Quando descobri que sou preto: “Vou contar a minha história, porque eu também tenho uma”.

Ericka Huggins (mulher negra, ativista, estadunidense, integrante dos Black Panther Party)

Enviado por Jônatas Cordeiro da Silva via Guest Post para o Portal Geledés 

Hoje sinto a necessidade de contar como me descobri (e ainda estou descobrindo) enquanto preto, o que abarcará uma breve discussão sobre a mestiçagem.

Quando vejo alguns casos, como por exemplo, o Neymar que diz que não é preto, ou Caio (namorado da Jout Jout) que se autodeclara pardo. Recordo como foi difícil que eu me reconhecesse enquanto preto. Eu sempre soube que eu não era branco, não só pela cor de minha pele, cabelo, traços, mas também pelos lugares que eu nem eu, nem meus ancestrais ocupamos, porém há uma grande diferença entre não ser branco e ser preto.

É importante ressaltar que de forma alguma a miscigenação no Brasil foi historicamente simples, também que um dos fatores para a miscigenação foi o estupro de mulheres negras escravizadas pelos seus colonizadores, mulheres indígenas também foram violentadas. As Pessoas pretas foram culpabilizadas pelo atraso da nação brasileira, houve um plano eugenista, que previa que através da “mistura de raças” a extinção das pessoas negras até 2012, assim então o Brasil seria uma nação desenvolvida.

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Como grande parte da população brasileira venho de um contexto de miscigenação, em que a família de minha mãe é composta da relação entre indígenas e brancos, enquanto a família de meu pai resistiu e constitui-se apenas por pessoas negras. A única pessoa não negra que transitou nesta família foi minha mãe, que se autodeclara parda, foi a primeira pessoa, talvez a única que eu vi ficar ofendida ao ser chamada de branca.

Nos meus primeiros ambientes de sociabilização, família e escola, lembro de ter sido chamado de moreno, mulato, pardo, moreno jambo, marrom bombom, diversos outros eufemismos que pessoas pretas estão cansadas de ouvir, até porque ser preto era e ainda é para muitos um problema, um xingamento.

Uma das minhas principais problemáticas para me entender e me assumir como preto, ainda me é muito difícil de explicar, provavelmente ficará confuso, mas tentarei. Como já disse a família de meu pai é composta exclusivamente de pessoas negras, logo há pessoas mais escuras do que eu. Então para mim essas pessoas eram negros, enquanto eu era parecido, mas não igual. Existia um não lugar, com as palavras de hoje, eu tinha a impressão que me posicionar enquanto uma pessoa negra é roubar o lugar de fala dessas pessoas, que pelo que me relatavam era mais complexo do que eu vivia.

Anos depois descobri que eu vivi (e ainda vivo) as mesmas coisas, só não sabia. Aos poucos comecei meu processo de empoderamento, processo interminável, aconteceram algumas descobertas. Um dia com 15 anos, ás voltas com minha aparência, nunca me achei bonito, enquanto penteava meu cabelo sem querer puxei ele pra cima, percebi que apesar de ele ser um cabelo cacheado (tipo 3c) , ele ficou, puxei ele todo pra cima e vi que formou-se um Black Power, me senti incrível, bonito e poderoso…

black power

Fiquei intrigado, sabia que Black Power significava poder preto ou algo parecido, como já existia a internet fui dar um Google e descobri o movimento Black Power, a partir de então comecei a armar um Black, agora consciente de seu significado, entretanto eu continuava no não lugar de não me assumir como negro. Era como se fosse uma luta muito próxima a mim, mas não me pertencia, sentia que devia estar ao lado e não à frente dessa luta , talvez eu me declarasse como pardo naquela época. Com certeza eu não sabia que negros eram pretos e pardos.

Me senti incrível, bonito e poderoso, sair na rua e foi muito complexo, diversos olhares, alguns de admiração, outros de estranhamento, reprovação, medo, começaram as “piadas” , pedidos e opiniões que jamais foram solicitadas:

• – “Parece que você tem uma casa de cupim na cabeça”
• – “Parece um microfone”
• – “Porque você não corta esse cabelo”
• – “Parece um mendigo”
• – “Não consigo ver a lousa por causa do cabelo dele”
• – “Posso cortar seu cabelo?”
• – “Posso tocar no seu cabelo?”
• – “Você não tem dinheiro para cortar o cabelo?”

Entre outras clássicas que pessoas pretas também estão cansadas de ouvir, fiquei abalado com algumas coisas que ouvi, no entanto eu nunca tinha me sentido tão bem, assim como, nunca tinha sido tão notado, deixei de passar despercebido, acreditei que valeria a pena cultivar o Black Power e acredito que através do cabelo entendi muitas coisas.

