quarta-feira, novembro 30, 2022
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Sargento da Marinha que matou Durval Filho é indiciado por homicídio culposo

Polícia entendeu que Aurélio Alves Bezerra não teve intenção de matar ao “confundir” a vítima com assaltante em condomínio no Rio. Acusação provoca protestos nas redes. “Racismo estrutural o matou e o racismo institucional absolveu seu assassino”

São Paulo – Manifestações de repúdio e pedidos de justiça tomaram as redes sociais nesta sexta-feira (4) com a repercussão do indiciamento do sargento da Marinha Aurélio Alves Bezerra, preso em flagrante nesta quinta (3) pelo assassinato de seu vizinho Durval Teófilo Filho. Ele foi acusado por homicídio culposo – quando não há intenção de matar – pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) do Rio de Janeiro. O que provocou revolta entre os internautas que emplacaram o termo “culposo” entre os assuntos mais comentados no Twitter, com mais de 8 mil menções – até o fechamento desta nota. 

O crime ocorreu na noite anterior, quarta (2), quando o repositor Durval, um homem negro, chegava em casa do trabalho, um condomínio onde morava há 12 anos em São Gonçalo, e foi alvejado com três disparos por Aurélio. Imagens de câmeras de segurança mostram que o repositor mexia na mochila, enquanto tentava abrir o portão, quando foi abordado pelo militar na entrada do condomínio. Na sequência, de dentro do carro, Aurélio efetua disparos contra a vítima e o atinge na barriga. Mesmo já ferido e avisando que era morador, o sargento desembarca do veículo e atira novamente, acertando o abdômen de Durval que já estava caído no chão. Um terceiro tiro é efetuado, mas não acerta o repositor.

Em depoimento, Aurélio alegou ter confundido Durval com um assaltante. A Delegacia de Homicídios entendeu, então, que o sargento da Marinha não teve intenção de matar.

‘Foi racismo’

“Ele atirou na vítima em reação a uma suposta tentativa de assalto, enquanto a mesma caminhava e mexia em sua mochila. Ao constatar seu erro, o acusado prestou imediato socorro a Durval, levou para um hospital, mas ele não resistiu”, comunicou em nota a Polícia Civil. A corporação também estipulou uma fiança no valor de R$ 120 mil a Aurélio que, segundo informações do UOL, permanece detido desde ontem.

indiciamento do sargento também não menciona o racismo, apontado pela família da vítima. Entre a dor da perda, parentes de Durval também se indignaram com acusação de falta de dolo. “O que aconteceu foi uma covardia, porque meu irmão era trabalhador. Meu irmão nunca encostou em nada de ninguém, ele sempre saiu de casa cedo. (…) Aí vai dizer que é legítima defesa? Não tem como, meu irmão não tinha arma, ele veio do trabalho”, defendeu Fabiana Teófilo, irmã de Durval, em entrevista à TV Globo

Durval deixou uma filha de 6 anos e a mulher, Luziane Teófilo, com quem era casado há 13 anos. “Vendo as câmeras, ouvindo a fala do delegado e pelo que os vizinhos estão falando, tenho certeza de que isso aconteceu porque ele é preto. Mesmo eles falando que ele era morador do condomínio, o vizinho não quis saber. Para mim, foi racismo sim”, afirmou a viúva da vítima ao veículo. 

Despreparo no uso de armas

A deputada estadual Renata Souza (Psol-RJ) também questionou o indiciamento de Aurélio por homicídio culposo. “Durval já estava alvejado e levou tiros já no chão. Não há intenção de matar? O racismo estrutural o matou e o racismo institucional absolveu seu assassino”, tuitou a parlamentar. O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) também destacou que o repositor “é mais uma vítima do racismo”. “Esse homem, trabalhador, honrado, foi assassinado porque o racismo construiu a mentalidade de que um negro parado é culpado. Sociedade doente”, lamentou. 

Internautas também apontaram que o crime contra Durval mostra o impacto de mais armas de fogo em circulação, um projeto defendido pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. “Um sargento da marinha, treinado, matou o vizinho pois achou que era um assaltante. Imagina o ‘cidadão de bem’ mal treinado e com acesso a arma”, contestou um internauta. 

O indiciamento de Aurélio Alves Bezerra ainda pode ser alterado em até 30 dias, após audiência de custódia ou se o delegado responsável pelo caso entender que o crime deve ser enquadrado como homicídio doloso, quando há intenção de matar.

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