quinta-feira, setembro 23, 2021
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Mas afinal de contas, o que deseja a luta antirracista?

As vivências e escrevivências nos revelam caminhos contemporâneos, com novas e louváveis iniciativas, porém, permanecendo intrínsecas, velhas práticas já denunciadas pelas nossas referências, tais como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. O objetivo é a luta antirracista, mas o que deseja essa luta infidável?

Certamente, muitos responderão automaticamente essa indagação, enfatizando sobre a construção de uma sociedade igualitária. A dúvida é se esse desejo de igualdade está imbricado na minimização das categorias de opressão de gênero e de classe.

Dá para lutar contra o fim de uma opressão que é estrutural e alimentar outra? Isso auxilia ou reforça a desumanização? Afinal de contas, não é justamente a luta antirracista que se estrutura na desconstrução da ideia de modelo de sujeito universal,que aborda sobre respeito às diferenças?

Aqui estamos falando dos quadrados onde somente uma bandeira pode ser hasteada. Assim, temos que deixar de sermos pretas para pautar sobre ser mulher, temos que deixar de ser homossexuais para pautarmos o ser preta!

Mas, e aí, como afirma o conceito interpreitando¹, não são as possibilidades de sermos infinitos e particulares que nos fazem ecos de valores ancestrais? Audre Lorde exclama “ É um padrão do cinismo da direita o encorajamento de membros de grupos oprimidos que ajam contra si mesmos, e enquanto estivermos divididos nós não poderemos nos unir conjuntamente em uma ação política efetiva”

Portanto, que luta é essa, que sufoca soluços de dores, que segrega, no não contém ou não está contido, no mulher, homem, trans, gays, retintos e não retintos (colorismo), esquecendo que se tratam de vidas, particularidades, indivíduos? Essa “possibilidade” de escolher de qual luta participar é tão latente quanto às ideias neoliberais formatadas em políticas públicas. Réguas que enumeram e sem medidas contradizem a própria luta!

É incontestável o compromisso enquanto mulheres pretas que somos e nos tornamos como diria Neuza Santos, sobre o marcador racial que nos condena, nos definindo ainda que sequer nos coloquemos no mundo, enquanto seres passíveis de direitos. Ademais, o machismo aportou nestas terras na mesma caravana que trouxe o racismo. Em contextos históricos Lerner (2019), informa:

“Em toda sociedade conhecida, foram as mulheres de tribos conquistadas as primeiras a serem escravizadas, onde os homens eram mortos. Foi apenas depois dos homens terem aprendido como escravizar de grupos que poderia ser definidas como estranhas, que eles aprenderam como escravizar homens desses grupos e após subordinar de suas próprias sociedades. Portanto, a escravização das mulheres, combinando ambos racismo e machismo, precedeu a formação da classe e das opressões de classes”.

E isso valida quantas pautas?

Desde sempre, ser mulher e preta participa de um projeto de anulação que feito uma lei, nos coloca na base da pirâmide social. Eu não consigo pensar em uma sociedade mais justa, sem pensar na clivagem que a questão de gênero produz. Então, torna-se impossível tecer luta antirracista hoje e a pauta de igualdade de gênero, LGBTQIfobia e tantas outras correlatas na semana que vem. Já afirma Audre Lorde: “não há hierarquia das opressões”!

Aqui não se trata de uma guerra anunciada contra os nossos, NUNCA! Isso se trata de uma busca por uma irmandade que é a essência do nosso povo, essa mesma que não deve ser ofuscada pela bandeira capitalista de hierarquização. O poder precisa ser para um povo e não para um modelo, leia-se um único gênero. Por isso indago: que caminhos são esses que estão sendo seguidos? Quem pavimentou esse chão e sinalizou esse destino? A luta é pelo fim da desigualdade ou estamos refletindo a face do opressor inquilino?

