Ataques digitais a mulheres na política afetam democracia como um todo, diz pesquisadora

Para Lucina Di Meco, misoginia na internet corrói liberdades enquanto aumenta lucro das redes sociais

Em janeiro, Jacinda Ardern, 42, demitiu-se do cargo de primeira-ministra da Nova Zelândia, cinco anos após tomar posse como a líder mulher mais jovem do mundo.

Menos de um mês depois, Nicola Sturgeon, 52, anunciou que, depois de oito anos como primeira-ministra da Escócia, também estava de saída, destacando o que chamou de brutalidade da vida política.

Antes delas, a ex-deputada Manuela D’Ávila, 41, já havia desistido de concorrer nas eleições brasileiras de 2022, enumerando ameaças que ela e sua família sofreram e que limitaram sua liberdade.

Embora tenham listado outros elementos que influenciaram suas decisões, as três foram vítimas de campanhas de ódio e de desinformação de gênero nas redes sociais —um problema que une mulheres políticas pelo mundo, não só na Oceania, na Europa ou na América do Sul.

Lucina Di Meco, cofundadora da She Persisted, organização que combate a desinformação contra as mulheres na política por meio de pesquisas, treinamentos e ativismo, conduziu o “Monetizing Misogyny” (monetizando a misoginia), em que se concentrou em casos de Itália, Hungria, Índia, Tunísia e Brasil para entender padrões e o impacto das agressões digitais contra mulheres na política.

Embora o sexismo faça parte do debate desde que elas subiram nos primeiros palanques, a força e a frequência dos ataques foi agravada pelas redes sociais, afirma a especialista.

O que os casos de Jacinda, Sturgeon e Manuela, que decidiram dar um passo atrás em suas carreiras políticas, têm em comum? Existe um custo que a maior parte das mulheres em política, principalmente aquelas que alcançam postos mais altos, precisa pagar para poder continuar. É um preço terrível, do ponto de vista pessoal e de saúde mental, especialmente ligado aos abusos online dos quais se tornaram alvo. Essas foram três mulheres atacadas de modo terrível por campanhas de ódio e de desinformação.

Sexismo e misoginia não são uma novidade no debate político. O que mudou nos últimos anos? O que estamos vendo é que a quantidade de ataques e a natureza deles pioraram muito. Vemos as mulheres na política se tornarem cada vez mais alvo nas redes sociais de agressões que, por fim, representam uma limitação grave às liberdades de expressão e de movimento, seus e de suas famílias. Os ataques estão mais graves e mais frequentes.

Sobre os abusos online, muda algo se o alvo é uma mulher de esquerda ou de direita? Não fazemos esse recorte entre esquerda e direita. O que vemos é que mulheres que se tornam porta-vozes de certos temas, como direitos das mulheres, direitos humanos, defesa de refugiados e imigrantes e direitos LGBTQIA+ sofrem os maiores ataques. E ainda piora para mulheres que também são das chamadas minorias, como LGBTs e afrodescendentes.

Como Marielle FrancoExato, esse é um caso trágico que diz muito sobre a instrumentalização da desinformação de gênero contra as mulheres na política, seja em vida, seja depois da morte, com uma finalidade política.

Qual é a definição de “desinformação de gênero” e como são diferentes os ataques direcionados às mulheres e aos homens na política? “Desinformação de gênero” é a disseminação de informação inexata ou falsa que atinge as mulheres. Em relação às mulheres na política, observamos que essas narrativas são especialmente enraizadas no sexismo. Ou seja, tentam construir a ideia de que mulheres são menos inteligentes, fazem ataques obcecados em suas sexualidades, com histórias falsas sobre terem amantes e filhos escondidos, sobre serem mães más, esposas inadequadas, cidadãs ruins. São dinâmicas que encontramos em vários países. Há uma grande diferença em relação aos ataques contra os homens, que são frequentemente ligados às suas afirmações, com críticas a uma lei, por exemplo. Contra as mulheres, é muito mais pessoal. Não são ataques que fazem parte do legítimo debate político, mas sim que procuram silenciá-las como opositoras.

Por que esses ataques às mulheres na política geram engajamento nas redes sociais? Principalmente porque as grandes plataformas digitais são desenhadas para privilegiar um tipo de conteúdo que gera maior participação e mais cliques. E, infelizmente, o tipo de conteúdo que gera mais engajamento é, com frequência, aquele com tom negativo, em que pessoas são levadas a reagir, a clicar, a escrever mensagens movidas por um sentimento de raiva. As redes sociais têm papel predominante nesse tema, além de grande responsabilidade por se omitirem, mesmo sabendo disso há anos.

