed. (1ª Ed. 1986).

[9]Cf. LEVINE, Robert M.; MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Cinderela Negra: a saga de Carolina Maria de Jesus.Sacramento/MG: Editora Bertolucci, 2015. 2ª Edição.

[10]O vídeo “Poética da Diáspora” pode ser encontrado aqui:          https://www.youtube.com/watch?v=T0ncwWD1C9g. Acesso em 06 nov. 2017.

[11]A entrevista pode ser ouvida nesse site: http://radiobatuta.com.br/programa/carolina-de-jesus-uma-voz-soberana/. Acesso em: 07 out. 2017.

[12]Escritor, roteirista de cinema, mestre e doutorando em Letras pela USP.

[13]Doutora em Literatura Comparada pela UFF, autora de “Ponciá Vivêncio” (2003) e “Olhos d’água” (2015). Vencedora do Prêmio Jabuti 2015, na categoria Contos.

[14]Doutora e mestre em História pela Universidade de São Paulo. Pós-doutora em Literatura pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP. É também bacharel e licenciada em História pela Universidade de São Paulo. Utilizo sua tese de doutorado ao longo do artigo: PERES, Elena Pajaro. Exuberância e invisibilidade. Populações moventes e cultura em São Paulo, 1942 ao início dos anos 1970. Tese de doutorado em História Social. Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2007.

[15]LEVINE, Robert M.; MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Cinderela Negra: a saga de Carolina Maria de Jesus. Sacramento/MG: Editora Bertolucci, 2015. 2ª Edição, p. 55-56.

[16]Cf. LEVINE, Robert M.; MEIHY, José Carlos Sebe Bom, op. cit. p. 14.

[17]Possui pós-doutorado na Université de Montréal (Canadá) em 1990; Doutorado em Letras (Língua e Literatura Francesa) pela Universidade de São Paulo (1987); Mestrado em Letras pela Universidade Fed. do Rio Grande do Sul – UFRGS (1977); Licenciatura em Letras pela mesma universidade (1967).

[18]Possui graduação em Letras pela UFMG (1973), mestrado em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro (1978) e doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela USP (1991).

[19]Originários da província de Cabinda, na Angola.

[20]“Falava do Palmares, o famoso quilombo onde os negros procuravam refúgio. O chefe era um negro corajoso de nome Zumbi. Que pretendia libertar os pretos […]”. Cf. JESUS, Carolina Maria de. Diário de Bitita. Sacramento: Editora Bertolucci, 2007, 2ª Ed., p. 58.

[21]Capítulo ‘A Escola’. Cf. Carolina Maria de Jesus, op. cit., pp. 149-156.

[22]PERES, Elena Pajaro. Op. cit. p. 192.

[23]Capítulo ‘A fazenda’. Idem. p. 157-167.

[24]Migração e a escrita: “Quando chegou a São Paulo no início da década de 40, seguindo a família para qual trabalhava como empregada doméstica em Franca, Carolina sentiu a imperiosa urgência da escrita, atividade que acabou por tornar-se diária a partir da década de 50, quando era moradora da favela do Canindé às margens do rio Tiete”. Cf. Peres, Elena Pajaro. op. cit. p. 91.

[25]LEVINE, Robert M.; MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Cinderela Negra: a saga de Carolina Maria de Jesus. Sacramento/MG: Editora Bertolucci, 2015. 2ª Edição, p. 25.

[26]Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (1978), possui mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (1981), doutorado em Graduate School Of Arts And Science History Department – New York University (1995).

Utilizo no artigo seu texto: ROLNIK, R.. Territórios negros nas cidades brasileiras: etnicidades e cidade em São Paulo e Rio de Janeiro. In: Renato Emerson dos Santos. (Org.). Diversidade, espaço e relações étnico-raciais O negro na geografia do Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, v., p. 75-90.

[27]Saída da favela do Canindé: “Os moradores (ao vê-la escrever e, principalmente depois do lançamento de Quarto de Despejo) a viram como espiã, oportunista e denunciante. Sua passagem para o lado de lá, a casa foi considerada uma traição. As pedras que foram lançadas contra ela, no momento de sua saída da favela, marcaram o desligamento” PERES, Elena Pajaro. Op. cit. p. 201. (Grifo meu).

[28]Cf. PERES, Elena Pajaro. Op. cit. p. 163.

[29]Seguem exemplos: “O que eu quero esclarecer sobre as pessoas que residem na favela é o seguinte: quem tira proveito aqui são os nortistas. Que trabalham e não dissipam. Compram casa ou retornam-se ao Norte”. Quarto de Despejo, op. cit.p. 46. “Na rua A residem 10 baianos numa barracão de 3 por dois e meio […] São robustos, mal encarados. Homens que havia de ter valor para o Lampeão. Os dez são pernambucanos. E brigaram os 10 com um paraibano”. Quarto de Despejo, op. cit.p. 63, (sic).

[30]LEVINE, Robert M.; MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Cinderela Negra: a saga de Carolina Maria de Jesus. Sacramento/MG: Editora Bertolucci, 2015. 2ª Edição, p. 39.

[31]LEVINE, Robert M.; MEIHY, José Carlos Sebe Bom, op. cit,p. 21.

[32]Idem. p. 30.

[33]Idem.p. 36.

[34]BOURDIEU, Pierre. “O Mercado dos Bens Simbólicos”. In: As Regras da Arte: Gênese e estrutura do campo literário.São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 162-192.

[35]LEVINE, Robert M.; MEIHY, José Carlos Sebe Bom, op. cit. p. 41.

[36]BERND, Zilá. “As contraliteraturas: a sombra e a consagração”, in: Introdução à Literatura Negra. 1ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 40.

[37]Idem, p. 43.

[38]DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura afro-brasileira: um conceito em construção. In: Niyi Afolabi; Márcio Barbosa; Esmeralda Ribeiro. (Org.). A mente afro-brasileira: crítica literária e cultural afro-brasileira contemporânea/The afro-brazilian mind: contemporary afro-brazilian literary and cultural criticism. Trenton – EUA: Africa World Press, Inc., 2007, v. 1, p. 103-112.

[39]DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura afro-brasileira: um conceito em construção. Op. cit. pp. 104-105.

[40]Idem. p.106.

[41]Idem.

[42]“…Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondia-me: É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro minha pele negra, e o meu cabelo rustico […]. Se é que existe reencarnação, eu quero voltar sempre preta. […] O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém” Quarto de Despejo, op. cit.p. 65, (sic).

[43]BERND, Zilá. “A literatura negra brasileira: suas leis fundamentais”, in: Introdução à Literatura Negra. 1ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 78.

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