sábado, setembro 18, 2021
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Pós-pandemia: a dor continuará

O conceito pessimismo não seria uma definição plausível, quando olhamos em outras perspectivas o momento no qual nos encontramos. É o que desejo fazer através desta reflexão.

 Por Edson Fabiano*, enviado para o Portal Geledés 

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Fabiano Mestre
Foto: Fabiana Ribeiro/Campinas

Outros olhares… Talvez seja por isso que a escritora negra Carolina Maria de Jesus disse: as crianças ricas brincam nos jardins com seus brinquedos prediletos. E as crianças pobres acompanham as mães a pedirem esmolas pelas ruas. Que desigualdades trágicas e que brincadeira do destino.

O mundo do faz-de-conta foi/é uma realidade na vida de todo ser humano adulto quando criança. Era nesse mundo que sonhávamos ser e ter o que a realidade dura e sofredora, de algumas crianças, permitia. Independente da classe social e da cor da pele, o sentimento de incompletude, de que algo está faltando, é inerente a todo ser humano, ainda que cercado de privilégios. Anos depois, como acontece com a maioria das pessoas, vem o amadurecimento e a natureza se encarrega invisivelmente em esticar uma linha tênue entre o adulto e a criança. A diferença entre um adulto e uma criança está no preço do brinquedo, pois, mesmo que socialmente já tenha autonomia para decidir e responder civilmente pelos seus atos, esse ser ainda tem seu particular mundo do faz-de-conta, lugar das idealizações e como diria Caetano, quereres.

Certamente as projeções que fazemos em relação ao futuro da humanidade, pós-pandemia, carecem de ponderações, principalmente se considerarmos algumas manifestações, expressões e impressões, publicadas até o atual momento. São enunciados defendidos por muitos, que acreditam de forma positiva e amistosa na aplicabilidade da lei de causa e efeito na vida das pessoas, quando o atual momento da pandemia provocada pelo Covid-19 terminar.

Tais postulados acreditam numa transformação de caráter, índole, ou do comportamento do ser humano, tornando-o em um ser melhor e mais responsável, convém dizer, sem querer jogar água fria no otimismo alheio, que tais projeções não são totalmente concebíveis, ainda mais se pensarmos na atual realidade como idealização a um possível Mundo das Ideias, como demonstrava Platão, um lugar onde as coisas não se corrompem, por serem perfeitas! Dessa forma, pensar em um mundo onde a desigualdade, a exclusão, o descaso com o outro, a violência e tantos outros males, desvanecem por causa de uma retomada coletiva de consciência moral que perdemos, se é que um dia tivemos, sobretudo se pensarmos o contexto brasileiro, é olharmos de forma pueril a realidade fora de suas dimensões e dinamicidade.

Quem somos? Em relação a esta pergunta a resposta já foi dada, timidamente respondida por mim, em um outro texto, intitulado Quem somos? Quem determina? Contudo, quero evidenciar mais um olhar, possível a esta indagação. Penso que somos seres dinâmicos, em constantes construções, que buscamos possibilidades de relações com o outro e a natureza. Nesse processo trazemos conosco nossas vivências, desejos, anseios, traumas e contingências, como diria o filósofo espanhol José Ortega y Gasset: eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não salvo a mim.

Isso posto, penso que o ser humano, nesse período de isolamento social, está em um grande desafio, hercúleo, pois já tivemos significativas lições que a vida e a natureza nos concederam para o nosso crescimento e aprendizado, basta olharmos para os desdobramentos da nossa história social, nos quais homens e mulheres foram desumanizados, objetificados, invisibilizados mesmo após memoráveis calamidades, a lição já nos foi dada, porém nossa cerviz dura nos impossibilita de olhar para o lado e ver o outro, somos cegos em relação ao outro, não porque estamos azafamados com encargos do cotidiano, mas sim porque não queremos ver. Negamo-nos enxergar os recônditos mais íntimos do nosso ser, provavelmente esse é o motivo da ausência no cuidado com outro, pois se não nos conhecemos não temos como saber acerca daquele que nos é “diferente”. Olhar para dentro, que é a condição do ensimesmamento, do autoconsumo, que nos inviabiliza mergulharmos de cabeça consumindo o que está do lado de fora. Os estímulos exteriores têm por finalidade sufocar nossa voz interior. Por esse motivo é extremamente doloroso, para algumas pessoas, estarem em uma quarentena, pois necessitam do consumo desregrado, alienante e alucinante, da devaneante forma de existir, que estabelece o silenciamento do pensar a vida, que é indevidamente compreendida como solidão. A prova já começou, pois, a existência nos deu toda a matéria da disciplina, a grade do curso foi concluída há muito tempo. Nesse exame não é permitido fazer a avaliação em dupla, colar, fazer consulta, pois esse é o dever de casa, distribuído para cada um de nós, independente das nossas atividades profissionais nomeadas home-office. É uma prova contendo uma única questão: tenho como ser um ser humano melhor?

