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Ponciá Vicêncio – O anseio por um som que ainda falta
Créditos da foto: Arquivo Pessoal - enviado ao Portal Geledés

Ponciá Vicêncio – O anseio por um som que ainda falta

Trata-se de um artigo  que reflete acerca da perspectiva do enquadramento do romance Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, como Bildungsroman (feminino e negro). Segundo a articulista, tal ideia parece trazer embutido o pressuposto de que não há leitura possível fora de um modelo europeu, seja para segui-lo ou para refutá-lo. Tal modelo, de qualquer forma, estaria aí e a criação dos e sobre os situados à margem não se produziria sem que seus autores e personagens deixassem de realizar o ato de subtrair algo do centro.

por Eliane Fernandes Marques do Nonada enviado para o Guest Post 

A questão central não seria a de se Ponciá Vicêncio se enquadra ou não no precário conceito de romance de formação, mas a de se indagar o motivo pelo qual ao invés do seu encarceramento atrás dessas grades não se opta pelo desbravamento dos novos horizontes trazidos pela obra, como, por exemplo, o de Imaginação Africana, desenvolvido por Francis Abiola Irele. Está-se, pois, diante de outra quadra histórica, de outra quadra estética, os lugares sociais e de fala são diferentes daqueles dos séculos XVIII e XIX ou XX. Apesar da dificuldade de se voltar os ouvidos para outro lugar, diverso da Europa, o momento e seus atores históricos exigem outras escuta, leitura e teorização.

Arquivo Pessoal – enviado ao Portal Geledés

Ponciá Vicêncio: o anseio por um som que ainda falta

Os movimentos de Ponciá, inclusive o não movimento do braço, que capturam da boca a palavra e a aprisionam noutras sedes do corpo e na circularidade dos seus passos, falam de uma subjetividade estrangeira e incapturável pela compreensão formatada do que seja uma mulher negra ou do que ela quereria fazer ou dizer. Ponciá usa os movimentos ali onde as palavras não chegam ou onde não as podemos ouvir porque nossos ouvidos entupidos de cera.

 

1.

Em Ponciá Vicêncio, existem muitos temas e versões, mas também uma pergunta fundamental, porque de sua formulação pende o possível lugar a ser conferido à obra e à personagem. Tal pergunta pode ser assim formulada:  que sentido possível atribuir ao nome de uma mulher negra que abandona o torrão natal em busca de vida estranha ao destino e ao de sempre reservado?  A essa pergunta ainda se pode agregar a seguinte: O nome próprio e os apelidos de família integrariam seu estado de não-graça?

Se propuséssemos tal questão a Shakespeare, provável que fosse positiva a resposta – aí os nomes Romeu e Julieta compõem a desgraça. Dito de outro modo, nomes existem que ensejam e até compõem a desgraça, pois caminham agarrados à pele feito tribal marks. Veja-se o caso de Otelo ou de Clara dos Anjos.

Ponciá Vicêncio segue por essa senda – utilizo tal palavra mais ou menos como as sendas do poema Os encontros de um caracol aventureiro[2] – porque o nome Ponciá Vicêncio, assim como Julieta e Otelo e Clara dos Anjos, se estampa na cara do livro a que constitui com o empréstimo do seu nome. Isso, apesar de óbvio, é muito.

(…) Quando mais nova, sonhara até um outro nome para si. Não gostava daquele que lhe deram. Menina, tinha o hábito de ir para a beira do rio e lá, se mirando nas águas, gritava o seu próprio nome. Ponciá Vicêncio! Ponciá Vicêncio! Sentia-se como se estivesse chamando outra pessoa. Não ouvia o seu nome responder dentro de si. Inventava outros. Pandá, Malenga, Quieti; nenhum lhe pertencia também. Ela inominada, tremendo de medo, temia a brincadeira, mas insistia. A cabeça rodava no vazio, ela vazia se sentia sem nome. Sentia-se ninguém. Tinha então vontade de choros e risos (…). Uma noite ela passou todo o tempo diante do espelho chamando por ela mesma. Chamava, chamava e não respondia. (…). Pediu ao homem que não a chamasse mais de Ponciá Vicêncio. Ele espantado perguntou-lhe como a chamaria então. Olhando fundo e desesperadamente nos olhos dele, ela respondeu que lhe poderia chamar de nada.  [Ele] Deu-lhe um violento soco nas costas, gritando-lhe pelo nome. Ela devolveu um olhar de ódio. Pensou em sair dali, ir para o lado de fora, passar por debaixo do arco-íris e virar logo homem. (p. 18 e 19)