O que leva as plataformas digitais a manter esse mecanismo das redes sociais? Uma das jornalistas que entrevistamos, a indiana Swati Chaturvedi [que investigou o uso de ferramentas digitais pelo partido do premiê Narendra Modi], disse muito claramente: o modelo de negócios das grandes plataformas é baseado no ódio. Porque, no fim, o engajamento ligado a sentimentos negativos é aquele a partir do qual as plataformas ganham dinheiro. Elas não têm interesse em mudar um modelo de negócios que as tornou multimilionárias, apesar do impacto que isso tem sobre a sociedade. Todos nós estamos pagando o preço da desinformação e do ódio. Vemos claramente esse custo nos EUA, com a invasão do Capitólio, e no Brasil, depois das eleições. É como se acontecesse um grande vazamento de petróleo e, em vez de a companhia petrolífera pagar por esse desastre natural, essa conta é paga por todos nós.

O que deve ser feito para que as plataformas se empenhem em melhorar o ambiente digital? Acho que está claro que a autorregulação não está funcionando. Em teoria, as plataformas têm “termos de serviço” que deveriam proteger uma série de valores e de grupos, o que não está acontecendo. Consideramos que o importante é ir em frente com legislação e regras que possam melhorar a situação. A Lei de Serviços Digitais, da União Europeia, é um passo na direção certa, porque, além de elementos como multas, tem medidas de prevenção, como exigências de transparência e avaliação de risco. Ao mesmo tempo, é importante trabalhar na compreensão desse problema, para que todos entendam que não podemos nos acostumar com essa situação e que existem responsáveis por isso.

A regulamentação das grandes plataformas frequentemente levanta o debate sobre liberdade de expressão. Qual é sua avaliação? É um ponto-chave. Muitos, inclusive as plataformas, usam o argumento da liberdade de opinião e de expressão para contra-atacar todo tipo de proposta de reforma das redes sociais. Penso que hoje não existe liberdade de expressão para muitas mulheres que encontram assédio, abuso e desinformação quando se expõem sobre certos assuntos. É preciso pensar na regulamentação das redes sociais não como uma contradição à liberdade de expressão, mas como uma necessidade de que essa liberdade seja realmente para todos.

Quais são as consequências desse mecanismo de ataques online às mulheres líderes? As primeiras consequências são sobre as vítimas. Depois de ameaças de estupro ou aos seus filhos, precisam mudar de endereço, viver de forma escondida ao mesmo tempo em que desempenham um papel público. Tem um impacto enorme sobre a vida pessoal. Mas o impacto geral recai sobre a própria democracia. Se as mulheres que são porta-vozes de determinados temas são silenciadas, o que acontece é um retrocesso sobre esses assuntos.

Como é possível construir resiliência digital? Um conselho é sempre denunciar as agressões. Isso ajuda também outras mulheres a reconhecer o sexismo nos ataques e a entender que o que está por trás é o retrocesso dos direitos das mulheres. A conscientização é a coisa mais importante para que possamos exigir padrões, políticas e leis para a regulamentação das redes sociais.

Na Itália, pela primeira vez, temos duas mulheres à frente dos dois maiores partidos, a primeira-ministra Giorgia Meloni, no Irmãos da Itália, e Elly Schlein, recém-eleita para o comando do Partido Democrático, na oposição. Muda algo? Sou otimista e espero que isso possa representar um aspecto positivo do ponto de vista de modelos, inclusive para tantas jovens que podem se imaginar nesses papéis. E isso torna ainda mais importante enfrentar o tema das redes sociais, porque estudos mostram que as jovens estão menos ambiciosas do ponto de vista político, depois de verem casos de abusos online ou campanhas de desinformação contra líderes.

Logo depois de eleita, Schlein sofreu nova onda de ataques, antissemitas e sexistas, inclusive de um prefeito. Será que também ela vá se cansar e dar um passo atrás? Espero que não. Até porque enquanto muitas decidiram se retirar, muitas outras continuam, apesar das agressões. O fato de o ataque ter partido de um opositor político não surpreende, só mostra que a misoginia é um elemento fundamental e que as redes sociais são usadas para implementar uma estratégia política de desinformação e de ódio.

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