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Mudei o círculo de amizades, comecei a frequentar um cursinho popular dentro da USP, lá nas aulas e história descobri a resistência das pessoas negras, a partir daí comecei a me identificar mais com a “possibilidade”. Porém, a ficha só caiu quando eu entrei na Universidade. Talvez para algumas pessoas seja necessário ser posto em uma situação limite para entender o racismo, não é que eu nunca tinha sofrido racismo antes, eu apenas não havia percebido.

Entrei em uma universidade estadual a UNESP, lá vi tons de branco que eu nem sabia que existiam no Brasil. Como sempre vivi em periferias sempre vi muitas pessoas negras, dentro da Universidade era raro, mesmo sendo um campus pequeno, com menos de mil estudantes. Havia em minha sala eu, uma outra estudante e um intercambista do Congo, como minhas aulas tinham aproximadamente 25 estudantes, três pessoas negras era um número quase significativo.

Dentro de todo o campus, que tinha em média 860 estudantes na época (2012), além das pessoas da minha sala, fui ver outra pessoa negra em outubro, as aulas começaram em fevereiro. Não é que eu não enxergasse as pessoas negras naquele recinto, é que elas eram quase inexistentes.
Como acontece com muitas(os) universitárias (os) pretas (os), nos unimos rapidamente, formamos nosso quilombo. Foi um alívio conversar com pessoas que passavam pelas mesmas situações que eu, um choque de realidade social, o racismo institucional velado, não adaptar-se, ser a primeira pessoa da família a entrar em uma faculdade pública, ou em uma faculdade e cobrar-se por essa questão.

Muitas vezes ter o emocional tão abalado, vontade desistir do curso, mas saber que essa não é uma opção, ainda mais quando se tem um ensino médio defasado, absolutamente nada garante que você passará no vestibular novamente. Caso isso aconteça os problemas enfrentados serão os mesmo.

A solução encontrada é como muitas vezes em nossas vidas, aguentar enquanto dá. Encontrar estratégias de sobrevivência, estratégias para não enlouquecer, minha solução era me afastar por uma semana, com o tempo, como muitas coisas na vida das pessoas pretas, acostumamos, calejamos, calamos. Ficamos forte, mais pela obrigação, pela necessidade, do que pela vontade, pois não ficarmos vezes fortes, adoecemos, morremos.

A partir de todas essas reflexões, comecei a me perguntar e refletir diariamente, será que eu sou preto? O Caio em seu vídeo questiona-se, “será que para ser negro no Brasil é necessário ter sofrido racismo?” Quando me fiz essa pergunta anos atrás a resposta foi sim, acreditava e ainda acredito que o racismo é estrutural. Por muito tempo acreditei que nunca tinha sofrido racismo, mas ao buscar histórias do passado, vi que estava muito enganado.

Comecei a entender que existia um motivo quando uma pessoa do nada saía correndo quando me via em andando sozinho a noite em uma rua escura, ERA RACISMO.

Comecei a entender porque quando ia comprar algo milagrosamente aparecia um segurança do nada para acompanhar “disfarçadamente” todos os meus passos, ERA RACISMO.

Comecei a entender que na escola quando me zoavam pelos meus lábios grossos (beiço como chamavam) não era bullying ERA RACISMO.

Comecei a entender o porquê muitas vezes a GCM (Guarda Civil Metropolitana) à noite andava lado a lado comigo, desde de perto da estação de trem até e perto de minha casa, não era para me proteger, pois o potencial perigo era eu.

Além de, algumas situações que provavelmente só acontecem na adolescência das pessoas pretas. O pânico quando suas/seus colegas começam a namorar. Afinal na escola te dizem desde muito pequeno, como você é feio. Logo sabia eu que não namoraria, ficaria com ninguém da escola, mas como a Taís Araújo mencionou em uma entrevista, você acaba por fazer o papel de cupido.
Obviamente que enquanto adolescente mesmo fora do espaço escolar acreditei que não era bonito, então quando comecei a sentir vontade de me relacionar afetivamente, eu pensava, já que não sou bonito, tenho que ser pelo menos inteligente, então estudava muito, tentava estar por dentro de tudo que acontecia e ter o máximo de uma opinião crítica permitida a um adolescente de 15 anos.

Refletir sobre as questões citadas, me fez entender que sou preto, conheci diversas pessoas negras, a internet foi fundamental, comecei a ler os textos publicados no Geledés – Instituto da Mulher Negra e no blogueiras negras, entrei em grupos de militância no facebook.
Me assumi preto em 2013, ano em que muitas lágrimas foram derramadas, ano em que descobri que é foda, foi foda e será foda. Quando eu via uma criança preta, principalmente uma menina, me dava um aperto no peito, eu pensava em tudo que passei na infância e em tudo que aquela criança linda e inocente que estava na minha frente, também poderia passar.

