Só o escárnio explica o Rio ter um candidato a prefeito que bate em mulher. Por Cidinha da Silva.

O caso de violência doméstica do deputado federal Pedro Paulo Teixeira contra sua ex-esposa, Alexandra Marcondes, teve mais um capítulo. Desta feita, veiculado em vídeo.

Por Cidinha da Silva, do DCM

pedro-paulo-600x286

Pedro Paulo, o candidato de Paes que bate em mulher. Foto: Reprodução/DCM

Alexandra, antes agredida, declarou-se agressora de Pedro Paulo.

Até chegar a este capítulo de fevereiro de 2016, a imprensa havia tornado público boletim de ocorrência feito por Alexandra, em 2010, dando conta de que fora agredida a socos e pontapés pelo ex-marido, após descobrir situação de infidelidade com outra mulher dentro da casa do casal.

A exposição levou Pedro Paulo à manjada estratégia de admitir o erro, a traição, confiante no beneplácito da opinião pública que perdoa as escapadas de homens jovens, tidos como bonitos e fogosos, como ele. Afinal, o povo é mais condescendente com os potrões do que com os cavalos velhos.

Pedro Paulo, entretanto, escorregou ao dizer que agrediu Alexandra uma vez só. E que atirasse a primeira pedra quem nunca se excedeu numa relação conjugal. Recurso usual para galvanizar o apoio dos homens.

A imprensa foi a campo novamente e descobriu outro boletim de ocorrência, com agressões datadas de 2008.

A agredida, Alexandra Marcondes, irritou-se com a publicidade do caso. Reclamou em entrevista que a filha estava sendo ridicularizada na escola (costuma ser comovente envolver as crianças no dramalhão, fazê-las sofrer com a atitude dos outros, não a dos pais) e ela mesma estava sendo prejudicada por uma questão “doméstica”. O caso estava superado. Que os deixassem seguir em paz.

Ocorre que, uma vez instaurado o processo, a Lei Maria da Penha garante que ele continue, mesmo que haja retirada da queixa.

Bem orientada por advogados e pelo ex-marido, interessado direto no encerramento da questão, Alexandra chegou a procurar o Ministério Público e mudou o que havia afirmado nos boletins de ocorrência. Alegou que nunca fora agredida e que a denúncia fora invencionice própria pautada pelo desespero da separação.

Jogou a cartada de que tudo é possível tendo em vista o imaginário machista que considera as mulheres como seres instáveis e insanos.

Nesse ínterim, houve parecer de legista independente demonstrando que Pedro Paulo teria agido em legítima defesa. E agora, pensam que nos enganam com as patéticas alegações de PP ao Ministério Público Federal pretendendo ter apenas reagido às agressões da ex-esposa. Para o casal só o adágio popular tipicamente carioca se aplica, “me engana que eu gosto”.

Está patente o desespero de Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, e de Pedro Paulo Teixeira, primeiro na linha sucessória que Paes pretendia ratificar na eleição municipal.

O pupilo precisa ser salvo a todo custo para cumprir o projeto do PMDB de Paes na cidade. Para tanto, lançam mão de expedientes corriqueiros entre políticos, militantes de partidos e da sociedade civil, empresários, professores universitários, sindicalistas, figuras masculinas agressoras e públicas, que é o de pressionar (às vezes negociar com) a mulher agredida pela redução de danos à imagem do agressor.

É possível que haja compensação financeira no caso dos endinheirados. Noutros casos, a culpabilização da mulher pela “destruição” de um quadro político promissor (também os consolidados) é a tática escolhida. Afinal, num momento de desespero, esses homens foram tragados pela pressão cotidiana do capitalismo, da polícia, do racismo, do classismo ou de qualquer outra ordem e desceram o braço na esposa. Essa culpa as fragiliza ainda mais.

A esposa é instada à compreensão, ao perdão, a não denúncia, à manutenção da integridade familiar, à renúncia de si mesma. A guarda dos filhos, os ilusórios cuidados com a psiquê deles,  tornam-se moeda de troca e instrumento opressor das mulheres.

A atitude de Alexandra, por sua vez, avilta a memória das mulheres que perderam a vida nas teias da violência doméstica. Vilipendia as mulheres que hoje denunciam seus algozes e por esse motivo correm risco de morte. Desrespeita todas as mulheres que entregam suas vidas à batalha pela garantia dos direitos da mulher.

Que exemplo Alexandra dá às meninas que a cercam? Que tipo de mensagem emite a filhas, sobrinhas, primas, amigas dessas garotas que frequentam sua casa? “Sejam submissas, gurias! Apanhem caladas como nos tempos da pedra lascada. Não deixem que o destempero dos maridos vaze para a polícia e ainda menos para a imprensa”.

E para os meninos? Filhos, sobrinhos, primos, amigos desses garotos que também frequentem sua casa? “Podem descer a ripa nas meninas e mulheres, meninos! Mulher gosta mesmo de apanhar. Vejam o meu caso. Me utilizem como exemplo para exigir das mulheres uma atitude pro-ativa de proteção à família e à reputação do patriarca”.

O que Alexandra Marcondes não sabe é que, diferentemente de Dona Ruth Cardoso que talvez tivesse acordos matrimoniais e de distensão conjugal com Fernando Henrique, aos quais nunca teremos acesso, os dela e de Pedro Paulo são escandalosamente decodificáveis e inaceitáveis.

Trata-se do velho modelo patriarcal de que, em nome da preservação da carreira política do marido e da situação patrimonial da família, a mulher se sujeita ao que for necessário e definido pelo macho. Tristes trópicos.

+ sobre o tema

O retorno do goleiro Bruno, entre a ressocialização e o cinismo

Atleta condenado pelo assassinato de Eliza Samudio é novamente...

Conectas cobra apuração rígida de mortes provocadas por ação da PM

Operação em Paraisópolis evidencia descaso da segurança pública com...

Pandemia amplia canais para denunciar violência doméstica e buscar ajuda

Entre as consequências mais graves do isolamento social, medida...

para lembrar

Mulher negra filma sua expulsão de loja Victoria’s Secret; assista

Suposto caso de preconceito racial ocorreu nos Estados Unidos A...

Taís Araújo usa as redes para celebrar o respeito à liberdade religiosa

No sábado, Taís Araújo foi às redes para relembrar...

Os novos crimes sexuais, por Silvia Chakian de Toledo Santos

Nova lei é um avanço, mas há que cuidar...
spot_imgspot_img

Cidinha da Silva e as urgências de Cronos em “Tecnologias Ancestrais de Produção de Infinitos”

Em outra oportunidade, dissemos que Cidinha da Silva é, assim como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, autora importante para entendermos o Brasil de hoje e...

“O Retorno” | Atlânticos em transe sob a lua de Luanda, por Cidinha da Silva. Ep.6

Minha irmã, tu não conhecerias Luanda se não tivesses passado pela corrupção institucional, te faltaria um pedaço importante de percepção desta terra de mártires...

Negra Li mostra fantasia deslumbrante para desfile da Vai-Vai em SP: ‘Muita emoção’

A escola de samba Vai-Vai está de volta ao Grupo Especial para o Carnaval 2024, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, neste sábado...
-+=