Não é feminista nem anti-capitalista e anti-patriarcal se é racista, xenofóbica, transfóbica e não questiona seus privilégios

O evento Encontro Latino Americano de Feminismos foi marcado por inúmeros episódios racistas, xenofóbicos e transfóbicos

*Por Denise Braz do Revista Amazonas para o Portal Geledés

Grupo de mulheres do 4ª edição do Encontro Latino Americano de Feminismos (ELLA).
Foto: Arquivo da Comissão Organizadora do Dia 8 de Novembro

Foi realizada de 7 a 10 de dezembro de 2018 em La Plata, Argentina, a 4ª edição do Encontro Latino Americano de Feminismos (ELLA).

O evento contou com a participação de muitas mulheres do meio político, artistas e ativistas de várias partes de América Latina e Caribe. Foram, aproximadamente, mais de 21 países participantes e mais de 150 atividades.

O encontro teve tudo para fechar o ano com “chave de ouro”, depois de tantas conquistas do feminismo argentino.

As companheiras de outros países estavam ansiosas para saber mais sobre a luta a favor da descriminalização do aborto, que em breve esperamos que seja lei, e compartir suas vivências.

Porém, o evento foi marcado por inúmeros episódios racistas, de xenofobia e de transfobia.

Marcha de Mulheres em La Plata
Encontro Nacional de Mulheres em Trelew – Foto: Denise Braz

Episódios similares aconteceram no último Encontro Nacional de Mulheres em Trelew realizado nos dias 13, 14 e 15 de outubro do mesmo ano.

Um espaço feminista deveria ser um ambiente no qual os corpos de todxs as mulheres pudessem usufruir de total liberdade, tendo em conta que o objetivo é para praticar a sororidade, a solidariedade e o afeto.

Um espaço onde todxs deveríamos ser sem nenhum problema. Mas, não foi o que muitas companheiras experimentaram nos encontros e nas marchas feministas deste ano.

No ELLA, ao final das várias “rondas” de debate no evento, tive a oportunidade de ser a “detonadora” de um desses debates que se chamou “A solidão da Mulher afro”.

Este espaço trouxe a luz muitas das práticas racistas que as companheiras sofreram durante o encontro, tais como: tocar, sem permissão (obvio), o cabelo ou a pele.

Muitas mulheres negras foram fotografadas com a desculpa de que eram “exóticas”. O caso mais grave foi de um vídeo que uma feminista, branca, fez. Ela gravou uma companheira afro tomando banho. Segundo a companheira, durante a gravação lhe dizia: “olha que negra! que cor, que bunda!” entre outras cosas que não vem ao caso mencioná-las.

Até o momento, não temos certeza se o vídeo foi apagado como a companheira havia exigido nesse momento. Queremos acreditar que sim.

Nas conclusões do último dia do evento as negras gritaram “chega de racismo e xenofobia dentro do movimento!

CHEGA! Não necessitamos de “quotas” no feminismo! Respeitem nossos corpos e nossas vozes!”

Encontro Nacional de Mulheres em Trelew as mulheres negras participaram por terceiro ano consecutivo no espaço “Mulheres Afrodescendente” e durante o evento também passamos por casos similares de violência étnico-racial.

“Vocês estão aqui para dançar?” perguntaram a uma companheira enquanto tomávamos mate na praça.

“Onde estão os tambores?” perguntaram a outra companheira no decorrer da marcha. Ao longo do encontro, a maioria das feministas se irritava conosco quando intentávamos explicar o porquê que não gostávamos das fotografias (estereotipadas e hiperssexualizadas) e menos ainda que nos tocassem.

Poucas tiveram a humildade de escutar e aprender. Obviamente, nem todas as participantes reproduziram este tipo de práticas.

Mas, considero que o silêncio e/ou a não reação, além de naturalizar o ato, é igualmente violento.