Embora não com um soco nas costas, em Omeros, de Derek Walcott, Afolabeinterpela Achille, o pescador que, de modo imaginário, se afasta da ilha de Santa Lucia (Antilhas) e alcança a terra de seus antepassados no Golfo do Benin. Afolabe quer saber como chamavam o pescador no lugar de onde viera e o que se queria dizer com tal nome. O velho pai se esquecera do nome que doara ao filho e, assim, com esse esquecimento, tudo um só olvido.

Mas o aqui nominado Achille também se esquecera, inclusive de sua língua originária e imemorável, então, tudo estava mesmo esquecido.  O mar surdotrocara todos os nomes que Afolabe destinara aos filhos. E, em face do buraco que o olvido provocara, ansiavam pelo som-sílaba-palavra que os enunciasse. Como Sabás, Afolabe e seus filhos ansiavam por um nome:

(…)
algo se foi, sabás
algo se foi para sempre
 
e um nome é preciso
um nome preciso
que te ampare do vento

Para Afolabe, um nome é mais do que a morte da coisa. Um nome significa, por exemplo, as qualidades desejadas num filho – até mesmo as sombras que nomearam Achille esperavam dele uma virtude. Para o velho pai, todo o nome corresponde a uma benção. Assim depositara esperanças no infante Achille e, ao menos que o nome esquecido não significasse nada, o nomeado não seria nada. Afolabe também faz a Achille a pergunta fundante:

Eles achavam que você não era nada naquele outro reino?

Não se trata de sou ninguém, como Odisseu, outro que segue a vereda, diante do ciclope Polifemo, mas de se constituir nada. Assim se concebia Ponciá Vicêncio – inominada, nonada – porque o seu nome nada lhe dizia, era nada naquele outro reino, pós-abolição formal da escravatura, em que às gentes, como ela, se reconheciam apenas os vazios sociais – mulher negra, despossuída de bens materiais e, quem sabe, pancada da ideia (p. 30).

A quem não era mais escravizada, mas tampouco se reconhecia ou era socialmente reconhecida na condição de trabalhadora livre, talvez até escapassem as esperanças nela depositadas pelo Vô Vicêncio, por seu pai, por sua mãe, por Nêngua Kainda, por quem a antecedeu. Sim, o mar surdo-mudo tudo mesmo carregara.

Entretanto, o desconhecimento-olvido, que fazia do seu nome um enigma, não implicava desvivência. Tal como o Vô Vicêncio, de quem recebera uma herança, Ponciá vivia tudinho no corpo: materializava o nada na parte do braço faltante – Ponciá Vicêncio andava com um dos braços escondido às costas e tinha a mãozinha fechada como se fosse cotó.(p. 16)

A protagonista vive então o mal-estar pessoal e coletivo no corpo. Esse corpo que era do outro (amo ou mestre), agora é a única coisa que pode reconhecer de sua pertença. Mas se trata de um corpo permanentemente nu, sem o manto do nome: Ponciá Vicêncio sabe que o nome advém de outro, não interessa quem o leve como bandeira.  E, nesse ponto, fala por todas o que nenhuma enuncia: aquela que se identifica plenamente com o seu nome esquece que se trata de um nome escolhido por outro e que antes de sua caída no mundo dos vivos, tal nome, como disse Afolabe, já carrega um sentido e um desejo alheios.

Tal nome, um enigma, como a herança do Vô Vicêncio.

Ponciá nos assinala que o nome, de próprio, em princípio, tem quase nadica de nada. O nome é mais impróprio do que próprio, porque cada um se nomeia como o nomearam. Aliás, o primeiro escrito, com presunção de publicidade, que se refere ao nome de cada um – o Registro Civil de Nascimento – foi ditado e escrito por outros, parentes e presentantes do Estado.

