A torcedora e o marginalzinho

do facebook de Rosilene Silva da Costa

Racismo no Futebol

O racismo presente no futebol gaúcho não pode ser visto apenas como um fato isolado de um ou outro clube – ele é o reflexo de como vivem os gaúchos. Eu não sou testemunha disso, mas vítima desta forma de viver: sou gaúcha e colorada. Apesar da polarização do futebol gaúcho, se nesta situação a punição fosse para o Internacional, eu comemoraria da mesma forma, pois são anos de preconceito nos estádios.

Haverá quem conteste dizendo que a torcida gremista é mais racista. Talvez seja maior o número de racistas nesta torcida, que é mais branca por ser o Grêmio um clube, historicamente, mais elitizado. No entanto, os dois maiores clubes gaúchos carregam em sua história a proibição de entrada de negros em suas dependências e mesmo em seus times. Quem nunca ouviu falar sobre a Liga dos Canelas Pretas, fundada no início do século XX, na qual só jogavam pretos e mulatos, fazendo compensação pelos dois times que só aceitavam brancos????

Sobre a torcedora que alguns julgam estar sendo massacrada,  sou avessa a qualquer violência contra ela, seja por ação ou palavras. Mas me assustam muito os argumentos daqueles que a defendem, pois eles apenas revelam que ela não poderia estar sendo exposta desta forma: perdeu o emprego, excluiu o Facebook, teve a casa apedrejada, foi vaiada na delegacia, etc. Mas estas mesmas pessoas, que hoje veem uma jovem branca como vítima da sociedade e do racismo que acima descrevi, há alguns meses atrás não se importavam nem um pouco com aquele negro que foi pego roubando e foi acorrentado em um poste e exposto nu.

Lembram do “marginalzinho” que Sherazade mandou levar para casa? Quando se argumentava que ele era vítima da sociedade ninguém o defendeu dizendo que ele já tinha sido punido: afinal nunca deve ter tido um emprego ou um Facebook, provavelmente nem casa, e foi levado nu para a delegacia. Muito diziam que o rosto dele não devia ser coberto, pois todos deviam ver a cara do meliante. No caso dele, bandido bom é bandido morto. Mas e os reflexos da sociedade racista que o excluiu de tudo?

Então eu sou contra expor o marginalzinho e a favor de expor a torcedora? Sim, eu sou. Ações como a desta torcedora geraram e geram inúmeros “marginaizinhos”.  E a exposição deles, os ditos marginais, não é necessária, porque todo mundo já os reconhece e atravessa a rua quando os vê. Mas a torcedora precisa ser exposta, porque ela esconde o seu preconceito tendo até amigos negros.

Se o marginalzinho, no momento de emoção, porque a privação de direitos gera uma emoção definida como frustração, partiu para o crime e foi exposto com o corpo nu; que a torcedora, que no momento de emoção deixou extravasar seu racismo, seja desnudada de sua aparência de boa moça e pague (que pelo menos ela pague) pelo racismo formador de marginaizinhos neste país.

 

Leia também:

Após “adote bandido”, Sheherazade e SBT são denunciados por apologia ao crime – Por: Patrícia Moraes

+ sobre o tema

Primeira mulher trans a liderar bancada no Congresso, Erika Hilton diz que vai negociar ‘de igual para igual’

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi aclamada nesta quarta-feira como...

Estrela do Carnaval, ex-passista Maria Lata D’Água morre aos 90 anos em Cachoeira Paulista, SP

A ex-passista Maria Mercedes Chaves Roy – a ‘Maria...

Aos ‘parças’, tudo

Daniel Alves da Silva, 40 anos, 126 partidas pela...

Iniquidades raciais e as mudanças do clima

O verão brasileiro, embora conhecido pelas belíssimas praias, férias...

para lembrar

Ministra negra diz que está cansada de ofensas, mas não desistirá

A ministra da Integração italiana, Cecile Kyenge, atingida...

‘Se eu fosse branca, não me abordaria’, diz mulher que acusa funcionário de racismo

Maria Angélica, 54, usava turbante, quando foi abordada em...

CBF vai lançar aplicativo para denúncia de casos de racismo

A entidade divulgou no domingo a campanha de conscientização...
spot_imgspot_img

Por que ser antirracista é tão importante na luta contra a opressão racial?

O Laboratório de Estudos de Gênero e História, da Universidade Federal de Santa Catarina, lança nesta quarta-feira (21) o quinto vídeo de sua campanha de divulgação...

Moção de solidariedade da UNEGRO ao Vai Vai 

A União de Negras e Negros Pela Igualdade (UNEGRO), entidade fundada em 1988, com  longa trajetória na luta contra o racismo e suas múltiplas...

Perfeição do racismo brasileiro transforma algoz em vítima

O racismo é um crime perfeito. É com essa frase que o antropólogo Kabanguele Munanga, uma das maiores autoridades do Brasil em estudos raciais, define...
-+=