Mães-meninas

O direito mais desrespeitado é o de não engravidar: faltam informação e instrução

Por Flávia Oliveira Do O Globo

Foto: Marta Azevedo

Quando você, leitor, passar os olhos pelas linhas iniciais desse artigo, estará fazendo 48 horas que Ana Vitória, 15 anos, deu à luz Miguel. Mais uma criança deixará o Hospital da Mulher Heloneida Studart, em São João de Meriti, nos braços de outra. Uma nova família vai engrossar as estatísticas nacionais sobre gravidez precoce. A Síntese de Indicadores Sociais, do IBGE, informa que 11% das adolescentes brasileiras (15 a 19 anos) tinham um ou mais filhos em 2014. Apenas na unidade de saúde da Baixada Fluminense, são 80 partos de meninas de 12 a 18 anos por mês; 30 são mães antes dos 15 anos.

Muito já se falou e escreveu sobre a combinação nefasta de fatores que explicam a alta incidência de gravidez na adolescência no país. Faltam informação e instrução. Ainda segundo o IBGE, só 14% das mães-meninas completaram o ensino médio ou foram além na escola. Sobram pressões culturais e religiosas. De quebra, pobreza e desestruturação familiar turvam o horizonte de sonhos juvenis e acabam por antecipar a vida adulta. Seis em cada dez mães adolescentes não estudam nem têm trabalho remunerado; 92% se dedicam aos afazeres domésticos.

O debate sobre mais essa mazela brasileira tem se concentrado nas razões subjetivas, todas com resolução de longo prazo. De lado, fica um par de motivos que poderiam fazer diferença antes: a escassez de métodos contraceptivos de longa duração e a capacitação inadequada de profissionais de saúde. De um lado, não há oferta (ou ela é insuficiente) de DIU, SIU e implantes na rede pública. De outro, residentes médicos sequer aprendem a instalar os dispositivos; ginecologistas e obstetras se expressam de modo incompreensível para as pacientes. Esses dois eixos deram o tom na apresentação de Carolina Sales Vieiras, professora da USP-Ribeirão Preto e uma das grandes especialistas do país em reprodução humana e contracepção, a um grupo de profissionais do Hospital da Mulher, autoridades e representantes do movimento social, na manhã da última terça.

A médica deslocou o eixo de reflexão sobre gravidez na adolescência ao apresentar um punhado de informações sobre o desejo de ser mãe. No Brasil, 55% das mulheres engravidam sem querer; entre as adolescentes, a proporção mundo afora varia de 80% a 90%. “Há muita discussão sobre liberação do aborto, mas vemos que o direito mais desrespeitado é o de não engravidar. Mulheres e jovens engravidam sem querer, porque não têm informação nem acesso a métodos seguros de contracepção. Seria melhor e mais barato agir para evitar a gravidez do que recorrer ao aborto ou ter bebês em abrigos”, disparou Carolina. Ela estima que o Brasil gasta por ano R$ 4,1 bilhões com gestações indesejadas, ao custo unitário de R$ 2.293. Um implante custa no varejo cerca de R$ 1.100.

Diretora-clínica do Hospital da Mulher, Ana Teresa Derraik informou que oito em cada dez gestações atendidas na unidade foram indesejadas, segundo questionário respondido por todas as grávidas. É sinal óbvio de que falta orientação sobre planejamento reprodutivo, sem falar no uso maciço e ineficiente de métodos de curta duração, como pílula, camisinha, tabela e coito interrompido, em detrimento de opções mais seguras. Com aval do diretor-geral da unidade, Helton Setta, ela criou um projeto-piloto de orientação e prevenção da gravidez na adolescência. Procurou o Ciep Lima Barreto, vizinho ao hospital, e consultou a direção sobre número de alunas que engravidaram. De mil estudantes de 12 a 18 anos, 37 engravidaram em 2015; na escola da filha, na Zona Sul carioca, com o mesmo perfil etário, nenhuma gravidez.

As mulheres engravidam sem querer, principalmente adolescentes e jovens em situação de risco, e acabam buscando métodos escusos para interromper a gestação. Não por acaso, meninas de 15 a 17 anos são predominantes nas estatísticas de mortalidade materna. “O custo médico é alto. O custo social também. Chega a 80% o índice de evasão escolar das adolescentes grávidas. Temos de promover métodos contraceptivos que combinem adesão e eficácia. Se a mulher lembra, ótimo, pode insistir com a pílula. Mas se esquece, precisa de outro método”, defendeu.

A equipe do hospital abriu inscrições para uma roda de conversa com alunas do Ciep sobre gravidez, contracepção, sexualidade, abuso. Previu 50 participantes; 73 jovens de 14 a 18 anos se inscreveram. Vinte delas foram à unidade de saúde para consultas e um conjunto de exames, entre os quais o preventivo e testes de doenças sexualmente transmissíveis. Quinze moças se interessaram pelo implante do hormônio etonogestrel, que inibe a gravidez por três anos. O hospital já conseguiu dez kits. Faltam cinco. O secretário estadual de Saúde, Luiz Antonio de Souza Teixeira Junior, que esteve na apresentação de Carolina Vieira, encomendou projeto de prevenção da gravidez na adolescência e prometeu comprar mil kits do método de longa duração. Pode ser o embrião de uma nova política pública.

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