Em torno do nome, Ponciá empreende viagem e busca. Ela mesma reitera que não se trata de sair da pitimba, embora isso seja relevante. Trata-se de viagem vinculada ao campo simbólico, pois sua busca é por um nome próprio no qual se reconheça e possa também ser reconhecida. Porém não basta qualquer ou um genérico reconhecimento. Ela deseja que seu nome esteja associado ao de trabalhadora-criadora, feito Obatalá, que, do barro cedido por Nanã Burucu, construiu a humanidade.

A protagonista, assim como Afolabe, nos diz que um nome não é apenas nome, já que ele nasce do trabalho de sua produção. O episódio em que o Soldado Nestor e Luandi (irmão de Ponciá) visitam a exposição é elucidativo de tal proposta. Luandi estava feliz porque, nas criações de barro da mãe e da irmã, estavam registrados os nomes delas como autoras, o que não parecia ordinário: Na mesa anterior tinha um trabalho tão bonito e o nome de seu criador era desconhecido (p. 89).

Importante para a compreensão do sentido dessa passagem sãos os seguintes fatores: os nomes Ponciá Vicêncio e Maria Vicêncio se encontram registrados num espaço público-social de relativa importância, não necessariamente vinculado ao compra e vende delator das necessidades de subsistência; nesse lugar social, o esquecido para Luandi “era o dono” das peças, um tal Dr. Aristeu Pena Fortes Soares Vicêncio (p. 90 e 91).

Pela primeira vez, o trabalho-nome das criadoras se torna mais relevante do que o nome “do dono” da coisa, melhor dizendo, o olvido sofre um deslocamento, se antes relacionado aos Vicêncio de Ponciá, agora relacionado aos Vicêncio donos de tudo (Quem era aquele Dr. Aristeu Pena Fortes Soares Vicêncio?). A partir do ponto, os sentidos antes enterrados se vão afastando da casa – a mãe está pronta para partir de Vila Vicêncio.

Não é gratuito o fato de a protagonista ter moldado dessa matéria (o barro), ainda quando criança, a imagem perfeita do Vô Vicêncio, corcunda como Obatalá, ou até mais, já que andava com o rosto quase no chão.  Além de zelar pela permanência do ancestral na casa, de modo a representar o vínculo entre mortos, vivos e não nascidos, característicos da cosmovisão iorubá, Ponciá, com a imagem do Vô Vicêncio, anuncia um futuro, embora insabido.  É novamente a falta – a falta da imagem do Vô Vicêncio na casa – que permite a Luandi reconhecer por ali os rastros de Ponciá. O ancestro Vicêncio, mais do que imagem, é pacto discursivo e abismo.

Ponciá-Oxalá busca pelo nome a forma de instituir a sua própria humanidade, que não é estranha a humanidade dos seus, como neste trecho de A morte e o Cavaleiro do Rei, de Wole Soyinka, no qual uma das mulheres do coro, lideradas por Iyaloja, assim se refere quanto ao nome Elesin Oba:

MULHER – Quem?

AMUSA – O chefe que chama a si mesmo de Elesin Oba.

MULHER – Homem ignorante. Não é ele que se chama de Elesin Oba, é seu sangue que o diz. Assim como chamou seu pai antes dele e vai chamar o filho dele depois. E isso apesar de tudo o que o seu branco pode fazer.

MULHER – Não é o mesmo oceano que banha esta terra e a do homem branco? Diga ao homem branco que ele pode esconder nosso filho pelo tempo que quiser. Quando chegar a hora, o mesmo oceano vai trazê-lo de volta.

Otávio Fortes/CRL 2017

De modo semelhante, no conto Ayoluwa, a alegria do nosso povo, do livro Olhos d’água (editora Pallas, 2016), Conceição Evaristo enfatiza o lugar social do nome quando enuncia que, acumulados de tanto sofrimento, os mais velhos olhavam para trás e do passado nada reconheciam do presente; que suas lutas, seus fazer e saber, pareciam ter se perdido no tempo e que apenas sobrara o clamor pela morte. Assim, partiam a todo o instante, enfraquecidos e esquecidos da força que traziam no significado de seus próprios nomes. (p. 112)

Todavia, a partida-busca de Ponciá não foi para o ponto zero da morte e nem é exclusivamente negra ou feminina, pois a constituição de um nome no qual o sujeito se reconheça caracteriza a humanidade – há algum humano reconhecido como tal a quem não se lhe atribua um nome?  O nome é o que se deixa quando da morte, é aquilo que além das flores de plástico, em regra, estampará o nosso túmulo e se transmitirá como escritura.

