Racismo e sexismo negam posição de cientista à mulher negra

Apesar de obstáculos, físicas como Katemari Rosa e biomédicas como Jaqueline Goes se destacam no meio acadêmico brasileiro

Fui pedida em casamento pelo meu noivo, Thiago Thomé, em cima do trio elétrico da Timbalada durante o último Carnaval de Salvador. Ao anunciar o acontecimento, uma reportagem da mídia local informou que uma cientista baiana havia sido pedida em casamento por um ator global.

Entre os vários comentários da reportagem, o que mais me chamou atenção foi: “Ela não é cientista. É uma professora universitária, escritora e palestrante”.

Fiquei refletindo sobre as múltiplas camadas dessa afirmação e resolvi publicar um vídeo sobre o caráter positivista de entendimento da ciência na modernidade europeia, no processo de acumulação primitiva do capital, que estabeleceu bases lineares e hierárquicas a partir do tripé experimentação, tratamento matemático e desenvolvimento de uma teoria geral.

A biomédica baiana Jaqueline Goes de Jesus – Divulgação UFBA

Esses critérios colocaram a física à frente das ciências, e as ciências ditas exatas à frente das ciências humanas.

Contudo, por mais que, durante a minha formação, a dicotomia entre ciências laboratoriais de bancada e ciências humanas fosse criticada, eu não me localizava dentro desta tensão, visto que minhas aulas, pesquisa e livros transitam intelectualmente na interface e refletem o meu percurso científico: graduação em química, mestrado e doutorado em ensino de ciências, graduação em filosofia e pós-doutorado em educação.

Então, o que falaria mais forte diante da afirmação de que não sou cientista? Certamente o caráter racista e sexista ao negar a uma mulher negra o seu reconhecimento da condição de cientista.

Historicamente, a humanidade surgiu no África juntamente com as primeiras formas de constituição societária: reinos e impérios, filosofia, ciências, tecnologias, desenvolvimento político etc.

Contudo, temos acessado por muito tempo no Brasil, principalmente nas escolas, uma narrativa segundo a qual pessoas negras surgiram no mundo a partir do escravismo nas Américas e para serem “escravas”.

Esta última foi de base ontológica, destituindo pessoas negras de humanidade, retirando de nós todos os atributos do humano, dentre eles, a dimensão performática social no constructo do gênero, o que fez Sojourner Truth, abolicionista nascida nos Estados Unidos, indagar: “E eu? Não sou uma mulher?”.

Sendo a ciência uma construção intelectual, portanto, eminentemente humana e considerando que as pessoas negras são desumanizadas nesse processo social e histórico, chegou-se à conclusão —por um silogismo simples— de que pessoas negras não desenvolvem ciência, muito menos mulheres negras, pois são o outro do outro.

O outro do outro visto que somos duplamente alterizadas negativamente: o outro por sermos negras, o outro por sermos mulheres, afastando-nos ainda mais da noção de sujeito universal humano, historicamente constituída a partir de um entendimento racista, androcêntrico, ciscentrado, heteronormativo, etarista, capacitista, gordofóbico no imaginário coletivo.

Basta lembrar as imagens do “corpo humano” apresentadas nos livros de ciências.

Sim, eu sou uma cientista. As físicas Katemari Rosa, Sônia Guimarães e Zélia Ludwig também são, assim como as químicas Nicea Amauro, Denise Fungaro e Anna Benite, a bióloga Rosy Mary Isaías, a biomédica Jaqueline Goes e tantas outras mulheres negras no Brasil.

Anna Benite, professora de química da UFG (Universidade Federal de Goiás) – Pryscilla K. – 15.ago.2020/UOL

Entre as africanas, há a epidemiologista sul-africana Quarraisha Karim, a parasitologista congolesa Francine Ntoumi, a bióloga etíope Segenet Kelemu, a bióloga queniana Dorothy Nyingi e tantas outras. Mulheres que desenvolvem cotidianamente as ciências mundo afora e, por isso, são referências para a juventude rumo à construção de um outro mundo no qual a história seja mais plural, diversa e representativa de sua gente.

Neste mês pelos direitos das mulheres, queremos seguir lutando pelo direito de existir e de desenvolver nossas existências livres das opressões estruturais, que insistem em nos limitar e subalternizar em todas as áreas do desenvolvimento social, a exemplo do que acontece nas ciências.

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