Vivemos no Brasil durante muito tempo como imortais, deuses de dois mundos: um do egoísmo altivo e ganancioso, o outro, da pseudo-onipotência aniquiladora e desalmada. Chamamos atenção para este segundo mundo, no qual a ilusão de que podemos tudo, até mesmo exterminar sonhos e esperanças dos que são diferentes da conservadora moralidade hegemônica, é decorrente da ausência da alma como força vital, utilizo esse substantivo feminino a partir do seu significado em latim: animu ou anima, que quer dizer o que anima. O reflexo distorcido das pessoas desalmadas, sem alma, desanimadas, sem ânimo, angustiadas com tormentos cujas origens narcísicas remontam a mínima importância dada à convivência consigo mesmo e suas inquietações, buscando no externo, fora de si, respostas e soluções projetadas em infinitos espelhos, que regularmente são quebrados por não se verem representados, guia-nos novamente a poesia caetaneana, que nos franqueia compreensão: Narciso acha feio o que não é espelho.

As deformações e fragilidades não percebidas da sociedade contemporânea desembocam na condição apática as necessidades mais prementes para manutenção da vida humana: educação, segurança, saúde, moradia e etc. Porém parece que a ausência de uma política efetiva, para superação dessas necessidades, ficaram restritas ao engajamento das categorias ligadas a cada segmento e coletivos organizados pela sociedade civil, em outras palavras, a apatia e o desinteresse da sociedade, em reivindicar melhores condições de sobrevivência e trabalho, passou considerar as manifestações populares, legitimamente democráticas, de balbúrdia, comunismo e mimimi, dessa forma sedimentando na opinião pública a não-unidade e sim a fragmentação social. Eis a sociedade brasileira, em que cada um olha para os seus próprios interesses, haja vista como alguns pais e mães desclassificaram de forma hostil as greves dos professores e professoras, ocorridas em tempos passados, bem como a luta dos profissionais da saúde por melhores condições de trabalho e salários dignos. Ouvimos dizer que sairemos melhor desta situação de pandemia após as coisas voltarem ao seu curso normal: de trabalhos, estudos, viagens, negócios, lazeres e outros. Penso que este não é um desejo que se concretize objetivamente, não obstante nos faz bem ouvirmos, pois carregamos conosco algumas crenças, do inconsciente coletivo, de que “tudo tem um motivo, uma razão, as coisas não acontecem por acaso”, ou, “existe algo maior que rege o rumo da existência humana”. Comportamentos como: racismo, machismo e homofobia, fazem parte desse inconsciente coletivo da sociedade brasileira, como falamos anteriormente somos seres em construção, as peças constitutivas da nossa formação, enquanto brasileiros, trazem consigo um desprezo mortal à alteridade plural de grupos historicamente oprimidos. Cabe a cada um de nós nos percebermos com a responsabilidade de não reproduzirmos as heranças paradigmáticas que compuseram nossa construção humana, possibilitando dessa forma uma convivência social minimamente suportável, pois o ser humano ideal continuará sendo pela sociedade uma utopia.

As palavras, “foi preciso passarmos por isso, para apreendermos que não somos nada”, “foi preciso passar muito por isso, para entendermos que somos limitados”, “foi preciso passar por isso, para concluirmos que precisamos do outro”, estão sendo ditas como se não estivéssemos visto, em alguns casos sentido no corpo e na alma, as mais devastadoras mazelas sociais, que nos parece, considerando as frases mencionadas, que não foram suficientes para provocar, um choque de realidade transformadora nas relações sociais, morais e mudança na forma do brasileiro ver o outro, esse fato também serve se analisarmos o ethos comportamental das sociedades presentes nas grandes potências mundiais.