Afirmo isso no chato propósito de refutar a ideia pré-concebida de que uma personagem negra (nascida da pena de uma escritora que se declara negra, no âmbito do que se denomina literatura afro-brasileira) fala ou está autorizada a falar ou venha a ser interpretada/interpelada tão somente no cercado de temas considerados próprios do que se venha a entender por afro-brasilidade, enquanto que, os da outra banda, poderiam e estariam autorizados a falar de temas tidos por pertencentes a todos, quando, em verdade, falam de um particular fantasiado de universal.

Contudo, de outro ponto de vista, o peso dado ao nome depende da carga de subjetividade que tenha sido nele depositada e da trajetória desse outro – o dadorde nomes (ao estilo do Crátilo, de Platão) – na história familiar e social. Por isso não é a mesma coisa carregar o nome de um avô Vicêncio, escravizado, que assassinou a esposa e perdeu a mão em busca de liberdade, e portar o nome de um avô Vicêncio, escravizador, proprietário de terras.

O tempo passava, a menina crescia e não se acostumava com o próprio nome. Continuava achando o nome vazio, distante. Quando aprendeu a ler e a escrever, foi pior ainda, ao descobrir o acento agudo de Ponciá. Às vezes, num exercício de autoflagelo ficava a copiar o nome e a repeti-lo, na tentativa de se achar, de encontrar o seu eco. E era tão doloroso quando grafava o acento. Era como se estivesse lançando sobre si mesma uma lâmina afiada a torturar-lhe o corpo. Ponciá Vivêncio sabia que o sobrenome dela tinha vindo desde antes do avô do seu avô, o homem que ela havia copiado de sua memória para o barro e que a mãe não gostava de encarar. O pai, a mãe, todos continuavam Vicêncio. Na assinatura dela a reminiscência do poderio do senhor, um tal coronel Vicêncio. O tempo passou deixando a marca daqueles que se fizeram donos das terras e dos homens. E Ponciá? De onde teria surgido Ponciá? (…) Ponciá Vicêncio era para ela um nome que não tinha dono. (p. 26 e 27)

Ponciá, mais do que padecer do que desencontra no nome que lhe emprestaram, nos aponta para a sua diferença constitutiva.

No seu reino, tudo de algum apreço-precificação pertencia aos senhores brancos, inclusive a terra de onde se evadira (Vila Vicêncio).  Vicêncio, seu apelido de família, provinha dos que, ao se adonarem do terreno, fincaram suas botas junto com as primeiras cercas. Já o prenome (Ponciá), o sentia como lâmina afiada a lhe torturar o corpo, a coisa única que tinha. O acento agudo, uma faca só lâmina. E talvez aqui o acerto da sua subversão com o braço cotoco: ali onde vocês afirmam existência, eu afirmo ex-sistência.

O prenome Ponciá, desassociado dos escravizadores, talvez viesse de Pôncio, gênese de Ponciano. Pôncio, além de enunciar a Pôncio Pilatos, procederia do latim (Pontius – original de Ponto, pequeno reino da Ásia Menor) ou do grego (póntios – vindo do mar), conforme Aline Arruda em dissertação de mestrado sobre Ponciá Vivêncio.

Todavia, Ponciá não corresponde a Pôncio Pilatos, que passou para a história como o cara que lavou as mãos. Ela quer, sim, lavar as mãos, não para se descompromissar, mas para limpá-las do barro inerente ao seu ofício de criadora e depois mergulhá-las novamente nas águas do rio, ou seja, para aprofundar seu compromisso consigo e com os demais.