Vale ressaltar que o pretendemos são caminhos menos árduos e segregadores dentro do nosso próprio quilombo, afinal os inimigos da opressão já estão no lado de fora, contido no ocidente que infelizmente também está internalizado em nós, no patriarcado e machismo que assim como o racismo tende a se reproduzir de forma consciente e inconsciente. Reafirmando pelas palavras da Gabriela Bacelar (2020): “o racismo mina as possibilidades de construirmos uma condição de dignidade humana, mas não podemos entrar numa competição por migalhas”, não é verdade?

Assim, não queremos problematizar para produzir fissuras internas ou autofagia, pelo contrário, apontar as diferenças em nossa perspectiva sempre foi uma maneira de considerar o diverso, o diferente, “o outro” ou “a outra” dentro da perspectiva explanada por Grada Kilomba como forma de auto afirmação e sendo como a história nos mostra sem necessariamente ter que anular aqueles que nos oprimem na sua existência, essa prática não nos diz respeito, não nos define, nem nos contempla.

Validar o diferente e conviver com ele ou ela, permite inúmeros aprendizados, pois segundo Miskolci Apud Souza (2020), na perspectiva da diferença, estamos todos implicados/as na criação deste outro, e quanto mais nos relacionamos com ele, o reconhecemos como parte de nós, não apenas o toleramos mas dialogamos com ele sabendo que essa relação nos transformará”. Essa abordagem proposta por Richard é bastante pertinente e ao ler conectamos automaticamente ao trabalho da Sueli Carneiro, “A construção do outro como não-ser como fundamento do ser” que parte justamente dessa concepção e construção das diferenças para configurar estruturas de poder e biopoder no qual este outro, que para a autora é demarcado nas relações raciais e obviamente acrescentamos também a perspectiva de gênero, não é considerado alguém passível de existência e, por consequência de direitos, dentro da perspectiva dos direitos humanos.

Diante do exposto, essa abordagem que segrega, rótula e afasta o outro/ a outra a uma realidade e vivência distante da nossa, servem muitas vezes para estarmos em posições cômodas e de conforto dentro de um processo de sociabilidade que aborda diferentes pessoas, identidades étnico raciais, expressões de gênero e sexualidades, culturas, religiosidade ou fé e expressões de ser e de viver que são múltiplas e por isso não cabe julgamentos morais ou até mesmo praticar a concepção de diversidade que distância aquele ou aquela que é considerado diferente da norma ou padrão, a ideia nesta escrita reflexiva e propositiva é considerar a consciência nossa do exercício cidadão e amarrá-la a ações concretas de identificação deste outro, como parte de nós. E assim, sendo pertencente aos nossos meios e fins, a luta antirracista há de ocorrer, porque eu sou o que voce é! A vitória precisa ser coletiva porque o reality é a vida.

Seguimos em luta! ✊🏿

Nota de rodapé:
¹ Sendo o conceito Interpreitar entendido como a revisitação do saber posto, sob lentes escurecidas, amparada pelo grau da realidade que perpassa nossa existência. Interpreitar é dar sentido ao saber, considerando as subjetividades e experiências envolvidas. Interpreitar é humanizar os saberes.

Referencias

ALMEIDA, Silvio Luiz de. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

CARNEIRO, Aparecida Sueli; FISCHMANN, Roseli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

BACELAR,Gabriela. O colorismo e o privilégio que ninguém te deu. 2020. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/o-colorismo-e-o-privilegio-que-ninguem-te-deu/>. Acesso em 06/02/2021.

KILOMBA, G. Memórias da plantação. Rio de Janeiro, Cobogó, 2019.

LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. São Paulo: Cultrix, 2019.

SOUZA, Jamille de Santana. Diversidades e Diferenças. 2020. Disponível em: <https://web.facebook.com/notes/2812991408922363/>. Acesso em 26/01/2021.

SOUZA, Neuza santos. Torna-se negro: as vissitudes da identidade do negro brasileiro em ascenção social. Rio de Janeiro: Edição Graal, 1983.

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