Depois pareceu-me óbvio que eu sempre fui preto, comecei a me questionar, porque eu passei de 2009 a 2013 na tentativa de me entender como preto. Era meu fenótipo (em resumo aparência) que me colocava em dúvida? Não! Fenotipicamente sou negro.

Embora, como disse acima, venho de um contexto de famílias miscigenadas, logo quando penso na família de meu pai, vejo que há pessoas mais escuras que eu, embora eu sabia também que sou mais escuro que muitas outras pessoas pretas.

Concordo com diversas/os estudiosas/os que apontam que o racismo no Brasil se dá a partir do fenótipo, então quanto mais aparente a negritude de uma pessoa, mais agressivo será o racismo para com ela. Tento então lutar a partir de meus privilégios, tento entender que eu tenho privilégios em relação a pessoas de pigmentação mais escura do que eu, além de tido também o acesso ao conhecimento, à universidade.

Compreendi que o racismo é tão cruel, que dificulta que pessoas pretas se reconheçam enquanto tal, visto que todas as vezes que nos falam de pessoas pretas elas estão em situações de inferiorização.

Crianças pretas de 9 anos, que ouvem na aula de história que suas/seus ancestrais foram escravizadas/os, como corpos dóceis, porque eram desunidos, não vão querer se identificar com essas pessoas, não vão querer ser aquilo, eu sabia que não era aquilo, eu não queria ser aquilo.

Se falassem que para estas crianças que em África, suas/seus ancestrais foram gente, podem ter sido rainhas e reis, se falassem que houve resistência das/os escravizadas/os, através de fugas, batalhas e formação de quilombos, seria mais fácil para as pessoas pretas se reconhecerem enquanto tal.

Se legislações como a lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de arte, cultura e história africana e afro brasileira, e a lei 11.645/2008 que também torna obrigatório ensino de arte, cultura e história, indígena e latino-americana. Se estudantes de pedagogia e licenciaturas tivessem em sua formação disciplinas específicas para tratar desses temas, para que quando começassem a exercer a docência tivessem mecanismos para aplicação e cumprimento dessas legislações, seria mais fácil par as pessoas negras se assumirem enquanto tal.

Se houvessem diversos livros, filmes e capas de jornais, com pessoas pretas, se nas novelas as pessoas pretas, não fossem representadas apenas como escravizadas/os, empregadas domésticas, motoristas, seguranças, habitantes de favelas, ou objetos para saciar o desejo de personagens brancas de classe média alta, (imaginário que é perpetuado na vida real), seria mais fácil para as pessoas pretas se descobrirem enquanto tal.

É importante é elucidar que empregadas domésticas, motoristas, seguranças, favelados, são dignos e merecem respeito e representatividade, porém a representação desses grupos precisam ser justa a todas as suas complexidades. Ademais é necessário mostrar outras possibilidades de existência para as pessoas pretas.

Acredito que algumas das questões que acabo de citar, irão demorar um logo tempo até se concretizar, embora a passos lentos, alguns avanços sejam alcançados. Mas precisamos lutar a partir das armas que temos e lutaremos.

Creio que a união das pessoas pretas seja fundamental, creio que pessoas que já se consideram empoderadas podem ser fundamentais, como referencias para quem está se empoderando. É necessário também que lutemos por espaços de poder dentro da sociedade, quando conseguirmos lembrar dos nossos, é necessário também que contamos nossas histórias por nossas próprias bocas.

Comecei este texto enorme com uma epígrafe da Ericka Huggins, e com uma fala dela termino, Em 2013, quando ela veio para o Brasil, ouvi sua fala no auditório da Geografia da FFLCH/USP, a fala que descreverei aqui, ilustra o que disse anteriormente.

Ericka Huggins, perguntou a todas/os estudantes presentes, quantos de vocês vem das periferias, apesar de estar na USP, como era a fala de uma ativista negra, haviam muitas/os estudantes negras/os no ambiente, então muitas/os levantaram a mão. Ericka perguntou em seguida, quantas/os de vocês serão professoras/es, novamente muitas mãos foram levantadas. Então ela diz, prometam para mim, que quando vocês se formaram, vocês voltaram para os seus lugares de origem para compartilhar este conhecimento que vocês adquiriam.

Desde então tenho acreditado que a luta antirracista, só faz sentido quando compartilhada, afinal é impossível lutar sozinha/o. É necessário também não dissociar a luta antirracista de outras lutas, como a luta pela educação, saúde, transporte, afinal também estamos marginalizadas/os nestas questões. Além de lembrar que as opressões sociais acontecem concomitantemente, então é necessário lutar também contra o machismo, lesbohomotransfobia, gordofobia. É necessário lutar.

jonatas cordeiro

Agradecimentos pela revisão: Thaís Santos, Bito Santos, Juliana dos Santos, Mariana Egydio, Leonardo Machado , Vivia Santana.

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