Para isso, exige de si se desalienar do terreno concebido como de outros e dos sentidos aí plantados. Assim, no momento em que se permite abandonar Vila Vicêncio e, após, se permite retornar, já outra a relação que passa a entreter com a coisa. Ponciá não está mais acorrentada a nada, pois quem abandona e retoma é porque não pertence mais ao abandonado. Ponciá conseguiu a liberdade buscada pelo Vô Vicêncio.  Não se trata mais da mesma Vila Vicêncio e nem da mesma Ponciá Vicêncio: ela não pertence mais à terra que não era de seu avô. Agora é a terra, matéria para sua criação, que lhe pode pertencer.

2.

Se tanto um quanto outro Vicêncio, mas, especialmente o Vicêncio de Ponciá – a quem o discurso prende nos porões do navio negreiro, como se não houvesse história anterior ou posterior a esse evento trágico – estão para muito além da escravização, de igual forma, Ponciá Vicêncio vai além das amarras nas quais se insiste em prendê-la.

A criadora-trabalhadora não se constitui na dependência de uma identificação ao modelo (de mulher negra). Se ela mesma se afirma nada é porque não se reduz ao nada – Diziam que ela parecia muito com ele em tudo, até no modo de olhar. Diziam que ela, assim como ele, gostava de olhar o vazio. Ponciá Vicêncio não respondia mas sabia para onde estava olhando. Ela via tudo, via o próprio vazio. (p. 27)   

Por acaso sabemos de todos os seus pensamentos-lembranças? Sabemos de seus desejos antes do ponto final? Por acaso o fato de ser mulher negra dá conta de tudo o que ela poderia dizer ou do que nós poderíamos dela ouvir?  Certamente não. Novamente ela mesma, em contraposição ao marido, se reconhecia desejosa, queredora: Deus meu, será que o homem não desejava mais nada? Para ele bastava o barraco, a comida posta na lata de goiabada vazia? O pó, a poeira das construções civis, o gole de pinga nos finais de semana? O papo rápido com os amigos? (p. 39).

Os movimentos de Ponciá, inclusive o não movimento do braço, que capturam da boca a palavra e a aprisionam noutras sedes do corpo e na circularidade dos seus passos, falam de uma subjetividade estrangeira e incapturável pela compreensão formatada do que seja uma mulher negra ou do que ela quereria fazer ou dizer. Ponciá usa os movimentos ali onde as palavras não chegam ou onde não as podemos ouvir porque nossos ouvidos entupidos de cera.

Para Ponciá Vicêncio, isso que associa ao marido não bastava como não bastam as tentativas de encerrá-la na loucura, na pobreza, na subalternidade, na condição da mulher que apanha do marido e não consegue gerar um filho. Se ela perde alguma coisa, o faz para ganhar e não para permanecer na perda: Ponciá Vicêncio, elo e herança de uma memória reencontrada pelos seus, não haveria de se perder jamais, se guardaria nas águas do rio (p. 111).

A protagonista recai apenas num equívoco, o que é próprio da linguagem de quem se deixa apreender por ela, pois não se constitui no nada, mas a partir do nada, único lugar capaz de produzir algo novo.

Por isso, arrisco-me a pensar Ponciá Vicêncio noutra perspectiva, diversa da do Bildungsroman (feminino e negro), onde frequentemente tem sido interpelada.

Manoela H. Oliveira, em Crítica ao conceito de Bildungsroman, assinala que, ainda que a noção de romance de formação tenha se autonomizado, seja amplamente difundida e utilizada na crítica literária, o conceito, por sua própria origem, seria, a rigor, incompreensível sem a referência ao livro Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe.

A citada autora observa que nascido já bastante alargado, o conceito serviu para denominar praticamente qualquer romance — e exatamente essa “versatilidade” foi tão apreciada pela literatura comparada. Assinala que sua problemática envolveria principalmente a questão da tradição, da continuidade e, particularmente, a capacidade ou possibilidade do conceito ser estendido a outros romances para além de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de maneira a tornar‐se um gênero romanesco ou, ao menos, definir um determinado tipo de romance.

Oliveira considera que, embora não seja o inventor da expressão Bildungsroman, entre 1904 e 1906 Dilthey a teria introduzido com sucesso na crítica literária, vindo com ela a designar os romances expressa e exclusivamente sucessores de Wilhelm Meister, os romances do círculo de um grupo romântico determinado e um subtipo de romance de artista.

