domingo, outubro 2, 2022
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Os impactos da Covid-19 sob a perspectiva de afroempreendedoras ludovicenses: Ainda é 14 de maio

No dia 14 de maio, eu saí por aí

Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir

Levando a senzala na alma, eu subi a favela

Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci

Zanzei zonzo em todas as zonas da grande agonia

Um dia com fome, no outro sem o que comer

Sem nome, sem identidade, sem fotografia

O mundo me olhava, mas ninguém queria me ver

No dia 14 de maio, ninguém me deu bola

Eu tive que ser bom de bola pra sobreviver

Nenhuma lição, não havia lugar na escola

Pensaram que poderiam me fazer perder

Mas minha alma resiste, meu corpo é de luta

Eu sei o que é bom, e o que é bom também deve ser meu

A coisa mais certa tem que ser a coisa mais justa

Eu sou o que sou, pois agora eu sei quem sou eu

(…)

(14 de Maio -Lazzo Matumbi)

INTRODUÇÃO

Forjado em base escravocrata, onde o domínio e a supremacia econômica em detrimento da liberdade da mulher e do homem negro contaram com a adesão da sociedade, a estruturação do Estado Brasileiro se deu pela formalização de um conjunto de práticas institucionais e interpessoais que frequentemente colocam um grupo social ou étnico em uma posição melhor em detrimento de outro. 

Depreende-se do movimento abolicionista até a abolição da escravidão negra no Brasil que a ausência de políticas públicas pós-abolição fez com que os afrodescententes fossem lançados na sociedade sem dinheiro ou mínimas condições de se estabelecer no sistema. Eles foram levados a trabalhar por míseras compensações pecuniárias, incapazes de suprir suas necessidades, sendo inseridos em um novo contexto social marginalizados e em posição de inferioridade.

Sobretudo, as mulheres negras enfrentam o desafio de tentar localizar o seu lugar no pós-abolição, levando-as a um histórico de lugar de fala subjugado pela constância do machismo estrutural, do racismo e do sexismo na sociedade que, reproduzindo o mito da falta de interesses das mulheres pela construção sócio-econômica e política em prol da coletividade, as marginaliza.

Mesmo após décadas de abolição da escravidão negra nos Brasil, os reflexos nefastos da ausência de uma política pública pós-abolicionista em prol a inserção social dos afrodescendentes no novo paradigma social permanecem e têm sido evidenciados pela pandemia Sanitária da Covid-19.

2. OS IMPACTOS DA COVID-19 SOB A PERSPECTIVA DE AFROEMPREENDEDORAS LUDOVICENSES: AINDA É 14 DE MAIO

A partir das histórias de afroempreendedoras ludovicenses partilhadas durante o “Julho da Pretas: uma homenagem a Maria Firmina”² foi possível obsevar quão desafiador é para mulheres negras se inserirem no mercado de trabalho enquanto empreendedoras tanto por ser mulher quanto por ser negra.

O primeiro ponto de destaque trazido pelas afroempreendedoras foi o de descredito dado ao trabalho por elas desenvolvido. Expressando seus sentimentos de que tal reação estava antes de tudo ligada a sua cor, sendo necessário provarem o valor e qualidade de seus produtos. Quando não era o seu corpo “exótico” que despertava a atenção sos interlocutores não a sua produção.

Em Intelectuais negras,13 bell hooks fala sobre o quanto as mulheres negras foram construídas ligadas ao corpo e não ao pensar, em um contexto racista. A pensadora afirma que a combinação entre racismo e sexismo implica em sermos vistas como intrusas por pessoas de mentalidade estreita. Para além disso, a própria conceituação ocidental branca do que seria uma intelectual faz com que esse caminho se torne mais difícil para mulheres negras. (HOOKS apud RIBEIRO, 2017)

Depreende-se desse contexto o quanto a sociedade, o contexto cultural que se construiu, visa ditar onde é o lugar da mulher negra. E, certamente, nessas regras não poderíamos nos inserir no lugar do pensar quanto mais do produzir intectualmente.

O lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido, veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular. Conseqüentemente, o lugar de onde falaremos põe um outro, aquele é que habitualmente nós vínhamos colocando em textos anteriores. E a mudança foi se dando a partir de certas noções que, forçando sua emergência em nosso discurso, nos levaram a retornar a questão da mulher negra numa outra perspectiva. Trata-se das noções de mulata, doméstica e mãe preta. (GONZALES, 1984)

O segundo ponto apresentado foi a “onda midiática” do microeemprendedorismo decorrente da Pandemia da Covid-19. Segundo, as mulheres que participaram da campanha, enquanto a mídia veículava a asceção dos pequenos negócios com o crescimento do pequeno negócio por empresas familiares, elas enfrentavam as dificuldades financeiras do fechamento do comércio, incluindo o comércio alternativo como as feiras culturais e espaços para brechó.

Sem conhecimento técnicos ou técnológicos para se inserirem no mercado digital, sem patrocínios ou margem nos bancos tradicionais, essas afroempreendedoras, mães, avós, cidadãs da períferia, que sempre tiveram sua economia e sustento baseada no produto de suas mãos foram mais uma fez devastadas pelo racismo estrutural.

Na contramão dos desfios o feminismo³ e a sororidade, marcados pela resistência e luta, as conduziram a uma organização sistemática e coletiva de trabalho, tendo em vista a obtenção de mercado consumidor e comercialização das peças e juntas elas se reiventaram, partilhando conhecimento e oportunidades dentre essas a participação do “Julhos das pretas”.

3. CONCLUSÕES FINAIS

Em tempos tão difíceis, de inúmeros retrocessos e perdas de direitos duramente conquistados dar visibilidade a história das mulheres negras maranhenses é contribuir para a reparação reconhecendo a importância das lutas dos africanos e africanas, bem como de seus descentes, na formação da sociedade brasileira e desconstruir o mito da democracia racial, pois ainda vivemos sob os fortes grilhões do pós abolição, ainda é 14 de maio!


¹  Advogada. Graduada em Direito pela Universidade Federal do Maranhão. Pós-graduada em Direito Constitucional pela Uniderp/Anhanguera.

²  campanha desenvolvida na Ordem dos Advogados do Brasil do Maranhão com objetivo de dar visibilidade aos nomes de mulheres negras maranhenses

³  Feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, com a exploração sexista com a opressão. (hooks, 2020) dos Advogados do Brasil do Maranhão com objetivo de dar visibilidade aos nomes de mulheres negras maranhenses

REFERÊNCIAS

RIBEIRO, Djamila. O que é: lugar de fala? Belo Horizonte(MG): Letramento: Justificando, 2017;

GONZALES, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244.

HOOKS, bell. O feminismo é pra todo mundo. Políticas arrebatadoras. Tradução Bhuvi Libanio.12ed. Rio de Janeiro: Rosa dos tempos 2020

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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