Representatividade negra na literatura é instrumento de afirmação política

Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Djamila Ribeiro e outras tantas figuras endossam o panorama de produção literária

Por Diego Barbosa, no Diário do Nordeste

Conceição Evaristo. (Foto: Pablo Saborido/CLAUDIA)

 

Há um termo simultaneamente poético e forte para designar a escrita gestada a partir do cotidiano, das lembranças e da experiência de vida pessoal e de todo um povo: escrevivências. Quem o trouxe à vista foi a escritora mineira Conceição Evaristo – um dos nomes mais importantes e necessários da literatura brasileira contemporânea – exatamente para dar destaque aos sentimentos de toda ordem que atravessam a condição de ser afrodescendente no País que dividimos morada.

Ao singrar pelas páginas a costurar alegrias, emoções, gritos e sussurros de uma camada da sociedade ainda tão fortemente marginalizada, excluída e silenciada, a autora faz da arte um poderoso instrumento de luta contra o racismo e o machismo instalados no alicerce da população.

Um triste panorama a se considerar num território em que negras e negros são a maioria, conforme pesquisa divulgada em novembro do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nela, se constatou que o número de brasileiros que se autodeclararam pretos aumentou 14,9% entre os períodos de 2012 e 2016, resultando em uma nação de maior parte afro. Neste Dia da Consciência Negra, conferir relevo a iniciativas que prezam pelo respeito e afirmação da identidade de matriz africana neste solo, se faz, portanto, bastante imperativo.

De Cruz e Sousa (1861-1898) a Joel Rufino dos Santos, passando por Maria Firmina dos Reis (1825-1917) e Elisa Lucinda, a literatura que contempla o segmento é ampla e bebe de diferentes matrizes para alavancar significativas reflexões. Em comum entre elas: um cuidadoso trabalho com as palavras de modo a fazer com que o que foi escrito possa gerar engajamento. Configure-se, enfim, como afirmação política.

Inspirado por essa realidade, o Verso traz um apanhado de algumas das principais vozes no âmbito das letras nacionais e internacionais que fazem valer esse intento e injetam alta voltagem crítica nos textos que assinam.Carolina Maria de Jesus (1914-1977) integra esse time. Moradora da antiga favela do Canindé, em São Paulo, é conhecida pelos relatos em seu diário, reveladores de uma rotina miserável, de total degradação da mulher negra, pobre, mãe, escritora e favelada que era.

Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas – que, encarregado de fazer uma matéria na favela onde ela morava, acabou a conhecendo e percebeu o quanto Carolina tinha a dizer – é autora do livro “Quarto de despejo”, obra-referência para compreensão do Brasil indigesto em que vivemos, além de várias outras de semelhante amplitude e importância.

Militância

Outras potentes vozes se somam a Carolina Maria de Jesus e a inicialmente citada Conceição Evaristo para bradar força e ativismo afro. Figura que tem ganhado cada vez mais repercussão no País devido à publicação do livro “Quem tem medo do feminismo negro?”, Djamila Ribeiro é mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordena a coleção Feminismos Plurais, da Editora Letramento, pela qual lançou “O que é lugar de fala” (2017).

 

Feminista, filósofa e acadêmica paulistana, Djamila Ribeiro é referência no estudo sobre o ativismo negro. (Foto: Alex Batista/Revista GOL)

 

Na principal obra sob sua assinatura, ela se utiliza de nomes do porte de Sueli Carneiro, Alice Walker, Chaimamanda Ngozi Adichie e Bell Hooks para abordar temáticas como os limites da mobilização nas redes sociais, as políticas de cotas raciais e as origens do feminismo negro no Brasil e nos Estados Unidos. Um recorte bastante amplo do que acomete os tempos atuais, feito destacado pela pesquisadora Simone Ricco em artigo escrito por Vagner Amaro, fundador da Editora Malê – voltada para publicação de autores e autoras negros.

Segundo a estudiosa, “a gente quer falar de literatura brasileira, mas de um recorte dela, o que está sendo produzido na literatura nacional contemporânea e destacando a produção negra. E muitos não sabem o que está acontecendo, não conhecem os autores, não têm ideia de como é o texto e ficam presos, muitas vezes, associando a literatura negra a um texto mais panfletário e muitas vezes não é o que acontece. A militância ocorre de uma forma bem mais literária”.

Em voga

Já em outro âmbito, dos escritores estrangeiros outrora ofuscados que ganharam maior destaque no Brasil com a recente publicação de obras, James Baldwin (1924-1987) é um dos que merecem maior atenção. Personagem de renome da literatura americana do século XX, nasceu em Nova York e é autor de uma vasta e relevante obra de ficção e não-ficção.

Entre os assuntos abarcados pelo seu guarda-chuva, estão a luta racial e questões de sexualidade e identidade. “O quarto de Giovanni” e “Terra estranha” são as obras editadas recentemente em solo nacional, pela Companhia das Letras.

Já Toni Morrison nunca perde o pique de ser bem-vinda e comentada ao redor do globo por deixar como legado a vivência das negras norte-americanas ao longo dos séculos XIX e XX. Ela já venceu o Pulitzer e foi a primeira escritora negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1993, atestando o quão longe pode ir um tratamento esmerado sobre o genuinamente ser negro.

+ sobre o tema

Prêmio Abdias Nascimento será entregue dia 07 de novembro no Rio de Janeiro

A cerimônia de entrega do Prêmio Nacional Jornalista Abdias...

Haiti vê sinais de ‘estabilização’ em epidemia de cólera

O número de mortos devido ao cólera no Haiti...

Sons afro-brasileiros: Tiganá Santana faz show na Casa de Francisca

Cantor, filósofo e professor da Universidade Federal da Bahia, o...

Elza Soares, Maiara e Maraisa, Karol Conká e outras cantoras gravam manifesto feminista

A luta feminista foi amplificada por um time de peso. Elza Soares,...

para lembrar

“Dear White People” mira microagressões raciais e debate sobre liberdades

2º ano da série eleva o nível apresentado pela...

Juntos em DVD, rappers criticam o racismo e as barreiras culturais

A dupla comemora megalançamento dirigido por Andrucha Waddington, fala...

A Cidadania Negra

Bahia, últimas três décadas do século XIX. No bojo...
spot_imgspot_img

Coletivo Kukuru Itan realiza oficina gratuita de teatro de Nanã para idosos durante o mês de junho

Com a missão de valorizar a identificação de idosos racializados, sobretudo negros, o Coletivo Kukuru Itan criou a oficina de teatro de Nanã, que acontece durante o mês...

Brasileiro dirige único teatro negro da Alemanha

"Ainda tenho um milhão de coisas para fazer", diz Wagner Carvalho, diretor artístico do teatro Ballhaus Naunynstrasse em Berlim, poucas horas antes da estreia da noite. Wagner não...

‘Está começando a segunda parte do inferno’, diz líder quilombola do RS

"Está começando a segunda parte do inferno", com esta frase, Jamaica Machado, líder do Quilombo dos Machado, de Porto Alegre, resumiu, com certo desânimo, a nova...
-+=