Conforme a autora, [b]aseado no apagamento das diferenças entre os indivíduos e suas trajetórias individuais, Dilthey deixou de lado todos os fatores que poderiam conduzir a contradições insolúveis, ressaltando apenas a abstrata “personalidade” humana não vinculada às suas necessárias condições de existência, o que tornou possível a afirmação de que a trajetória da formação é igual para todos os indivíduos; concernente à literatura, isso equivaleu a construir um largo e acolhedor conceito de Bildungsroman.

Martini, citado por Oliveira, afirma que o Bildungsroman não é uma “forma categorial estética”, mas uma “forma histórica”, cujos pressupostos repousam mais em materiais, temáticas e sua intenção de resultado e função do que em leis estruturais formais. Somente com a consciência da historicidade do Bildungsroman e do conceito de Bildung as investigações sobre a estrutura tornar‐se‐iam razoáveis.  

Em síntese, são muitas as dúvidas e as questões acerca do seu conceito e de sua funcionalidade. Todavia, o certo é que o Bildungsroman emerge da necessidade de afirmação da burguesia alemã que, embora dotada de poder econômico, não detinha poder político, diversamente do que ocorria com a burguesia francesa, pois no conceito de Bildung se cristalizou toda a experiência histórica alemã dos últimos três séculos.

A perspectiva de Ponciá Vicêncio como Bildungsroman (feminino e negro) parece-me trazer embutida a ideia de que não há leitura possível fora de um modelo europeu, seja para segui-lo ou para refutá-lo. Tal modelo, de qualquer forma, estaria aí e a criação dos e sobre os situados à margem não se produziria sem que seus autores e personagens deixassem de realizar o ato de subtrair algo do centro.

A questão não é a de se Ponciá Vicêncio se enquadraria ou não no precário conceito, mas de se indagar o motivo pelo qual ao invés do seu encarceramento atrás dessas grades não se opta pelo desbravamento dos novos horizontes trazidos pela obra. Está-se diante de outra quadra histórica, de outra quadra estética, os lugares sociais e de fala são diferentes daqueles dos séculos XVIII e XIX ou XX e nem estamos na Europa, apesar da dificuldade de se voltar os ouvidos para outro lugar.

Ponciá Vicêncio, a personagem, luta justamente contra isso, contra os sentidos ditados pelo outro, dono de tudo, inclusive da própria linguagem.

Emparedada contra o que se considera europa, não sobraria mais nada à Ponciá Evaristo a não ser a paródia ou a apropriação das legítimas formas instituídas pela suposta mãe de todos os saberes.

Todavia, ao deslocar a história sociocultural brasileira imediatamente à europa, com o conceito de Bildungsroman, imuniza-se a produção local aos vírus africanos, ou melhor, produz-se um esquecimento ao estilo Afolabe. As eventuais questões gerais ou especificas postas pelo texto seriam acessórios que confeririam apenas alguma peculiaridade ao figurino.

Interpretadas a partir desse paradigma, tais questões funcionariam como a coisa que faz a imitação se afastar do original, afirmando-se, então, ainda mais a perspectiva imitacional.

Veja-se que a própria Ponciá não imitava o Vô Vicêncio, embora o enunciado assim dê a entender. Ela não era um Vô Vicêncio mulher: quando ele se foi, Ponciá era muito pequena, portanto, algo além das fontes, das origens, das influências, algo além do que os olhos permitem, os vinculava no braço cotoco.

Para abrir janela de onde possamos ouvir outros sons, passemos a um conceito diverso do já enunciado.

Adriano Migliavacca, no artigo O conceito de imaginação africana segundo Francis Abiola Irele, assinala que ainda permanece entre nós a visão equivocada de que antes da introdução do alfabeto latino pelo colonizador europeu, não havia escrita na África. Ele aponta que Albert Gérard, em Sub-Saharan Africa’s Literary History in a Nutshell (2011), teria demonstrado que tal afirmação, em si, já consiste em erro, pois a África tem tradições consolidadas de literatura escrita em línguas e alfabetos não ocidentais, como a literatura etíope escrita em ge’ez e as literaturas hauçá e suaíli, escritas no alfabeto árabe. Também vale lembrar a tradição adinkra, formada por símbolos que expressam provérbios (povos acã da África Ocidental, especialmente os asante de Gana) e a escrita nsibidi do sudeste da Nigéria.

