Explosão feminista: Heloisa Buarque de Hollanda faz mapeamento inédito dos novos feminismos em livro

Aos 79 anos, a socióloga Heloisa Buarque de Hollanda não para. “Sou uma feminista das antigas, da ‘terceira onda’, mas sempre atenta ao presente e, principalmente, ao futuro. E o futuro será feminista”, diz ela, num dia de verão em Búzios (RJ).

POR JULIANA SAYURI , da Revista Trip 

Rosto da sociologa Heloisa Buarque de Hollanda, 79 anos. Heloisa esta em uma sala com varios livros, na imagem seus cabelos estão soltos e a sociologa usa baton vermelho.
Socióloga Heloisa Buarque de Hollanda (Foto: Marcelo Correa)

Autora de mais de 45 livros e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a socióloga recentemente lançou Explosão feminista: arte, cultura, política e universidade. Em breve, publicará outros três títulos: Feminismo no Brasil – Textos Fundamentais e Pensamento Feminista – Fundamentos 1975-2015, que pretendem mapear as principais autoras feministas, e 25 Poetas, que apresenta autoras da poesia marginal, uma referência à sua clássica antologia 26 Poetas Hoje, organizada em 1976, durante a ditadura militar, e reeditada em 2007.

Heloisa coordena o Programa Avançado de Cultura Contemporânea na Federal do Rio, onde desenvolve os projetos Universidade das Quebradas e Laboratório da Palavra. Rodeada por jovens acadêmicas no campus, ela se impressionacom a efervescência do movimento feminista desde 2013 – e, intrigada, foi ouvi-las: pediu para suas orientandas apresentarem suas amigas feministas jovens. “Foi como tomar café com minhas netas. Ouvir suas experiências, expectativas. Foi um longo exercício de escuta”, define a socióloga.

Capa do livro (Divulgação)

Desses encontros surgiu a ideia do “livro-ocupação” Explosão feminista. “Na minha época, o feminismo que vivi era diferente, acadêmico, com estrutura e hierarquia. O feminismo atual é um movimento horizontal, performático, com ocupações das ruas e das redes. É coletivo, compartilhado, ligado pelo afeto, sem lideranças claras nem protagonismos. Essas meninas dominaram a ferramenta da tecnologia, a internet, e conseguiram se fazer ouvir. Elas conseguiram fazer outros ouvirem, por exemplo, que ‘não é não’”, argumenta. “Durante mais de um ano, eu, uma velha professora, sentei para conversar e aprender com essas eletrizantes jovens. A ideia [do livro] era justamente dar voz a elas, contribuir para dar legitimidade à importância de suas intervenções. Daí a proposta de ‘livro-ocupação’”, diz a autora. “Sempre trabalhei para contribuir com a aproximação entre teoria e prática, um tipo de suporte ‘teórico-ativista’”, afirma.

Explosão feminista traz um formato inovador para traçar um panorama da quarta onda feminista: primeiro, reúne uma série de artigos assinados por Heloisa em coautoria com acadêmicas, artistas e ativistas (entre elas, a escritora Antonia Pellegrino, curadora do blog #AgoraÉQueSãoElas, no jornal Folha de S.Paulo); depois, capítulos assinados apenas por lideranças de movimentos; por fim, memórias de “veteranas” (como a historiadora Bila Sorj, a filósofa Sueli Carneiro e a socióloga Jacqueline Pitanguy). Ao longo de suas 536 páginas, o livro também traz entrevistas (da antropóloga indígena Sandra Benites – Ará Reté, por exemplo), e citações de muitas mulheres (Giovana Xavier, Laura Erber, Lilia Moritz Schwarcz, Rafaela Albergaria e Tatiana Roque, entre outras). Nas primeiras páginas estão elencadas as mulheres que, direta ou indiretamente, contribuíram para o projeto – são mais de 150 assinaturas.

