quinta-feira, setembro 16, 2021
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Exposição presta homenagem a Sueli Carneiro no Itaú Cultural

Uma das mais respeitadas ativistas negras do Brasil, Sueli é considerada mestra por inúmeras mulheres negras no País e na América Latina

Era uma noite de segunda-feira, 21 de outubro de 2019, quando a filósofa americana Angela Davis falou a uma plateia atenta de 15 mil pessoas sentadas no gramado do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A ativista americana, uma das mais respeitadas feministas negras do mundo, sublinhou em seu discurso que o Brasil deveria reverenciar e conhecer suas próprias ativistas negras, mencionando Sueli Carneiro. Naquela noite, a repórter, que conhece Sueli Carneiro há mais de 20 anos, ficou pensando se aqueles milhares de pessoas, em especial as jovens negras, muitas delas cotistas, estariam a par da relevância da obra da filósofa e educadora, que é certamente uma das maiores pensadoras e combatentes do racismo e sexismo que o Brasil já produziu. Agora, aos 71 anos, a obra e vida de Sueli são homenageadas na exposição Ocupação Sueli Carneiro no Itaú Cultural, em São Paulo.

Tronco do baobá representa as raízes africanas e as folhas em escamas, o ensinamento de Sueli (Foto: Itaú Cultural)

Logo na abertura da Ocupação Sueli Carneiro, que estreou no sábado, 28, e fica em cartaz até 31 de outubro, em meio às plantas de que ela tanto gosta, está uma espada de Ogum das águas, com um colar verde do orixá. A escultura feita para o evento sintetiza um pouco o espírito de Sueli: alguém que usa bravamente palavras como espadas, abrindo caminhos para outras gerações. Assim como sua antecessora Lélia González foi sua primeira fonte de inspiração, Sueli é considerada mestra por inúmeras mulheres negras no País e na América Latina.

Avessa a entrevistas e microfones, Aparecida Sueli Carneiro, nascida em 24 de junho de 1950, em São Paulo, tem fama de mulher brava, mas, ao mesmo tempo, de ser generosa. Ela já distribuiu bronca em muita gente, inclusive na então jovem filósofa e escritora Djamila Ribeiro, a quem aconselhou a se preocupar menos com as discussões na internet e estudar mais. “Você tem muito potencial para perder tempo com as pessoas que querem encher seu saco, tá escutando?”, relembra Djamila. A autora do best-seller Pequeno Manual Antirracista destaca que “ela construiu epistemologias fundamentais para o Brasil”. Djamila é responsável pelo Selo Sueli Carneiro, que lançou, em 2018, o livro Escritos de uma Vida – uma coletânea de textos de Sueli que aponta para a condição de asfixia social das mulheres negras em razão das questões de gênero e raça.

No discurso de abertura da exposição, Sueli fez as pessoas rirem ao chamar de “jornalista intrometida” outra mulher negra a quem passa o bastão: Bianca Santana, autora de sua biografia Continuo Preta – A Vida de Sueli Carneiro. O título da biografia, lançada neste ano, se refere a uma entrevista que Sueli concedeu em 2000 à revista Caros Amigos numa clara indicação de que a esquerda, na visão da ativista, não seria quem definiria o rumo do movimento negro. Bianca, ao lado da filha de Sueli, Luanda Carneiro Jacoel, da sobrinha Natália Carneiro, e de Ana Letícia Silva, também é responsável pela Casa Sueli Carneiro, um sobrado no bairro do Butantã, em São Paulo, onde morou a filósofa e que hoje abriga seu acervo.

Fundadora do Geledés, Sueli Carneiro está há quatro décadas no combate ao racismo e sexismo (Foto: Silvana Garzaro/Estadão)

A Ocupação Sueli Carneiro, de certa forma, é um recorte sensitivo de sua biografia, com cheiros das ervas, fotos da família, depoimentos gravados de ativistas e frases emblemáticas da filósofa. “Vejo essa exposição de maneira inusitada, diante do horizonte do que aconteceu com outros ativistas, como Lélia González e Abdias do Nascimento”, afirma Sueli Carneiro ao Estadão, ao indicar que os dois não foram devidamente reconhecidos em vida. Sueli mais uma vez aponta para a necessidade de o País conhecer a história de homens e mulheres negras. 

Ao andar pela exposição, a filósofa se encanta com o baobá estilizado fincado no centro, uma referência explícita às suas raízes africanas, com escamas brancas de peixe como folhas ao vento numa representação alegórica de seus ensinamentos. “Não é lindo?”, ela pergunta ao tocar as escamas. Sua fala no vídeo ecoa pela sala em forma de oca. 

Além da compilação de textos de Escritos de Uma Vida, Sueli escreveu Mulher Negra: Política Governamental e a Mulher, de 1985, em parceria com Thereza Santos e Albertina de Oliveira Costa, obra que inaugurou uma nova área de estudos. É dela também Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil, lançado em 2011. 

Ao Estadão, Sueli confessa que sempre escreveu “com um sentido de emergência” em busca de um mundo mais igualitário, antirracista. Apesar de nunca ter sido membro do Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978, sua trajetória se confunde com a própria luta contra o racismo no Brasil. “Conhecer a obra da Sueli Carneiro é conhecer a história do Brasil a partir de uma perspectiva muitas vezes escondida, apagada, negligenciada, que a é a história do movimento negro, a história das mulheres negras”, afirma Bianca Santana ao Estadão.

Em 1988, com outras nove companheiras de luta, Sueli fundou Geledés – Instituto da Mulher Negra, a organização pela qual coloca em prática suas ações, sempre de forma coletiva, com sua visão de filósofa e militante negra. Ainda em 1998, Sueli foi convidada a integrar o Conselho Nacional da Condição Feminina, em Brasília. No Geledés, ela ajudou a criar programas relevantes de Direitos Humanos, o SOS Racismo de atendimento às vítimas de racismo, o Projeto Rappers, onde os jovens são agentes de denúncia e também multiplicadores da consciência de cidadania, e o Geração XXI, pioneiro no País na formação educacional e política de jovens negros.

Ao longo de sua vida, Sueli acumulou vários prêmios, como Kalman Silvert (2021), Vladimir Herzog (2020), Itaú Cultural 30 Anos (2017) e Direitos Humanos da República Francesa. Sua ação também ganhou escopo internacional. A ativista teve participação direta na agenda de Durban, documento oriundo da III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e as Formas Conexas de Intolerância, que aconteceu na cidade sul-africana, em 2001. Entre as consequências desta agenda para o Brasil, estão as políticas de ações afirmativas nas universidades. Agora, no mês de agosto, o Centro de Documentação e Memória Institucional do Geledés publicou o livro Brasil e Durban – 20 Anos Depois, elaborado pelo pesquisador Iradj Eghrari, na intenção de não só recuperar a agenda de Durban, mas de avançar no sonho libertário em direção a uma nação antirracista. 

Neste sentido, o educador Douglas Belchior, da Uneafro, ressalta a importância de se entender a trajetória de Sueli Carneiro. “A exposição é essencial para a virada de página que o País precisa fazer em relação à questão racial, acúmulos de experiência para um Brasil que reconheça e seja mais justo com a metade de sua população, a negra, e que tem em Sueli um farol.” 

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