Conforme o referido artigo, além dessas literaturas escritas, há uma variedade de tradições orais organizadoras da atividade literária e cultural nas sociedades africanas em geral, as quais se apresentam em três níveis, segundo o modo como ocorrem: o da fala comum quotidiana, o uso retórico da linguagem (provérbios) e o campo propriamente literário (poemas orais, epopeias, fórmulas encantatórias e oráculos). A importância que as tradições orais adquirem na constituição da literatura africana, incluindo as obras escritas em línguas europeias (Chinua Achebe, Wole Soyinka, Chistopher Okigbo, J.P Clark-Bekederemo e Camara Laye, entre outros) diriam respeito não apenas às fontes, mas também aos temas, formas, gêneros e estilos, como pontua Irele.

Ainda para o crítico ora referido, a noção de africano extrapola em muito o âmbito geográfico e geopolítico, pois abarca áreas da consciência coletiva determinadas por fatores étnicos, históricos e sociológicos, sendo inclusivas da produção de escritores além-mar, como, por exemplo, do Brasil, da Colômbia, das Antilhas e do Caribe.

Porque o conceito de Literatura Africana seria muito limitado, já que inclusivo de autores africanos que nenhum diálogo estabeleceriam com as tradições orais e exclusivo de outros de fora do continente que manteriam tal diálogo, Irele introduz o conceito de Imaginação Africana, consistente na conjunção de impulsos que receberam uma expressão unificada em um grupo de textos, ou seja, um conjunto de temas e conjuntos expressivos concretizados numa série de textos que dialogam entre si e que têm como base e eixo organizador a experiência das tradições orais africanas.

Não se trata de desemparedar Ponciá Vivência do Bildungsroman e novamente emparedá-la contra a África ou ao chão do navio negreiro, mas de questionar o motivo pelo qual a produção literária brasileira negra e feminina é posta, nessa obra, em confronto com a cultura europeia, como se dela fosse devedora, e não em confronto, por exemplo, com o conceito de Imaginação Africana.

É possível realizar outra leitura com fundamento no conceito de Imaginação Africana, ainda que superficialmente devido à falta de pesquisas nesse campo, e concluir que Ponciá Evaristo bebe diretamente na fonte de O mundo se despedaça, de Chinua Achebe, romance no qual o personagem Okonkwo é exilado em outra aldeia (na de sua mãe) até que lá, transformado em outro homem, possa retornar à sua terra natal.

Também seria possível dizer que a viagem de Ponciá Evaristo é tão transformadora quanto à do personagem principal do Bebedor de Vinho de Palmeira, de Amos Tutuola, do qual pouco se sabe a não ser de seu absoluto desejo pelo tal vinho cuja realização é interrompida pela morte do vinhateiro, o que o motiva a sair de sua aldeia e procurá-lo, assim como Ponciá sai de Vila Vicêncio em busca de algo novo.

Ainda é possível dizer que Ponciá Evaristo bebe diretamente de vários mitos de Oxalá. Além daqueles relativos à criação da terra, do humano e da morte, há outro em que, admoestado pelo babalaô a não empreender viagem para visitar seu filho Xangô, no império de Oió, o velho pai mesmo assim o faz. O babalaô dissera que a jornada seria desastrosa e poderia acabar mal o que, de fato, quase ocorre: Oxalufã três vezes teve que aguentar calado as armadilhas de Exu, três vezes foi ao rio mais próximo lavar-se a trocar as vestes, foi confundido com um ladrão de cavalos e aprisionado, maltratado sem defesa, arrastado ao cárcere sem comiseração, até que, depois de se vingar de Oió, foi libertado por seu filho Xangô e retornou para casa, mas não antes de ser banhado com as águas do rio.

Entendo que não se trata de rasurar nenhum modelo europeu ou mesmo de conformá-lo a alguma coisa ou mesmo de se apropriar de algo que lhe seria estrangeiro, mas, como se trata de Ponciá Vicêncio, uma criadora, está-se diante da possibilidade de se instituir outro modelo que não seja apenas uma versão negra, feminina e pobre, do masculino, branco e classe média do Bildungsroman.