Simples não foi. Segundo Heloisa lembra, os capítulos iam e voltavam diversas vezes entre as autoras, escritos e editados a muitas mãos, de gerações diferentes. “Foi um trabalho do diabo, absurdo. Escrever junto é infernal, mas é lindo. E, para mim, era um livro urgente. Desde 2013, o feminismo foi o único movimento progressista a avançar consideravelmente. Só não contava com um desdobramento: as eleições. Quer dizer, foi um registro importante do presente, mas que mira o futuro: diante do novo governo, e a cruzada contra a chamada ‘ideologia de gênero’, o que vem agora?”

Quarta onda

Ao lado das coautoras, Heloisa radiografara novos feminismos num contexto pós-jornadas de junho de 2013, perpassando as irrupções da primavera feminista de 2015, a greve geral internacional 8M de 2017, a morte de Marielle Franco, as trajetória de hashtags (como #PrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto e #NãoMereçoSerEstuprada).

A autora se identifica como uma feminista da “terceira onda” (sendo a primeira marcada entre o fim do século 19 e meados do século 20, e a segunda da década de 1950 à de 1990), época de um “boom teórico” com autoras como as filósofas americanas Judith Butler e Donna Haraway, a crítica literária indiana Gayatri Spivak e a antropóloga americana Gayle Rubin.

Na década de 1980, enquanto estava no pós-doutorado em sociologia da cultura na Universidade Columbia, em Nova York, Heloisa viu de perto o impacto do lançamento de livros como Women, Race & Class, de Angela Davis, e This Bridge Called my Back: Writings by Radical, de Cherríe Moraga e Gloria Anzaldúa, que marcaram referências para a terceira onda. A novidade da atual quarta onda é o novo gás do feminismo entre as novas gerações, sua articulação mais horizontal e seu domínio das redes sociais – segundo a socióloga, a maré trouxe pensadoras como a filósofa negra Djamila Ribeiro, a filósofa trans Helena Vieira e a jornalista Roseane Borges.

Uma das inspirações para o livro, diz a organizadora na introdução, foi a artista e dramaturga mineira Grace Passô que, segundo suas palavras, ativa “o sentimento, o desejo, a revolta, a garra e a criatividade deste momento”. A partir dos versos de Grace, Heloísa vê o diferencial das novas “minas”: “Historinhas eu tenho mil, poderia contar várias, mas não é isso que importa. Importa se ressoa, importa se te importa, se me exporta para ti, leitor, importa se me ouve, se me escuta, se move tuas batidas, se acelera, se retarda”.

Neste embalo, a socióloga abriu uma série de capítulos para discutir interseccionalidade, destacando, entre outros, o feminismo negro (por Stephanie Ribeiro), o feminismo asiático (por Caroline Ricca Lee, Gabriela Akemi Shimabuko e Lais Miwa Higa) e o transfeminismo (por Helena Vieira e Bia Pagliarini Bagagli). Ao lado da pesquisadora Raffaella Fernandez, convidou integrantes dos movimentos feministas “de várias cores, crenças e gêneros para assumir seu ‘lugar de fala’”.

“Digo no livro: sou uma velha professora, tenho 79 anos, sou mulher, cis, branca. Este é o meu lugar de fala. Palavras expressam ideias. Se hoje ouvimos no cotidiano palavras-chaves como ‘empoderamento’ e ‘sororidade’, é porque elas entraram no léxico. Estão em todos os lugares, não só nos círculos de acadêmicas e ativistas. Há quem diga que invocar o ‘lugar de fala’ limita discussões, mas, na minha opinião, a resposta forte do feminismo atual faz parte de um contexto de silenciamento histórico. Mulheres negras e indígenas, por exemplo, por muito tempo foram silenciadas. Então, agora, elas estão certas ao vir com o pé na porta mesmo e, se for preciso, dizer ‘olha, branquela, escuta o que eu tenho a dizer’”, afirma.

Com voz rouca, marcada por um sonoro sotaque carioca, Heloisa diz que está velha. A autora está viva e, como indica sua produção atual, segue ativa e feminista. Sobre qual mensagem ela gostaria de deixar para leitoras e leitores, ela responde: “Para elas, a hora é de vocês. Para eles, a participação de vocês é imprescindível. Afinal, a gente não quer dominar ninguém. A gente quer mudar o mundo”, arremata.

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