quinta-feira, outubro 6, 2022
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Julho das Pretas 2022. Qual projeto de nação das mulheres negras?

Estamos em julho, conhecido pela militância política como Julho das Pretas, mês em que desde de 2013 o movimento de mulheres negras, representado pelo Instituto Odara dão o pontapé para a construção de agendas políticas conjuntas em que são realizados debates e atividades sobre os principais temas que atravessam as mulheres negras no Brasil. O tema deste ano é: Mulheres negras no poder, construindo e bem viver. Refletindo sobre esse tema, acho muito importante trazer uma contribuição política sobre o debate do poder e a construção de uma nação que tenha a vida das mulheres negras na sua centralidade. Este debate tão pertinente inclusive ganha maior dimensão diante do ano decisivo que estamos vivendo. 

Onde estão as mulheres negras quando nós falamos sobre poder? 

Em 2009, Sueli Carneiro (filósofa, escritora e ativista) escreveu um ensaio intitulado “Mulheres negras e poder: Um ensaio sobre a ausência”. Neste ensaio Sueli Carneiro não tratava apenas da ausência pela baixa representação, falava sobre aquelas mulheres negras que, mesmo presentes na institucionalidade, foram interrompidas por questões advindas das discriminações de raça e de gênero. Nesse sentido, a ausência de poder evocada por Sueli Carneiro em seu artigo está exemplificada em toda violência política de gênero e raça sofrida por essas mulheres, estando elas na política ou não, que se manifesta às expulsando de qualquer espaço onde se pensa ou se exerce o poder. É nesse sentido que por décadas se vincula às mulheres negras à subalternidade e não ao poder, especialmente quando se pensa em política institucional. 

Isso de forma alguma significa que as mulheres negras deixaram de lutar por ocupar o poder para a melhora de suas vidas. Ocupamos a política institucional, apesar da demora com Antonieta de Barros, primeira parlamentar negra do Brasil, eleita em 1934, em Santa Catarina. Infelizmente Antonieta ainda se manteve única neste espaço por mais de uma década, até 1947 era a única parlamentar negra do Brasil. Em São Paulo, apenas em 1971 tivemos uma mulher negra no parlamento paulistano, Theodosina Rosário. Em alguns estados somente décadas depois, como no Rio de Janeiro com Benedita da Silva em 1982 e na Bahia com Maria José em 1990, podemos ver mulheres negras exercendo seus mandatos. Apesar de hoje termos mais exemplos no parlamento de mulheres negras, continua desproporcional se pensarmos a grande quantidade de mulheres negras na sociedade brasileira. 

Nos espaços de política não institucional também se apresenta a ausência, não da presença das mulheres negras, pois são elas que por anos estão nas lideranças de suas comunidades e são parte centrais das principais lutas políticas travadas no país, mas a ausência de reconhecimento, proteção e apoio. As mulheres desde a fundação da nação brasileira gestam soluções paralelas para a sobrevivência do povo preto, enquanto o Estado oferece a violência e o abandono, nós oferecemos estratégias de sobrevivência para o povo

preto mas fazemos isso cobertas pela invisibilidade. Dessa forma, seja essas parlamentares negras, que são as exceções que confirmam a regra, seja as lideranças políticas comunitárias, a realidade demonstra o que é apresentado pela filósofa Sueli Carneiro: relatar a história das mulheres negras e o poder político no Brasil é descrever um ensaio sobre ausência. 

Não existe democracia sem as mulheres negras 

Essa realidade das mulheres negras também demonstra uma outra ausência no país: a de uma verdadeira democracia. Nessa estrutura de sociedade capitalista, a democracia é a maior expressão da cidadania, participar igualmente do poder e suas decisões marcam a eficácia da coletividade capitalista, mas as mulheres negras assim como o povo negro não podem afirmar a existencia dessa democracia. Se atentarmos os olhares podemos inclusive dizer que nunca houve democracia para as mulheres negras. A existência da nação brasileira é fruto da expropriação de seus corpos. O trabalho e o estupro de mulheres negras são estruturas fundantes da população brasileira e da chamada “democracia racial” responsável por continuar negando o racismo e o sexismo que tanto oprime mulheres negras todos os dias. 