Ponciá Vicêncio faz sua própria busca justamente para se livrar dessa alienação aos sentidos ditados por alguém posto no lugar de grande outro, ainda que seja por negação (masculino, branco e de classe média), então por que emparedá-la novamente, inclusive com a expressão descendente de escravos[3]?

Desculpem, mas aqui pegarei um atalho. Que tal se começássemos a utilizar a expressão descendente de escravizadores e resumíssemos a história dos filhos dos europeus ao largo período em que escravizaram ou que fomentaram a escravidão?    

Ponciá Vicêncio é descendente de gente com nome e história antes e depois da escravidão e, inclusive, muito antes da europa. Nem tudo o que lhe passa está necessariamente atrelado a isso (embora muita coisa esteja).  Por que será que os descendentes de escravizadores não têm sua vida resumida ao período em que escravizaram? Isso deve ser tão grave, mas não social e economicamente tão desvantajoso, quanto ser escravizado.

Ponciá Vicêncio é um romance de constituição de um sujeito novo e de um novo paradigma ao arrepio da sanha classificatória das fontes, das origens e das influências europeias, assim, exige uma teoria nova, que possa dar conta do novo, sem tomá-lo como apêndice do velho e desde sempre precário.

Ponciá Vicêncio, como o nome que estampa a capa do livro, faz de seus Vicêncio e Ponciá algo próprio e social, algo intraduzível, sua marca registrada.

Esse o seu enigma e a sua herança.

Referências bibliográficas

ARRUDA. Aline. Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo: um Bildungsroman feminino e negro. 2007. Dissertação de mestrado (Letras). Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte. Disponível em http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/. Acesso em: 2018. abril.

DALCASTAGNÈ. Regina. Entre silêncios e estereótipos. Relações raciais na literatura brasileira contemporânea. In: DALCASTAGNÈ. Regina e EBLE. Laeticia Jensen (Org.). Literatura e Exclusão. Porto Alegre. Editora Zouk. (p. 2017 a 238)

DUARTE. Eduardo de Assis. Por um conceito de literatura afro-brasileira. In: DALCASTAGNÈ. Regina e EBLE. Laeticia Jensen (Org.). Literatura e Exclusão. Porto Alegre. Editora Zouk. 2017. (p. 195 a 216)

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Rio de Janeiro. Pallas. 2017.

_________________. Olhos D’água. Rio de Janeiro. Pallas. 2017.

MARQUES. Eliane. e se alguém o pano. Porto Alegre. Escola de Poesia. 2015.

MIGLIAVACCA, Adriano. O Conceito de Imaginação Africana. In: Revista Semana da África na UFRGS. 2016. p. 60 a 65.

NETO. Para uma interpretação do conceito de Bildungsroman. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/pg/article/view/73703. Acesso em: 2018. abril.

OLIVEIRA. Manoela Hoffmann. Crítica ao conceito de Bildungsroman. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/INV/article/download/377/318. Acesso em: 2018. abril.

PIRES. Pedro Giovanetti Cesar.  Cultura e Formação. Os anos de aprendizado de Wilhem Meister e o desencantamento de Goethe frente ao mundo burguês. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/seculoxxi/article/view/26328. Acesso em: 2018.abril

PRANDI. Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo. Companhia das Letras. 2001

SOYINKA. Wole. Death and the King’s Horseman. In: GIKANDI, S. (ed.). Death and the King’s Horseman – A Norton Critical Edition. W. W. Norton and Company. New York. London. 2003 (As partes aqui apresentadas foram traduzidas por Adriano M. Migliavacca).

WALCOTT. Derek. Omeros. São Paulo. Companhia das Letras. 2011

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[1] Poeta e escritora.

[2] Os encontros de um caracol aventureiro. Garcia Lorca. En la alameda  Un manantial recita Su canto entre las hierbas Y el caracol, pacífico Burgués de la vereda, Ignorado y humilde, El paisaje contempla. La divina quietude De la naturaliza Le dio valor y fe, Y olvidando las penas De su hogar, deseó Ver el fin de [la] senda.

[3] Infelizmente li essa expressão em vários textos que consultei para escrever este trabalho.

 

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