domingo, agosto 7, 2022
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A torcedora e o marginalzinho

do facebook de Rosilene Silva da Costa

Racismo no Futebol

O racismo presente no futebol gaúcho não pode ser visto apenas como um fato isolado de um ou outro clube – ele é o reflexo de como vivem os gaúchos. Eu não sou testemunha disso, mas vítima desta forma de viver: sou gaúcha e colorada. Apesar da polarização do futebol gaúcho, se nesta situação a punição fosse para o Internacional, eu comemoraria da mesma forma, pois são anos de preconceito nos estádios.

Haverá quem conteste dizendo que a torcida gremista é mais racista. Talvez seja maior o número de racistas nesta torcida, que é mais branca por ser o Grêmio um clube, historicamente, mais elitizado. No entanto, os dois maiores clubes gaúchos carregam em sua história a proibição de entrada de negros em suas dependências e mesmo em seus times. Quem nunca ouviu falar sobre a Liga dos Canelas Pretas, fundada no início do século XX, na qual só jogavam pretos e mulatos, fazendo compensação pelos dois times que só aceitavam brancos????

Sobre a torcedora que alguns julgam estar sendo massacrada,  sou avessa a qualquer violência contra ela, seja por ação ou palavras. Mas me assustam muito os argumentos daqueles que a defendem, pois eles apenas revelam que ela não poderia estar sendo exposta desta forma: perdeu o emprego, excluiu o Facebook, teve a casa apedrejada, foi vaiada na delegacia, etc. Mas estas mesmas pessoas, que hoje veem uma jovem branca como vítima da sociedade e do racismo que acima descrevi, há alguns meses atrás não se importavam nem um pouco com aquele negro que foi pego roubando e foi acorrentado em um poste e exposto nu.

Lembram do “marginalzinho” que Sherazade mandou levar para casa? Quando se argumentava que ele era vítima da sociedade ninguém o defendeu dizendo que ele já tinha sido punido: afinal nunca deve ter tido um emprego ou um Facebook, provavelmente nem casa, e foi levado nu para a delegacia. Muito diziam que o rosto dele não devia ser coberto, pois todos deviam ver a cara do meliante. No caso dele, bandido bom é bandido morto. Mas e os reflexos da sociedade racista que o excluiu de tudo?

Então eu sou contra expor o marginalzinho e a favor de expor a torcedora? Sim, eu sou. Ações como a desta torcedora geraram e geram inúmeros “marginaizinhos”.  E a exposição deles, os ditos marginais, não é necessária, porque todo mundo já os reconhece e atravessa a rua quando os vê. Mas a torcedora precisa ser exposta, porque ela esconde o seu preconceito tendo até amigos negros.

Se o marginalzinho, no momento de emoção, porque a privação de direitos gera uma emoção definida como frustração, partiu para o crime e foi exposto com o corpo nu; que a torcedora, que no momento de emoção deixou extravasar seu racismo, seja desnudada de sua aparência de boa moça e pague (que pelo menos ela pague) pelo racismo formador de marginaizinhos neste país.

 

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