Mulheres negras urgem empoderamento feminino e lutam contra racismo pela música

Kmila CDD, Mc Soffia, Luana Hansen e Karla da Silva são símbolos expressivos do emponderamento feminino na cena musical brasileira

Por Larissa Santiago , iG São Paulo

 

Você já deve ter ouvido sobre a importância do emponderamento feminino e representatividade de artistas negras no cenário brasileiro, mas, o que isso realmente significa? Qual o espaço que as mulheres ocupam dentro da indústria musical? Uma forma de entender a importância da representatividade das artistas femininas é entender  contra o que elas lutam, ouvi-las e observar o atual contexto da música brasileira.

Reprodução Instagram/iG Arte

Kamila CDD, Mc Soffia e Karla da Silva são representantes do emponderamento feminino na cena musical brasileira

 

 

Olhando um pouco para fora de casa, mais precisamente para a mina de ouro norte-americana, vemos que grandes artistas – e negras – como Beyoncé, Rihanna, Nicki Minaj e SZA são representantes do emponderamento feminino . Essas, inclusive, estão na lista das top 10 #BlackGirlMagic do Spotify , celebrando o poder, resiliência e beleza da mulher negra. Porém, o que chama atenção é a lista das 10 artistas femininas mais ouvidas na plataforma ao redor do mundo, em que apenas 3 artistas são negras: Beyoncé (1), Rihanna (4) e Nicki Minaj (10).

Nova aliada

Se antes o que contava para um artista era a quantidade de CDs vendidos ou o espaço que ele tinha nas rádios, hoje, as plataformas de streaming e as redes sociais são o que colaboram para que artistas, como Kmila CDD , conquistem seu espaço na cena musical.

A primeira vez que Kmila CDD subiu num palco foi em 1992, ao lado do irmão, o rapper MV Bill, e de lá para cá, busca conquistar seu próprio espaço, encontrando nas plataformas digitais uma nova forma de abrir caminhos: “Não é fácil conquistar espaço, principalmente na grande mídia como TVs e rádios FM’s. Por isso, atualmente a nossa maior força são os nossos seguidores, amigos e fãs, que fazem da internet e das redes sociais o nosso principal canal de comunicação e disseminação da nossa arte, no meu caso, das minhas músicas”.

Reprodução / Instagram

Kmila CDD apresenta seu primeiro EP de trabalho “Preta Cabulosa”

Porém, isso não quer dizer que o caminho nas redes sociais está sendo fácil. Fazendo um paralelo entre os irmãos, a rapper Kmila CDD tem 32,1mil seguidores no Instagram , 119 inscritos no Youtube e 5.958 ouvintes mensais no Spotify com seu primeiro EP “Preta Cabulosa”. Já o irmão MV Bill alcança 382 mil seguidores, 301.628 inscritos e 576.052 ouvintes mensais com 6 álbuns.

Ainda ressaltando as dificuldades das cantoras negras no Brasil, Kmila CDD fala sobre os intensos obstáculos que precisam ser derrubados não só por ela: “Os espaços sempre foram negados para mulheres negras em vários setores da sociedade. No meu caso, como rapper, a maior dificuldade é conseguir espaço em rádios e TVs. Os produtores simplesmente ignoram quando recebem um e-mail ou mensagem de whatsapp…coisa que não aconteceria se eu fosse uma rapper branca, mas, vamos conseguir espaço por insistência.Isso vem sendo quebrado por conta das milhares de vozes e atitudes de mulheres corajosas por todo o mundo. Eu sou mais uma dessas vozes em atividade! E acho que a saída para um equilíbrio será com mulheres e homens trabalhando juntos por igualdade de oportunidades”, completa a rapper que atualmente também está trabalhando em conjunto com seu irmão.

No País, a plataforma de streaming Spotify  é uma das favoritas para ouvir música, disputando espaço juntamente com o Youtube , e novamente espelha a realidade em que infelizmente as mulheres negras não estão. Atualmente, entre as 50 músicas mais tocadas no Brasil, a primeira mulher que aparece na lista é Anitta (5º lugar), com participação na música Romance com Safadeza , do cantor Wesley Safadão. Na lista não tem nem se quer uma artista negra.

Emponderamento feminino desde sempre

Mc Soffia é o símbolo da luta pelo espaço da mulher negra dentro do cenário musical brasileiro desde os seis anos. Inspirada em Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares a outras cantoras negras como Karol Conka, Flora Matos, Iza e Ludmilla, a jovem, hoje com 14 anos, começou sua carreira musical falando sobre o preconceito, emponderamento feminino e a realidade da menina negra.

Em sua primeira música, Brincadeira de Menina , Mc Soffia fala com maturidade sobre o machismo: ” Dizem que menina não empina pipa no sol / Quem criou a regra que ela não joga futebol? / Que negócio é esse, brincadeira de menina? / As minas fazem tudo, até mandar umas rimas “.

Reprodução/Instagram

Mc Soffia cantando ao lado de Criolo, rapper brasileiro

Mesmo nova, Mc Soffia é um dos principais nomes do rap brasileiro, já fez apresentações ao lado do Racionais Mc’s, Criolo e Flora Matos. Quando questionada sobre o que o rap significa na sua vida, a jovem cantora define o estilo como “música de resistência”: “Rap é música de resistência e de força. Eu passo minha mensagem e ajudo muitos as meninas negras que sofrem como eu”, diz.