A tendência de relativizarmos e reduzirmos os impactos devastadores de cada calamidade nas vidas das pessoas atingidas é dizer, ainda que veladamente, que “não é nada não”, “isso foi só uma gripezinha”, como diria insanamente alguém. Daí então nosso questionamento surge em forma de lamento e resistência: então querem dizer que a perversa escravização no Brasil, que durou três séculos, “não deixou a lição” necessária para tornar a sociedade melhor? O atual extermínio dos jovens negros, por todo o Brasil, “não tem nos ensinado” amargamente o suficiente para pensarmos propostas de enfrentamento a morte precoce, já que a economia desumana neoliberal não serviu de nada, porque quem está morrendo são negros e negras, “subproduto” de uma sociedade hegemonicamente legitimada por sua cultura de superioridade? Que o feminicídio presente em vários estados brasileiros, “não tem se revelado como um alerta” potente para transformar a mente, atitudes e comportamentos do homem? Se nossas respostas a essas perguntas, estiverem no âmbito da indiferença, então realmente nessa quarentena não faremos uma boa prova, pois faltamos à aula da “professora Dor”, especialista e pós-graduada em colocar o dedo nas nossas feridas mais primitivas, pois estávamos viajando por outros mundos, que não eram os nossos, em delírios e fantasias. Na minha época gazetávamos a aula do “ginasial”, já nem mesmo existe mais essa nomenclatura, era o que hoje chama-se ensino fundamental, é, o tempo passa! Então não sei até que ponto essa ideia de que “depois dessa nos tornaremos seres humanos melhores” é um fato ou um fugaz ressentimento daqueles e daquelas que precisam expressar à humanidade aquilo que não praticaram nesses longos períodos históricos de descaso social. Diante de tudo que já vimos e vivemos penso não ser necessário na história da humanidade, para nos tornarmos “seres sublimes”, mais sofrimento, aflição, agonia, angústia, padecimento, tortura e morte.

Bom seria se não precisássemos dessas “muletas do inconsciente coletivo”, com pretensas intenções humanitárias, só assim enxergaríamos o óbvio: nem sempre a dor é um bom remédio, não foi boa para o povo baiano, com a Guerra de Canudos; não foi boa para o estado de São Paulo, com o trágico acidente do avião da TAM; não foi boa para a sociedade do Rio de Janeiro, com o desabamento do edifício Palace II, na Barra da Tijuca. Notem que eu falei consecutivamente: povo, estado e sociedade. Com essa distinção utilizo uma metáfora para referir-me ao pobre, a classe média e a elite. Sem dúvida poderíamos citar outros infortúnios e calamidades, que fizeram parte e ainda fazem, da história do Brasil, a dor não é uma boa mestra, caso fosse verdade, o brasileiro, que é mestiço, teria aprendido com a ignomínia da escravização e trataria uns aos outros com respeito e oportunidades iguais.

Bem, no término desta reflexão, quero novamente, e na minha vida sempre que for possível, evocar a representação do real, contido na poesia de Carolina Maria de Jesus, nesse caso cito Humanidade, presente em seu livro Meu estranho diário, de 1996, ano em que 19 trabalhadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, foram mortos pela polícia, no episódio que ficou conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás: Depôis de conhecer a humanidade suas perversidades suas ambições/Eu fui envelhecendo/E perdendo as ilusões/O que predomina é a maldade porque a bondade: ninguem pratica/Humanidade ambiciosa e gananciosa/Que quer ficar rica!/Quando eu morrer… Não quero renascer é horrivel, suportar a humanidade/Que tem aparência nobre/Que encobre As pesimas qualidades/Notei que o ente humano É perverso, é tirano/Egoista interesseiros/Mas trata com cortêzia/Mas tudo é ipocresia/São rudes, e trapaceiros.

 

*Edson Fabiano dos Santos – Possui Graduação em Teologia; Especialista em Ética, Subjetividade e Cidadania pelo Instituto ecumênico de Pós-Graduação; Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, na área de Teologia e História; Licenciatura em Filosofia – Universidade Candido Mendes (AVM). É doutorando em Educação (FE/UNICAMP) pesquisador e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos – GEPEJA da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/SP. Atuando principalmente nos seguintes temas: relações étnico-raciais, racismo e intolerância religiosa, escravidão negra no Brasil, teologia negra, espiritualidade, literatura negra e afro-brasileira, Jorge Amado, filosofia e educação, cultura afro-brasileira, pensamento afrodiaspórico, políticas públicas, direitos humanos e cidadania. 

fabiano.filo@hotmail.com

 

 

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