Graças a isso o espaço reservado para as mulheres negras nessa sociedade é exatamente o de extrema exploração, oprimidas não só racialmente como também sexualmente, elas ocupam os piores lugares nessa sociedade, e são as primeiras a perderem seus direitos sociais e políticos quando atacados pelo sistema capitalista. Estão entre os principais casos de violência política do país, assim como chefiam as mais de 19 milhões de famílias que atualmente no Brasil passam fome. Não à toa, também são as mais interessadas na construção de um outro projeto de nação brasileira e de uma verdadeira democracia. 

Qual projeto de nação das mulheres negras? 

A luta das mulheres negras por uma mudança nessa sociedade é fundacional, está para além de qualquer eleição, ainda que elas reconheçam que existe disputa de projeto de país nas eleições, acreditam que é preciso ser radical na destruição das estruturas existentes do poder. É fundacional porque entendem que o Bem viver é antagonista aos pilares racistas e sexistas históricos dos processos da escravização que fundam a estrutura social, política e cultural brasileira e que se renovam na modernidade impedindo qualquer projeto de melhora real para as mulheres negras.Mas isso não faz com que elas se furtem de disputar o processo eleitoral, 

Este ano o processo eleitoral inclusive possui uma grande importância, pois é impossível falar sobre superar o Bolsonaro sem a presença das mulheres negras, as principais afetadas por esse desgoverno. É por isso que participam do processo reafirmando que é preciso centralidade da defesa das vidas das mulheres negras, é necessário que seja pensado: onde estão as mulheres negras nos orçamentos discutidos? Onde estão as mulheres negras nos nomes escolhidos? Onde estão as mulheres negras nos apoios recebidos? São muitas as ausências e violências reservadas para as mulheres negras na política institucional operada

não só pelo Estado, mas também pelos partidos, inclusive de esquerda, que precisam ser debatidas e mudadas neste momento atual de discussão política eleitoral no Brasil. 

Ao participar do Encontro de mulheres negras do Nordeste-Amazonia organizado pelo Instituto Odara, muito ouvi das mulheres negras presentes sobre a fragilidade do projeto de país pensado por Lula em que sequer cogitou uma mulher negra para sua vice no lugar de um homem branco que sempre atuou contra os direitos das mulheres negras e periféricas de São Paulo. Não pestanejaram em dizer que vão votar em Lula, mas também apresentaram que não possuem nenhuma ilusão nesse futuro governo que ainda precisa demonstrar qual seu real comprometimento com o movimento de mulheres negras. 

Por isso para a existência de um projeto de nação não há dúvida de que é preciso enfrentar o epistemicídio, tirando da invisibilidade e do silenciamento as narrativas negras. Quando nós mulheres não somos reconhecidas como produtoras de conhecimento que contribui para a formação de políticas públicas em diferentes áreas, fica impossível o enfrentamento real dos nossos problemas. Não dá para acreditarmos que só o conhecimento formulado por brancos no padrão eurocêntrico será suficiente para enfrentar os problemas do Brasil. Precisamos do vasto conhecimento produzido por mulheres negras para que enfrentemos nossas questões. E as mulheres não gestam apenas suas soluções, mas sim uma política de transformação para toda a sociedade. 

É a potência da política feita por mulheres negras que inclusive possibilita uma racialização e feminazação do poder. Não queremos o poder para fazer como a branquitude faz, faremos das nossas formas, com as nossas vestimentas, com o nosso dialeto, com ousadia mas também com ancestralidade. Lélia Gonzalez em suas caminhadas no processo eleitoral, distribuía flores amarelas em homenagem a Oxum. Em vez de falar, Lélia cantava. É assim que as mulheres negras constroem outros modos de fazer política, cantando, dançando, falando. E faremos isso para construir uma outra nação, vencendo o racismo, o sexismo e o capitalismo que articulados e interseccionados são os nossos maiores inimigos. 

Tenho esperanças nas mulheres negras pois sei que contabilizaremos vitórias que inclusive iram além das urnas. Levaremos os projetos de cidade, de política, disputados por nós para reinserir as pautas históricas do movimento de mulheres negras no coração da política nacional. Falaremos do Bem viver, em defesa das vidas, sem termos que conviver com os corpos das nossas ficando pelo caminho. Nós queremos vivas! 

Por mulheres negras no poder, construindo o Bem viver!


Brenda Marques é da Rede de mulheres negras do Piauí e do Afronte (PI).

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