Ganhadora do prêmio Glamour 2018 na categoria Gente que Faz, ao lado de Tabata Amaral, Soffia enxerga que o preconceito está disseminado em vários lugares da nossa sociedade e confia que sua música pode ser um elemento à favor: “O racismo existe não só na música, sofremos todos os dias quando o jovem é morto na periferia, quando a Marielle que lutava por nós foi morta por ser negra. Então, sofremos o racismo na sociedade, mas com as músicas, eu pretendo mudar isso”.

Como toda jovem, Mc Soffia também tem seus sonhos e se pudesse escolher como estaria daqui 10 anos, seria ao lado de uma das mulheres negras mais importantes do cenário musical: “Eu queria estar muito famosa cantando com a Beyoncé”, revela. Em sua nova música de trabalho, Barbie Black , que já alcança mais de 54 mil visualizações no Youtube , Mc Soffia fala sobre a desigualdade de gênero e representatividade: ” Barbies do meu setor são todas iguaizinhas / Loiras, magras, ruivas, todas padrãozinhas / Também sou Barbie, e sei bem o que tô dizendo / Falta mais diversidade, falta se olhar no espelho /P or que eles fabricam todas iguais? ”

Reprodução/Instagram

Mc Soffia cantando no Prêmio Claudia 2017, onde conquistou o troféu na categoria Revelação

Cadê o respeito?

A ocupação de espaços igualitários por homens e mulheres dentro do cenário musical brasileiro ainda é um destaque negativo, principalmente dentro do rap. Mesmo com nomes fortes em alta como Karol Conka e Tássia Reis, há quem esteja há muito tempo na estrada buscando o seu espaço, como Luana Hansen . Trabalhando em diversas frentes da música como DJ, Mc, freestyle e produtora musical, Luana está no cenário musical brasileiro há quase 20 anos, e vê que, infelizmente, ainda não existe igualdade de gêneros: “Eu estou praticamente há 20 anos galgando um espaço dentro da música e eu não vejo ainda muita abertura, acredito que precise de mais. Lutar para que a mulher negra, trans, LGBT possa ocupar qualquer lugar pronto e acabou, precisa pensar assim”.

Reprodução/Instagram

Luana Hansen, artista negra que está na cena musical brasileiro há 20 anos, mas sente que as mulheres ainda não tem incentivo o suficiente

Ressaltando a dificuldade das cantoras negras, Luana apresenta suas rimas destacando a falta de incentivo com o qual as artistas femininas sofrem: “Eu acho que falta incentivo de verdade, acho que falta alguém investir de verdade. Eu e minha esposa Glaucia que fazemos tudo, desde a produção até o plano de carreira. A gente não tem outro alicerce, a gente, como mulher negra, vem com a conscientização, mas eles não querem ouvir, não existe valorização, a gente tem que trabalhar na vida mesmo”, conta.

Uma das plataformas que destaca a cena musical feminina no País é a WME (Women’s Music Event), que incentiva o universo musical feminino focando em música, negócio e tecnologia vista por uma perspectiva do mesmo sexo. O principal objetivo da WME é destacar a participação e promover a inclusão de mulheres no mercado musical, um setor ainda muito associado ao universo masculino.

A luta continua 

Karla da Silva , vocalista que tem suas raízes em Madureira entre o hip hop, samba de raiz e jazz, representa a força feminina em meio aos homens, que ainda dominam o cenário musical: “Eu trabalho com uma equipe masculina, somente eu e a técnica de som somos mulheres. Por conta do machismo, há ruídos na comunicação, muitos homens demoram para compreender que a líder é uma mulher, principalmente uma mulher negra”, conta.

Reprodução/Instagram

Karla da Silva apresenta seu segundo álbum de trabalho “Gente que nunca viu vai ver a pretíssima coroação”

Apresentando seu segundo álbum, Gente que nunca viu vai ver a pretíssima coroação , Karla da Silva é uma artista negra emponderada que luta não só pelo seu espaço, mas pelo o espaço de outras mulheres negras. Se pudesse dar um conselho para uma menina negra que tem o sonho de conquistar o mundo artístico, Karla revela que o principal é seguir a sua essência em meio a tantas lutas:

“Bom, eu abriria os olhos dela para o que existe, para o racismo e o privilégio. Nem sempre só o talento vai prevalecer, outros pontos vão prevalecer nessa sociedade escravocrata. Aconselharia que ela seguisse a sua verdade, a sua essência, que faz a gente acreditar, que atinge pessoas que se torna referência, se torna não só o nosso sonho, mjas também o de outras pessoas”.

Em meio a tantos leões que as mulheres negras precisam degolar no dia a dia, outras artistas que também lutam pelo emponderamento feminino  e representatividade negra no cenário musical brasileiro e merecem destaque são Preta Rara, Iza, Negra Li, Elza Soares, Rosa Luz, Lay, Drika Barborsa, Gabi Nyarai e Yzalú.

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