“Não basta não ser racista, é necessário ser antirracista” como nos alerta a Ângela Davis. No evento “Ferro” realizado este ano mesmo pela CLACSO, em novembro de 2018 em Buenos Aires, Argentina, a doutora Nilma Nilo Gomes (ex Ministra durante governo de Dilma Rousseff) disse: “não há como uma pessoa se considerar anticapitalista, se é racista ou machista”.

Djamila Ribeiro, atualmente uns dos nomes mais respeitados do feminismo negro no Brasil, argumenta na entrevista “O que é feminismo interseccional?” (disponível no Youtube) sobre a importância de pensar os movimentos feministas considerando às várias opressões que cruzam a vida das mulheres, especialmente, as das mulheres historicamente silenciadas e oprimidas como é o caso das afrodescendentes, das indígenas e agrego nesta reflexão as mulheres trans.

Bell Hooks no seu livro “O feminismo é para todo o mundo” critica o feminismo branco que enfatiza os estudos de gênero e de classe, como os únicos pontos de suas lutas, e não analisa o impacto que tem o concepto de raça e consequentemente o racismo dentro do feminismo.

É de suma importância que o feminismo branco argentino, especialmente os que têm grande convocatória e acesso à comunicação, conheça sobre a história afroargentina e afro-latinoamericana para que não escutemos mais expressões como: “pensei que só no Brasil havia negros”.

É importante também desconstruir a ideia de que “na Argentina são todxs brancos”. As diversas agrupações feministas devem começar a reflexionar sobre privilégio branco, sobre dar voz e não falar por, sobre interserccionalidade, entre tantos outros temas.

Termino este texto retomando a pertinente pergunta de Sojourner Truth às feministas brancas em uns de seus discursos mais brilhantes pronunciado em 1851 numa convenção feminista: “Eu não sou uma mulher?”.

Afinal, nossxs corpos são igualmente importantes? Por que para nós, mulheres negras, indígenas e transexuais, não há marchas enormes e Hashtags? Por que nossxs corpos não conseguem a mesma comoção nem dentro do feminismo?

Este texto, mais que uma denuncia às práticas racistas naturalizadas até mesmo nos espaços feministas, é também uma provocação, é acima de tudo um chamado aos grupos feministas branco a reflexionar seu lugar de poder na arena de disputa pelos direitos, que deveriam incluir também nossas demandas.

Estamos abertas ao diálogo e a construção de um feminismo urgentemente antirracista, descolonizado e anti-xenofóbico. Vocês estariam abertas a escutar nossas realidades?

Respeitarão nosso lugar de fala?

O feminismo branco argentino lutará por um feminismo plural e interseccional ou continuará sendo “colonialista moderno?

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BRAZ, Denise. “No sos feminista, tampoco anticapitalista y antipatriarcal si sos racista, xenofóbica, transfóbica y no cuestiona sus privilegios.” Revista Amazonas, Enero, 2019.  

* Denise Braz, licenciada em Letras, mestre em Antropologia Social. É ativista e feminista afro. Participa da área de gênero da Comissão Organizadora do Dia 8 de Novembro, do Coletivo Passarinho e da Revista Amazonas. (e-mail: [email protected]).

Publicações:
– BRAZ, Denise Luciana de Fátima. “ONDE ESTÃO OS NEGROS NA ARGENTINA?” Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S.l.], v. 10, p. 363-374, jan. 2018. ISSN 2177-2770. Disponible:<http://abpnrevista.org.br/revista/index.php/revistaabpn1/article/view/544

– ANNECCHIARICO, Milena, BRAZ, Denise, GAYLES, Prisca and GHOGOMU, Diane. “ARGENTINA IS BLACK, TOO. REIMAGINING THE MAKINGS OF A NATION”. In: Sounds and Colours Argentina, Año: 2016; p. 135 – 142.

– BRAZ, Denise y STAMATO, Bruna. “Sobre o Encontro de Mulheres Negras do Cone Sul na Argentina” Revista Geledés: Instituto da Mulher Negra, Fevereiro, 2018. Disponible en: https://www.geledes.org.br/sobre-o-encontro-de-mulheres-negras-do-cone-sul-na-argentina/


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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