quinta-feira, setembro 16, 2021

Morrendo de Brasil

Quando Artur Xexéo nos deixou na noite do último domingo, achei aquele seria o único, inaceitável e avassalador luto da semana. Mas, no último dia, junho também nos tirou Januário Garcia. Em três dias, perdemos dois homens que viveram de recolher, guardar e distribuir conhecimentos, um em texto, outro em imagem. Xexéo, 69 anos, era um cronista do Rio de Janeiro, dramaturgo e roteirista, memória do teatro, da música, da TV, do cinema. Januário, 77, foi um gigante da fotografia brasileira, certamente o que, no último meio século, mais e melhor registrou o movimento negro e personalidades afro-brasileiras, da arte à política, da cultura à religião.

Nas últimas mensagens que troquei com Xexéo, velho companheiro do GLOBO e há mais de década parceiro de bancada na GloboNews, ele reclamava de febre baixa e persistente. E de cansaço. Sucumbiu a complicações cardíacas, apenas duas semanas depois de ser diagnosticado com um linfoma, que começava a tratar. Januário, internado com problemas gastrointestinais, contraiu Covid-19 no hospital e não resistiu. Duas tragédias separadas por três dias e carregadas do espírito do tempo. No ano e meio em que tentamos nos proteger da pandemia, sobram cansaço e mal-estar. A exaustão cotidiana pode ser nosso corpo adoecendo, mas é certamente o país nos consumindo. Xexéo e Januário também morreram de Brasil.

Nos meses de confinamento, Xexéo escreveu uma peça e um projeto de série para TV, fez entrevistas para um livro sobre Gilberto Braga, craque da teledramaturgia, estudou italiano, pesquisou na Hemeroteca Digital, leu a biografia de Domingos Oliveira. “Nunca trabalhei tanto na minha vida”, me contou. Tudo isso, tendo feito muitíssimo: das colunas de jornal aos comentários na TV, de roteiros de TV (caso de “Pé na cova”, parceria com Miguel Falabella) à versão em português das canções de “A cor púrpura — O musical”.

Januário Garcia deixou um acervo de mais de 100 mil fotos, documentos e histórias. “Na minha geração, ninguém vai poder falar que o negro não tem memória, porque vai ter. Eu vou fazer essa memória”, prometeu. E cumpriu. Não perdia uma ocasião, um ato de organizações do movimento negro. Registrou, com beleza, verdade e altivez, anônimos e famosos, entre os quais Abdias do Nascimento, Mãe Stella de Oxóssi e Joaquim Barbosa. Tem capítulo também na história da MPB por assinar algumas das mais emblemáticas capas da discografia nacional, a começar por “Alucinação” (1976) e “A arte negra” (1980), álbuns históricos de Belchior e dos mestres Nei Lopes e Wilson Moreira, respectivamente.

Um ano atrás, começou a postar em perfil no Instagram imagens e histórias de seus trabalhos icônicos. Contou da aventura que foi a capa do LP “Urubu” (1976), de Tom Jobim. É que o maestro não queria um urubu qualquer, mas um camiranga, conhecido como urubu-de-cabeça-vermelha. Uma foto de Dona Canô acarinhando os cabelos de Caetano Veloso foi parar na capa de “Muito” (1978). Fotografou Leci Brandão para três capas, Tim Maia para duas, assim como Chico Buarque e Raul Seixas. Filó Filho, idealizador e diretor do canal “Cultne”, o maior acervo digital de cultura negra brasileira, preparava para este mês a exibição de uma entrevista inédita, gravada em 1978, de Januário com Beatriz Nascimento, historiadora, professora, escritora e ativista negra, morta aos 52 anos em 1995.

Quase 520 mil brasileiros já perderam a vida pela Covid-19. Inestimáveis são os que perdemos indiretamente pela distância, pela melancolia, pelo adoecimento que não notamos, pela desgraça de testemunhar o país se desfazendo, a democracia em frangalhos, a Saúde saqueada — basta assistir a um dia de CPI. Há quase 15 milhões sem trabalho e renda; 6 milhões desistiram de procurar ocupação por falta de oportunidade. A pandemia e o desgoverno estão aniquilando a capacidade produtiva e a alegria de um país inteiro. Memórias e projetos sendo sepultados com gigantes como Januário e Xexéo, Laíla, o maior diretor de carnaval de todos, Ubirany, integrante do Grupo Fundo de Quintal e inventor do repique de mão, Aldir Blanc, compositor e escritor, poeta da MPB.

O Brasil se entristece e míngua. Não há mais como aguentar o escárnio, o desrespeito, a doença, o luto, a dor. Não é por acaso que a popularidade de Jair Bolsonaro derreteu; e que esquerda, direita e organizações da sociedade civil protocolaram o superpedido de impeachment com 23 crimes de responsabilidade identificados. Estamos reféns de um espetáculo dantesco, patrocinado por um presidente da República que, se não for superado, vai nos matar.

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